Os dois institutos nacionais de estatística de
Portugal e Espanha voltam a publicar os dados que
ilustram os principais aspectos da vida das
respectivas populações. É de saudar mais esta
manifestação de boa vizinhança descomplexada que vai
tornando coisa natural olhar para o país do lado,
mesmo quando a relação das populações é de um para
quatro. A relação económica, essa, ainda é maior -
de um para seis e meio - e não é de mais recordar
que a publicação dos dois INE ibéricos mede Portugal
face à oitava (quase sétima) economia mundial.
Face a edições anteriores, não há roturas na relação
relativamente estável entre as condições de vida de
um lado e do outro da fronteira. O nível de vida é
mais alto em Espanha, já se sabe, e a sua qualidade
resume-se no indicador-síntese da esperança média de
vida à nascença: em Espanha vive-se mais dois anos e
meio, em média, do que em Portugal.
Mas, em anos de grande variação económica, como
aquele que vivemos, os dados destas compilações
afiguram-se já desactualizados: a Espanha está
mergulhada numa crise grave, com quebra forte no
valor das casas e escritórios, com uma subida brusca
do desemprego - novamente ameaçando chegar aos 17%,
em fins de 2009 - e a sensação de que os anos
passados de forte crescimento não voltarão tão cedo.
Por cá, como não conseguimos subir muito nos últimos
anos, também sentimos uma queda muito menor. Resta
ler em futuros compêndios dos INE quem na Ibéria
soube sair melhor da actual crise mundial.
O ano que agora termina ficou marcado por várias
catástrofes naturais. Mas as dez maiores crises
humanitárias de 2008 devem-se, segundo os Médicos
sem Fronteiras (MSF), à violência e à negligência
dos governos dos países que enfrentam situações de
emergência e dos outros actores políticos que neles
operam. Na Somália, onde não existe um governo digno
desse nome desde 1991, imperam grupos radicais
islâmicos e piratas. Estes atacam até os navios do
Programa Alimentar Mundial, que, para muitos somalis,
é a única forma de obterem alimentos. A violência
neste país africano levou os MSF a retirar todo o
seu pessoal internacional do terreno. No Zimbabwe e
na Birmânia, dominados por regimes do estilo
ditatorial, os governos ignoram o sofrimento das
pessoas contaminadas com cólera ou com sida e são
suspeitos de desviar qualquer ajuda internacional.
Na região sudanesa do Darfur, onde desde 2003 já
morreram pelo menos 200 mil pessoas, o próprio
Governo é suspeito de instigar à limpeza étnica. No
seu relatório anual sobre as dez piores crises
humanitárias, os MSF alertam que as zonas onde a
ajuda humanitária pode chegar em segurança são cada
vez menos e que isso coloca em risco a vida de
milhões de pessoas. Ou seja, apesar do terremoto na
China e das inundações na Birmânia, a maior parte do
sofrimento não vem da natureza. Vem sim da natureza
dos homens. É, no mínimo, escandaloso.