O que Sócrates pode aprender com Obama em matéria
de Educação José Manuel Fernandes
A escolha de Obama para secretário da Educação
recaiu num homem experiente, que gosta de trabalhar
com as escolas, de testar soluções (incluindo as
charter schools) e que não dita ordens do alto de
uma torre de marfim
Quase todas as escolhas de Barack Obama para a nova
Administração têm suscitado alguma controvérsia, e a
escolha, a semana passada,
de Arne Duncan para secretário da Educação foi, de
uma forma geral, elogiada por todos os sectores - ou
melhor, por todos menos os ligados a certas áreas da
esquerda.
Entre os que mais apreciaram a escolha conta-se
Steven D. Levitt, autor do best-seller Freakanomics,
que escreveu no seu blogue no New York Times não
existir ninguém melhor do que ele para o lugar.
Porquê? Porque, além de ser um homem determinado e
inteligente, Arne Duncan é um pragmático que não
receia testar soluções diferentes para descobrir as
que funcionam melhor. Ou até correr riscos desde que
haja uma pequena possibilidade de, no fim, ter
escolas mais eficientes e alunos mais bem
preparados.
Durante os últimos sete anos superintendeu as
escolas públicas de Chicago, o terceiro maior
distrito escolar do país, e nesse período de tempo
conseguiu resultados assinaláveis: basta notar que
nas escolas básicas as médias subiram de 38 para 67
por cento nos testes nacionais, tendo Duncan corrido
pelo meio o risco de permitir a Levitt que
realizasse um estudo sobre fraudes nesse sistema de
teste que acabou por levar ao despedimento de vários
professores.
Mas não foi só por ter estudado na mesma escola de
Obama, gostar como ele de basquetebol e ser de
Chicago que o Presidente recém-eleito o escolheu.
Foi por algumas das coisas que fez e que o
Presidente recém-eleito fez questão de recordar. Por
exemplo: durante o seu mandato o número de
professores de Chicago que passaram por um teste
nacional de certificação subiu de 11 para 1200; os
melhores directores escolares, assim como os
professores que conseguem fazer progredir os seus
alunos passaram a receber prémios monetários; fechou
escolas comprovadamente ingovernáveis e substituiu
todo o pessoal ao abrir escolas novas; e foi desde
sempre um campeão das chamadas charter schools
"mesmo quando ainda eram controversas", como
sublinhou Obama.
Por isso, desde o liberal Washington Post ao mais
conservador Wall Street Journal, a reacção da
imprensa foi positiva. Este último jornal deu mesmo
mais do que o benefício da dúvida a Duncan, pois
considerou que tanto ele "como o [futuro] Presidente
têm trabalhado para garantir que as charter schools
fazem parte do conjunto de soluções necessárias para
melhorar o sistema de educação [dos EUA]".
É neste ponto que José Sócrates pode inspirar-se em
Obama e distanciar-se dos que criticaram esta
nomeação por ser contra a escola pública (ver, por
exemplo, o artigo Obama's betrayal of public
education? Arne Duncan and the corporate model of
schooling, de Henry A. Giroux and Kenneth Saltman,
no blogue t r u t h o u t). E pode fazê-lo em dois
pontos centrais, ambos contraditórios com a política
do actual Ministério da Educação.
O primeiro é que existe mais do que uma solução
possível para melhorar o sistema educativo e que a
melhor solução não tem de ser imposta pela
burocracia do ministério a todas as escolas, pois
nem todas as escolas são iguais. Ora isto implica
experimentar soluções diferentes e, entre elas,
testar o modelo das charter schools que tanto
sucesso têm tido nos Estados Unidos e no Canadá.
E o que são as charter schools? Na Annuália (edições
Verbo) do ano passado, Fernando Adão da Fonseca, do
Fórum para a Liberdade de Educação, descrevia-as
assim: são "escolas públicas cuja gestão é atribuída
a entidades privadas, com e sem fins lucrativos, por
contrato". O contrato tem objectivos, a autonomia de
cada escola relativamente às autoridades é total, o
acesso é livre para todos os alunos seja qual for o
rendimento da sua família, a exigência é grande e
por regra são menos pressionáveis pelos infinitos
grupos de interesse que gravitam em torno das
escolas públicas tradicionais. Daí que os que nela
estudam consigam por regra melhores resultados, como
provam os levantamentos realizados em Chicago onde
se mostra que estes, em média, ficam 80 por cento
acima das escolas públicas tradicionais nos mesmos
bairros.
"Ao trocarem entre si a experiência de inovações que
funcionam, as charter schools podem ajudar outras
escolas e mais estudantes através de todo o sistema
público de educação", notava um dos apoiantes desta
escolha, Tim King, ele mesmo um impulsionador da
experiência em áreas urbanas.
Já quanto ao que Obama disse ao justificar a sua
escolha, não poderia ser mais diferente do que temos
ouvido aos responsáveis portugueses. Note-se, por
exemplo, nesta passagem: "Quando Arne se dirigir aos
professores, não o fará falando do alto de uma torre
de marfim, antes tendo por base as lições que
aprendeu durante os anos em que trabalhou procurando
mudar as escolas a partir da base, [não do topo]."