Tudo como dantes, nada como dantes António Barreto Retrato da semana
O critério de vida é vencer, o que significa
derrotar e liquidar os outros. Quem vence tem razão
porque vence
A turbulência financeira que atravessou o mundo e
está longe de se dissipar já provocou a mais
completa série de verdades definitivas e sobretudo
contraditórias. Têm de comum o disparate e a
inabalável certeza dos seus autores. "Marx tinha
razão"; "É o fim do capitalismo"; "Acabou a
hegemonia americana"; "Nada será como dantes"; "O
Estado tem de tomar conta da economia"; "Vão mudar
os padrões de consumo"... Em sentido contrário,
também temos: "O capitalismo vai recuperar"; "A
iniciativa privada vai ultrapassar a crise"; "Vamos
refundar o capitalismo"; "A crise gera novas
oportunidades de negócio"; "A União Europeia vai
liderar a recuperação das economias"... Sem
comentários.
Mais uma vez, anuncia-se um "novo paradigma". Não se
sabe o que quer dizer, mas é "chique". E misterioso.
Mais poder político? Mais supervisão e regulação?
Mais justiça? Mais ética? Novos padrões de consumo?
Mais Estado? As únicas certezas são o menor
crescimento, o desemprego e a redução do conforto. O
resto é uma incógnita. Até porque as mudanças de
comportamentos demoram décadas. E as mudanças de
leis e de instituições exigem políticos e
legisladores à altura, com autoridade e legitimidade
- o que também é uma incógnita.
A regulação falhou. É o que todos dizem, menos os
reguladores. Convinha saber por que falhou a
regulação. Os vigaristas têm meios mais
sofisticados. Os reguladores, a justiça e as
polícias estão atrasados. Estas são as razões
superficiais. Mas há outras. Os reguladores e os
políticos conhecem intimamente os especuladores e os
predadores. Não só se conhecem, como se estimam e
convivem. Têm mesmo, simultânea ou sucessivamente,
interesses comuns. O triângulo formado pelos
políticos, os reguladores e os especuladores
constitui um percurso pessoal que muitos fazem
airosamente nas suas carreiras. Muitos políticos e
muitos reguladores consideram que os predadores e os
especuladores têm o direito de se entregar às suas
actividades, de operar no mercado livre, de ter
sucesso e de vencer nos negócios. Se é verdade que
houve Estado a menos, também é certo que Estado a
mais não é a resposta. Pois o Estado é... os
políticos!
Por uma vez, os políticos deste mundo não parecem
ser os principais responsáveis. Mas não estão
isentos. Falharam na regulação, na fiscalização e na
inspecção. Falharam na justiça, na investigação e na
penalização. São, frequentemente, parceiros,
cúmplices e amigos dos bilionários e dos predadores.
Os governos, a começar pelo português, têm dado
lições inesquecíveis que todos os manipuladores do
mercado usam como inspiração. Mentira, leis
retroactivas, mudança inesperada de regras, intrusão
na vida privada dos cidadãos, instabilidade fiscal,
falta de cumprimento de cláusulas contratuais,
adjudicações de favor, licenças sem concurso
público, favoritismo e nomeações de altos dirigentes
por confiança partidária, tudo tem justificação,
tudo se explica pela necessidade de vencer, de
crescer e de ganhar eleições. Os políticos, tanto de
esquerda como de direita, contribuíram decisivamente
para a criação deste clima doutrinário e espiritual.
O poder político, entre nós como no resto do mundo,
não revelou ter padrões morais superiores aos dos
predadores. Não mostrou ser mais digno de confiança.
Não garantiu que impede a promiscuidade e o livre
enriquecimento dos políticos. Não tornou evidente
seguir uma regra ética superior à que tem guiado os
especuladores e seus amigos.
As doutrinas da força, do líder, da vitória, do
condicionamento da informação e da propaganda
impuseram a "visão positiva" do mundo e das coisas,
consagraram o "optimismo" como dogma de atitude. Os
que duvidam foram definitivamente arrumados na
categoria de pessimistas e frustrados. A ideologia
do sucesso, a qualquer preço, com qualquer lei,
domina a cena pública há anos. As ideias, os valores
e as normas que regem a vida dos capitalistas e dos
gestores responsáveis pelas crises e pelas fraudes
são o resultado de uma consolidação doutrinária e
moral com meia dúzia de décadas.
Por isso não é realista esperar pela "mudança de
paradigma". Alguém pensa que é possível as famílias
decidirem por si próprias diminuir o consumo?
Renunciar às segundas casas? Deixar de passar férias
no Brasil ou no México? Abdicar de ter um ou dois
carros, dois ou três computadores, três ou quatro
televisões? Desligar o aquecimento e o ar
condicionado? Reduzir o consumo de máquinas de
lavar, de frigoríficos e de Bimbys? Abandonar o
carro particular e utilizar os transportes públicos?
Ninguém o fará. A não ser que a isso sejam forçados
pelo desemprego, pelo corte de crédito, pelos
aumentos de preços e pela diminuição de rendimentos.
As pessoas mudam por consciência e esforço
voluntário, quando têm real interesse nisso.
Interesse material ou espiritual. Mas não mudam
voluntariamente para diminuir o seu conforto e as
suas aspirações. Mudam quando não têm alternativas.
Por necessidade. Ou por imposição. Quem vai fazer
mudar os comportamentos? As forças do mercado? Será
doloroso. A necessidade? Ainda mais. Os políticos?
Não têm vontade, nem legitimidade para o fazer. Eles
aplicam à política os mesmos valores que os
especuladores, as mesmas regras que os predadores,
os mesmos critérios que os aldrabões aplicam às
finanças internacionais.
Há 30 ou 40 anos que as populações aspiram às
delícias da vida moderna. Os que já lá chegaram
querem mais e não renunciam. Os que ainda não
chegaram consideram uma suprema injustiça serem
agora travados. Foram condicionados pelos mais
poderosos aparelhos de publicidade e informação que
a humanidade jamais conheceu. A propaganda política
deu uma ajuda poderosa. Há décadas que os governos,
as televisões, a imprensa e os grandes grupos
económicos comungam um punhado de ideais que
presidiram à nossa vida colectiva. Para usar o
lugar-comum conhecido, o ter substituiu o ser. O
critério de vida é vencer. Sempre, a qualquer preço.
Vencer significa derrotar e liquidar os outros. Quem
vence tem razão. E tem razão porque vence. É a
democracia no seu pior. Maior. Mais alto. Mais
depressa. Mais pesado. Mais forte. Mais rápido. Já
não se trata de jogos olímpicos, eles próprios
transformados em feira de animais. Trata-se da vida
quotidiana. Para se chegar lá, ao "topo", para se
ser "líder", tudo o que se pode fazer deve ser
feito. Incluindo aldrabices, ilegalidades, golpes,
mentira, publicidade enganosa e corrupção. Tudo o
que justifique ganhar votos, vender mercadoria e
eliminar os rivais não só pode ser feito, como deve
ser feito. Sob pena de ser designado na praça
pública por perdedor, incapaz ou parvo. E ninguém
quer ser parvo! Sociólogo