O risco de deflação existe e ameaça apresentar-se
como o clímax inevitável da tragédia anunciada
Temia-se e aconteceu. Afinal não foi preciso sequer
esperar pelos temíveis dois trimestres consecutivos
de queda do produto. Já estava. E estava há tanto
tempo que nem deveria ser notícia. A maior e mais
poderosa economia do mundo está, afinal,
oficialmente em recessão desde Dezembro de 2007.
Anunciou-o há pouco mais de 15 dias o National
Bureau of Economic Research (NBER), com a
tranquilidade dos cientistas que não se sentem
obrigados a dar notícias em primeira mão,
preocupados apenas em determinar, para a história,
qual o exacto momento em que um ciclo económico se
inicia ou termina. Numa indiferença épica sobre se o
ciclo onde se encontram é, ou não, o da sua própria
falência.
Ainda assim, a humilde declaração foi recebida com a
pompa e circunstância devida às grandes tragédias.
Porque é disso que falamos, quer queiramos quer não,
quando nos referimos a esta qualquer coisa
desconhecida que se apresenta no cartão de visita
como sendo "o pior" de tudo o que já conhecemos de
mau no período do pós-guerra.
Para rematar o azar, bastou o anúncio para, a partir
daí, até as boas notícias deixaram de ser boas. A
começar na descida da inflação com a diminuição
histórica nos Estados Unidos (uma quebra sem
paralelo desde 1947). Em Portugal a queda homóloga
foi também a mais acentuada dos últimos 30 anos.
Ora, em vez da notícia nos suscitar um momentinho
breve de conforto veio somente confirmar o que mais
se temia: o risco de deflação (redução do
crescimento acompanhada de uma espiral de descida de
preços) existe e ameaça apresentar-se como o clímax
inevitável da tragédia anunciada. Em Portugal o
perigo ainda é ténue, porque a queda de preços se
deveu especialmente à energia e aos bens
alimentares, mas, na América, a ameaça é enorme,
porque a descida está já perigosamente generalizada
a uma série de outras classes.
Se dúvidas houvesse, bastaria lembrar a penosa via
sacra japonesa ao longo da década de 90, quando o
país se mostrava incapaz de se livrar da armadilha
de um empobrecimento compulsivo, para se perceber de
que cenário estamos a falar.
Ainda assim, os americanos receberam nas últimas
semanas outras notícias que lhes permitem ter
esperança sobre a forma como a crise pode vir a ser
atacada no futuro. Obama não só apresentou uma
equipa de luxo na economia, como, e sobretudo,
mostrou ser um verdadeiro líder ao rodear-se dos
melhores, sejam eles democratas, republicanos ou até
a sua mais temível concorrente e ex-rival. Num
momento em que a confiança é o bem mais escasso e
precioso do mercado, um líder assim vale ouro,
porque não só reconquista a confiança perdida na
gestão da coisa pública como... a inspira.
O mesmo já não se poderá dizer da Europa. À
desilusão que se seguiu ao anúncio do Plano Barroso
(um punhado de projectos bem-intencionados à mistura
com algumas ideias piedosas de estímulo à manutenção
e criação do emprego, a que a Comissão afectou menos
de 2 por cento do produto interno da zona...)
soma-se a decepção da reacção em cadeia às ideias da
Comissão pela maioria dos principais visados.
Desta vez, contudo, o Governo português superou as
expectativas e mostrou-se à altura da situação.
Aparentemente resistiu a enveredar pela linha
populista e pelo caminho perigoso da descida de
impostos com custos certos e benefícios incertos.
Quem nos garante que quem não compra um leitor de
DVD por 40 euros o comprará a 38 ou 35? Bem
perguntava o ministro alemão ao seu colega
britânico, entusiasta da ideia.
De facto, não é sequer preciso pensar em exemplos
tão reais quanto o ocorrido em Portugal com a
célebre descida do IVA dos ginásios (integralmente
apropriado pelas empresas prestadoras do serviço)
para perceber que reduções do IVA ou do IRS teriam
como único reflexo certo a descida das receitas
fiscais. Isto, para já não falar de descidas de IRC
que, na ausência previsível de lucros, se tornam
quase risíveis.
Menos receitas tornariam mais certo um disparo do
défice e, fundamentalmente, reduziriam ainda mais a
margem de manobra dos Estados para reforçar a
despesa indispensável ao apoio social aos mais
pobres, e ao expectável disparo do número de
desempregados. Aí sim, é urgente concentrar todos os
esforços e o Governo, por uma vez, parece tê-lo
finalmente percebido.
Escrevo antes de conhecer os dados do desemprego
registado que, por estes dias, hoje ou
segunda-feira, o IEFP deverá revelar. Mas não
precisamos sequer de nos valer do seu previsível
aumento para entender que hoje o desemprego já está
no limiar do socialmente suportável. E por isso
merece ser combatido como o inimigo público número
1.
Basta somar ao número de desempregados,
contabilizados pelo INE no terceiro trimestre,
aqueles 72 mil que o próprio inquérito classifica
eufemisticamente como "inactivos disponíveis" (os
que, embora dizendo-se desempregados, por alguma
razão não desenvolveram nas semanas imediatamente
anteriores ao inquérito as chamadas "diligências
activas" para encontrar emprego) e os outros quase
64 mil "biscateiros" (os que trabalharam umas poucas
horas semanais, mas estariam dispostos a trabalhar
muitas mais, se tivessem essa oportunidade) para
concluir da existência de pelo menos outros 135 mil
desempregados que escapam às estatísticas oficiais.
Feitas as contas, são 536 mil que o bom senso nos
diz estarem desempregados. Assim sendo, a taxa
oficial de desemprego de 7,7 por cento traduz-se
numa taxa "efectiva" superior a 10 por cento!
O Governo não gosta que se façam estas contas,
reclamando que elas não utilizam a metodologia comum
entre os pares da União. Tem razão nesse ponto. Mas
perde-a quando do que se trata é tão-só perceber a
real dimensão social do fenómeno.
Não custa por isso entender que, quando o Governo
anuncia um plano de combate à crise para apoiar
directa e indirectamente a manutenção de "outros 500
mil postos de trabalho", como corajosamente admitia
terça-feira Teixeira dos Santos à Renascença, do que
se trata é de evitar que uma taxa de 10 por cento de
desempregados, no limite do socialmente suportável,
salte rapidamente para uns temíveis 20 por cento. A
integração de 30 mil desempregados em IPSS terá além
disso uma dupla vantagem. Dá emprego e auto-estima a
quem mais precisa e aumenta a capacidade de melhorar
e reforçar serviços essenciais. É boa despesa
pública.
Sem se olhar ao desemprego previsível não haveria
apenas o risco de explosão social de que eu falava
aqui na minha última crónica, repegando nos avisos
de Garcia Leandro e Mário Soares (num notável
primeiro artigo de aviso escrito há quase um mês no
DN). Alerta repetido esta semana, num segundo texto,
com ainda maior vigor (escudado agora no exemplar
caso grego e fustigando impiedosamente as pretensas
alternativas sobre a sua efectiva coerência).
A ameaça de 20 por cento de desemprego é certeza de
uma crispação social insuportável que, a somar à
desilusão latente com a qualidade da nossa
democracia, nos poderia colocar à beira do colapso
do próprio regime. Evitar a todo o custo este
cenário só pode ser um objectivo louvável - ainda
que o custo não esteja claro e o sucesso esteja
longe de estar garantido e, a prazo, seja duvidosa a
solidez e a consistência da estrutura do emprego
entretanto assegurada.
Apesar dos pesares, num país onde 34 por cento das
famílias monoparentais, 27 por cento dos idosos e 43
por cento das famílias com mais de três crianças
estão em risco de pobreza, não é sequer preciso
somar a ameaça da contestação corporativa das ruas
ou o azar de uma bala perdida de um polícia acossado
por um bando de adolescentes embriagados. Por menos
do que isso, por muito menos do que isso, como um
fósforo que pega inadvertidamente a um rastilho,
corremos o sério risco de desconseguir. Jornalista
P.S. - Constâncio está vingado. Quando ninguém
acreditava na mais leve hipótese de ter sido
possível a um regulador minimamente competente e
atento ignorar aquela bola de neve do escândalo BPN,
com anos a fio de notícias e alertas nos jornais, ou
nunca ter reparado nas off-shores do BCP, ou
calculado os riscos acrescidos da dinâmica gestão do
BPP, eis que o caso de Bernard Maddof lhe vem
resgatar incólume a reputação de competência.
Afinal aos investigadores do FBI que foram buscar um
dos mais respeitados financeiros a casa na esperança
de ouvir da sua boca a "explicação inocente", ele
apenas tinha para lhes responder: "Não há nenhuma
explicação inocente."
Se nos Estados Unidos a D. Branca chegou a
responsável máximo do Nasdaq, arrastando na sua
queda mais de 50 mil milhões de prejuízos espalhados
por todo o mundo (perto de 100 milhões dos quais em
Portugal), é caso para concluir pela necessidade de
se repensar todo o sistema, é caso para levar todos
os analistas a um prudente e humilde mea culpa.
Reconheçamo-nos todos (opinadores, supervisores e
reguladores incluídos) como um bando de tansos,
incompetentes e facilmente enganáveis. Ficará alguém
sem culpa para atirar ao governador uma primeira
pedra?