Movimentos juvenis e conflitualidade Elísio Estanque
A ausência de perspectivas de futuro parece estar a
induzir um "ressentimento geracional" propício a
respostas radicais
Os recentes distúrbios na Grécia ou os que ocorreram
há poucos anos em França, envolvendo milhares de
jovens em fúria, podem suscitar a dúvida quanto à
possibilidade de uma onda semelhante de agitação
social vir a atingir o nosso país.
Apesar de a ideia dos "brandos costumes" permanecer
colada à imagem de Portugal, não é preciso recuar
muito na nossa história para se constatar que a
suposta resignação dos portugueses tem os seus
limites. A I República e o 25 de Abril de 1974
deixaram as suas marcas no plano da contestação e do
radicalismo político. Muito embora o actual contexto
seja bem diferente do desses períodos, a realidade
social e económica é sempre um factor decisivo para
a eclosão de protestos sociais, independentemente
das causas próximas - um excesso, um abuso ou uma
morte inocente -, as quais constituem apenas a
faísca que pode incendiar a pradaria.
Os movimentos sociais dos anos 60-70 surgiram na
sequência de um conjunto de rupturas socioculturais
contra a mentalidade convencional, o clima de Guerra
Fria, a corrida aos armamentos, as agressões ao
ambiente, a segregação sexual, etc., denunciando as
insuficiências da democracia representativa. Tudo
isto nos países avançados do Ocidente, onde uma
economia em crescimento e um Estado-providência
forte pareciam garantir um futuro de bem-estar
geral. Esses movimentos, animados principalmente por
sectores juvenis e escolarizados, filhos das classes
médias e superiores, orientavam-se por atitudes e
subjectividades pós-materialistas, uma vez que as
necessidades materiais estavam asseguradas e eram
(ou pareciam ser) irreversíveis.
Ontem, como hoje, uma parte do que anima os
movimentos juvenis, como o Maio de 68 em Paris,
deriva das condições de emergência que mobilizam os
grupos e as comunidades, o que requer a
identificação de um opositor, de um "inimigo".
Mas enquanto nessa altura era a consciência política
e as autoproclamadas "vanguardas" que assumiam a
liderança da luta, neste início do século XXI a
acção colectiva perdeu parte do seu conteúdo
político. Dito de outro modo, continua em vigor o
princípio da "válvula de escape", mas os seus
efeitos são politicamente mais incertos. As ondas de
protesto e o discurso de indignação que as
acompanha, exacerbados por um poder de Estado de
cariz autoritário, podem ganhar um efeito mimético
de proporções imprevisíveis, se para tal as
condições sociais se tornarem propícias.
Ninguém pode prever qual o grau de contágio que o
caso grego pode adquirir no resto da Europa. Mas o
certo é que a juventude europeia se debate com uma
absoluta falta de perspectivas de futuro. Tal
imprevisibilidade e em especial as perspectivas
sombrias no plano do emprego vêm condenando os
jovens licenciados a trabalhos descompensados e mal
pagos (a geração dos 500 ou 700 euros), a uma
precariedade que se prolonga muito para lá do
tolerável. Isto é, sem dúvida, um cenário social bem
longe da situação que se vivia nos idos anos 60 do
século XX. Hoje, ao contrário daquela década, os
problemas e carências materiais (leia-se, ausência
de um emprego decente) voltaram a ser a primeira das
necessidades por satisfazer.
Nesse aspecto, como em vários outros, a Europa
regrediu. Hoje, o movimento estudantil já não
exprime um radicalismo de classe média, tornou-se
antes expressão do descontentamento de milhares de
famílias de escassos recursos, que investiram nos
seus filhos para lhes dar uma educação (e um
"título" de Dr.), mas que agora se encontram no
limbo entre a precariedade e o desemprego.
Apesar de a juventude actual se mostrar
relativamente indiferente perante a política e a
"esfera pública", o consumismo alienante já deixou
de ser suficiente para compensar a "privação
relativa" com que se confrontam milhares de jovens.
Na verdade, a ausência de perspectivas de um futuro
condigno (pelo menos tão bom como o dos pais) parece
estar a induzir um "ressentimento geracional" que, à
falta de medidas adequadas, será propício a
respostas radicais e a uma agitação social
envolvendo não só os sectores escolarizados com
trabalho precário ou em busca do primeiro emprego
mas, porventura atrás deles, outros segmentos
sociais igualmente empurrados para as margens da
sociedade. Sociólogo, Centro de Estudos Sociais da
Universidade de Coimbra