Os jornalistas só existem para fazer perguntas
combinadas? Ana Jorge pensa que sim
Nos anos 70, o combinado estava na moda. O combinado
era uma refeição ligeira, cujo sabor propriamente
dito não interessava nada porque o interesse do
combinado estava no aspecto. Aquelas camadinhas de
pão de forma torrado, mais as folhas de alface,
queijo, fiambre e um ovinho estrelado a rematar eram
a estrutura ideal para se desconstruir, enquanto se
discutia o último artigo do Sartre ou teorizava
sobre a abertura a leste.
Claro que existiam combinados para vários gostos e
bolsas mas o que contava no combinado era aquele
lado "faz de conta que é refeição mas não é
refeição". Ora, o combinado, agora na versão
jornalística, está de volta. (Na versão gastronómica
será mais difícil. Em primeiro lugar porque o país
parece subitamente uma comunidade de gastrónomos e
enólogos que saltitam de clubes gourmet para cursos
de vinhos e sobretudo porque desde que o muro de
Berlim caiu que nada de tão
dilemático-desconstrutivo apareceu quanto outrora o
foi o marxismo para fazer a humanidade abstrair-se
do que mastiga). Quanto ao combinado jornalístico
está de facto triunfante, como a ministra Ana Jorge
fez o favor de lembrar a um jornalista da RTP: "O
quê? O senhor não sabe o que está combinado? Que
hoje só pode fazer perguntas sobre esta cerimónia e
sobre o plano de combate à sida nas escolas? Ainda
por cima é da RTP, a televisão pública, a fazer uma
coisa destas. E, depois, logo à noite, não sai a
reportagem" - exclamou indignada a ministra da
Saúde.
Como é óbvio, quem convoca uma conferência de
imprensa é livre de responder ou não às perguntas
colocadas e os membros do Governo ali presentes
tinham o absoluto direito de lembrar aos jornalistas
que estavam ali para falar dum plano de combate à
SIDA. Outra coisa bem diversa é que uma ministra
pressuponha que os jornalistas estão ali para fazer
perguntas combinadas e que a televisão pública tem a
obrigação de cumprir com especial desvelo o produto
dessa combinação. Mas enfim, a ministra Ana Jorge
sabe que lhe basta convocar uma nova conferência de
imprensa para anunciar que vai baixar o preço de
alguns medicamentos ou torná-los gratuitos para
saber que terá uma nova onda de boa imprensa, pois
de há muito que ninguém pergunta a um ministro quem
paga o que eles dizem ser gratuito ou aquilo que
prometem dar.
Contudo, seria excelente que os jornalistas tomassem
à letra o raspanete de Ana Jorge e fizessem
perguntas a sério, nas centenas de conferências de
imprensa organizadas pelo Governo e pelas autarquias
para apresentação de outras tantas centenas de
planos. Talvez assim se tornasse mais claro que de
muitos desses planos (para lá do power point da
apresentação, com aquelas frases do costume a
exalarem o estilo inconfundível das agências de
comunicação) não existe mesmo mais nada para
mostrar.
O poder habituou-se a que plano apresentado é plano
para os jornalistas divulgarem com o empolgamento
acrítico de um serviço de propaganda. Mas não só. O
poder conta que plano apresentado é plano que
fazemos de conta que existe e sobre o qual não se
prestam mais informações além daquelas boas-novas
transmitidas nas cerimónias de apresentação. Só essa
combinação explica, por exemplo, que o presidente do
Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT), João
Goulão, nunca tenha sentido a obrigação de explicar
o que aconteceu com o Plano de Troca de Seringas nas
prisões que teve um insucesso de 100 por cento, uma
percentagem que, à excepção da Síria e da Líbia, não
é normal em lugar algum do mundo. Não sabemos o que
acontece nas cadeias portuguesas para que se
verifiquem estes valores de rejeição a um plano que
o IDT expôs tão brilhantemente aquando da
apresentação e o pior é que o IDT também parece
saber pouco ou calar-se sobre o que sabe. Mas
sabemos que a apresentação do dito plano correu
muito bem, tão bem que pouco mais se falou sobre
ele. E muito menos sabemos o que é feito do Plano de
Intervenção Estrutural para o Sector Cultural no
horizonte 2007-2013. Mas não nos envergonhemos com a
nossa ignorância, porque no próprio Ministério da
Cultura, que encomendou o plano e a quem pedi para o
consultar, também não conseguiram até agora
localizá-lo.
Não têm conta os planos anunciados por ministérios e
autarquias dos quais ninguém mais ouviu falar após a
cerimónia de apresentação. Ora, como nunca é tarde
para mudar de hábitos, comecemos exactamente por
este plano de combate à sida nas escolas. Como a
ministra manda, vamos falar sobre o combinado - o
plano - e o seu ministério compromete-se a responder
sobre os seus resultados com dados mais precisos do
que os números balbuciados na AR pela senhora
ministra quando inquirida sobre as dívidas do
Serviço Nacional de Saúde.
a McDonald é sinónimo de mau gosto. A propósito das
mudanças na Antena 2, Mário Vieira de Carvalho
condenou no PÚBLICO o que define como "macdonaldização"
daquela estação de rádio. Para lá do que pensa o
ex-secretário de Estado da Cultura sobre a Antena 2,
gostaria de perceber o que o leva a considerar que
está combinado que MacDonald é sinónimo de mau
gosto. Coisa a evitar. Pois tal combinação é duma
arrogância insuportável. Os restaurantes como o
McDonald atendem com a mesma atenção e delicadeza
ricos e pobres. (E para muitos pobres é aquele o
único sítio onde são tratados como clientes.)
Proporcionam a pessoas que não têm dinheiro para
debicar a preço de ouro as tendências da slow food
um espaço de restauração limpo, agradável, quente no
Inverno, fresco no Verão e onde se pode estar
sentado o tempo que se quiser, independentemente do
preço da garrafa de vinho que veio para a mesa ou do
cargo que se ocupa na escala do poder. E por fim,
mas não menos importante, tanto pelas pessoas que
empregam como pela variedade de quem o frequenta, as
cadeias de fast food - que também têm saladas e
sopas! - fazem mais pela integração dos imigrantes e
pelo cruzamento de culturas do que muitos desses
constrangedores exercícios narcísico-clientelares
que o Estado português paga (e que inadequadamente
são designados política cultural) com vista à
promoção do multiculturalismo e da integração.
a Os jovens contestatários gregos apenas têm um
problema de expressão. Suponhamos que os meninos que
na Grécia queimam carros, destroem edifícios e
agridem quem lhes aparece pela frente - como se esse
fosse um seu direito natural - em vez de se dizerem
anarquistas ou activistas de esquerda se
reivindicavam nazis. Será que seriam tratados com a
mesma bonomia para não dizer cumplicidade mediática?
Considerar-se-ia normal que as notícias tivessem
como pressuposto que o Governo grego se devia
demitir para que assim os tumultos parassem e os
meninos se dessem por vitoriosos e satisfeitos?
Claro que não. Mas infelizmente está combinado que
se o vandalismo for praticado por grupos que, mesmo
que muito longinquamente, se possam dizer de
esquerda ou identificar com ela então passam de
vândalos a activistas contestatários, jovens um
pouco exaltados em processo de contestação a uma
sociedade decadente e ela sim culpada por tudo
aquilo que eles fazem ou não fazem. Há combinados
que nunca mudam, e este é um deles. Para a mesa das
notícias este combinado vai sempre acompanhado da
forte convicção de que os prejuízos devem ser
estoicamente suportados pela mesmíssima sociedade
que aquelas criaturinhas tanto abominam mas na qual
têm um estatuto privilegiadíssimo.
a Na escola não há violência e sobretudo na Casa Pia
tudo vai no melhor dos mundos. Esta não é apenas uma
combinação. É um dogma. E contrariar um dogma não é
fácil. Não adianta que os comerciantes da zona
próxima ao colégio onde foi assassinado o aluno da
Casa Pia digam que as rixas são frequentes. As
declarações dos alunos do colégio em questão sobre a
frequência dos desacatos também não beliscam a fé
oficial do "está tudo bem" que vigora na Casa Pia.
Aliás, da presidente do conselho directivo daquela
instituição, Joaquina Madeira, além das declarações
sobre que "era impensável" um ataque destes, o que
de mais notório se lhe conhecia eram umas
apreciações estéticas sobre o símbolo da Casa Pia.
Na visão ideológico-estética da escola que vigora
está combinado que tudo vai no melhor dos mundos.
Não vai, mas há quem esteja disposto a tudo para
literalmente manter a combinação.