Será que este movimento de baixas das taxas de juro
pode evitar a forte recessão? É quase certo que não
Desde a Austrália e Tailândia até à Suécia e
Inglaterra os bancos centrais, incluindo o BCE,
entraram em competição na baixa das taxas de juro.
Apenas o Japão, com a taxa de intervenção em 0,3%,
ficou quieto, mas praticamente todos os outros
baixaram as suas taxas para níveis nunca vistos. A
recessão já certa, a depressão como potencial e o
fantasma da deflação levaram a esta corrida nos
cortes. Será que este movimento de baixas das taxas
de juro pode evitar a forte recessão? "É quase certo
que não", é infelizmente a resposta.
Não tenho dúvidas que estes movimentos são mais do
que adequados e necessários, mas a crise está longe
de estar debelada ou sequer de poder ser debelada
com estes cortes nas taxas. Não podemos esperar
demasiado, neste momento, da política monetária, por
várias razões.
Por um lado, em tempos normais a política monetária
não é tão poderosa quanto alguns pensam. E, tal como
em muitas políticas públicas, se forem mal
conduzidas podem causar graves estragos, mas, se bem
conduzidas, apenas propiciam o ambiente para o
crescimento. No entanto, nada garantem,
infelizmente.
Por outro lado, estamos a viver tempos de crise e os
canais normais de transmissão da política monetária
estão seriamente afectados.
O efeito mais positivo (e mais certo) da queda das
taxas é o alívio para as famílias e empresas que,
estando endividadas, vêem cair o peso mensal dos
juros a pagar. Mas apenas na medida em que as taxas
de mercado acompanhem as taxas do banco central. Há
pouco mais de um mês, quando teve lugar um corte
coordenado das taxas de praticamente todos os bancos
centrais, referi que as taxas de mercado não cairiam
necessariamente. E assim foi: a Euribor até subiu,
porque o problema era de liquidez (quantidade), não
de taxas (preço). Apenas passados uns dias, quando o
BCE anunciou uma política de liquidez irrestrita, as
taxas começaram a cair. Apesar de tudo, desta vez, o
efeito nas taxas de juro de mercado será visível,
mas duvido que o impacto seja igual ao corte do BCE:
o risco, melhor, o medo, continua a dominar o
mercado.
Um outro efeito que geralmente se obtém num corte de
taxas é a depreciação da moeda e, desta forma, a
dinamização das exportações e da economia. Mas as
taxas de câmbio estão dominadas por outros efeitos
de expectativas, pelo que não se alterarão
significativamente por esse facto. Além disso,
quando todos os bancos centrais estão a cortar as
taxas, o impacto nos câmbios anula-se: simplesmente
não podem todos, simultaneamente, depreciar a moeda.
Mais ainda, com o corte das taxas de juro dos bancos
centrais (e baixando os juros do mercado) procura-se
estimular o investimento. O investimento em
habitação é particularmente sensível a tais
políticas, mas, neste momento, o mercado imobiliário
está dominado pelas expectativas de forte e
sustentada queda nos preços. Assim sendo, é sempre
vantajoso esperar mais algum tempo para comprar mais
barato, pelo que este efeito domina qualquer descida
dos juros.
Quanto ao investimento
empresarial, este é pouco sensível às taxas de juro
e, no contexto actual, também dominado pelas
expectativas da recessão. A queda nas taxas de juro
nenhum efeito terá no investimento empresarial e por
muito tempo.
Por último, os bancos continuam com escassez de
liquidez, ou seja, mesmo a procura de crédito para o
normal funcionamento das empresas é difícil de
satisfazer pelo sector bancário a qualquer preço.
Cada vez mais os bancos, em todo o mundo, parecem
sapatarias do tempo da União Soviética: as botas
eram baratas, mas o que não havia era botas para
vender. Hoje, o crédito está barato, não há é
crédito.
Por tudo isto, não podemos esperar grandes efeitos
das recentes medidas de política monetária tomadas
por todos os bancos centrais. Mas isto não significa
que os cortes nas taxas não sejam necessários, bem
pelo contrário. O fantasma da deflação assim o
exige. A possibilidade de as taxas de inflação serem
negativas é real: as taxas de inflação caíram em
grandes economias, e num só mês cerca de um ponto
percentual, o que é muito significativo. E, se
somarmos o efeito do preço do petróleo, a
possibilidade de deflação passa (quase) a uma
certeza.
E, como mostram os últimos 15 anos do Japão, em
depressão e deflação, a política monetária não
existe e os problemas económicos são brutais e
difíceis de combater. Com os preços a caírem, é
sempre preferível adiar o consumo para mais tarde e,
portanto, o crescimento é anémico (ou mesmo
negativo) por longos períodos de tempo. Alguns
políticos (cá e lá fora) rebentam de contentes, pois
pensam que a política orçamental é a solução.
Simplesmente também não é verdade. O Japão começou
exactamente com a política orçamental nos primeiros
dez anos de depressão e o resultado foi um desastre
ainda maior. Nos anos 90 o Japão, com esta política,
apenas conseguiu passar a ser o país mais endividado
do mundo e baixou o rating internacional da sua
dívida. Só quando atacou o problema onde ele estava
- os bancos - conseguiu algum resultado real e ainda
hoje muito frágil.
Estudar é, exactamente, aprender com os erros dos
outros. É que aprender com a experiência própria é
bom, mas é muito melhor aprender com a experiência
alheia. E sai sempre mais barato, porque a
experiência primeiro faz o exame e só depois dá a
lição. Professor universitário