Educação em mundos paralelos e ilusórios Nuno Pacheco
A ministra não cede, os professores também não. A
ministra diz que a avaliação continua, os
professores garantem que parou. São dois mundos
paralelos, onde a ilusão pesa e a satisfação, na
verdade, não existe
Ontem, como era de esperar, a reunião entre a
ministra da Educação e a Plataforma Sindical não deu
qualquer resultado. Um ano de penoso braço-de-ferro
não levou, até à data, a nada que não fossem
exibições de força. A ministra, embora admita
alterar o modelo de avaliação no próximo ano
lectivo, insiste que este ano tem que ser aplicado.
Não o faz com nenhuma razão lógica, embora já se
perceba que o processo será, no final, com toda a
animosidade que gerou, um verdadeiro e inútil caos.
Fá-lo, apenas, para não perder a face, ignorando
que, no fundo, já não tem grande face a defender.
Os professores, por seu turno, depois das maiores
manifestações de sempre e da maior greve de sempre,
pouco mais têm a oferecer do que o maior
abaixo-assinado de sempre, como ontem mesmo anunciou
Mário Nogueira.
Dito assim, parece quase ridículo e arrisca-se a
sê-lo. Nada, mas mesmo nada, contribuirá para mover
um milímetro que seja as duas partes em contenda, se
nada se alterar no terreno que a isso obrigue. E as
actuais reuniões são, a esse título, profundamente
inúteis. Ministra e professores repetem, lá dentro
como cá fora, o que já se sabe, a ministra no
pressuposto de que as suas aparentes cedências
(simplificando, reduzindo, mascarando, a triste lei
que tão entusiasmada defende) levariam os
professores a recuar e, pelo menos este ano, a
fazer-lhe a vontade; e os professores persuadidos de
que as suas crescentes exibições de força levariam o
Governo a ceder - ou até, como sucedeu no sector da
Saúde (onde novos problemas agora se avizinham, com
a nomeação governamental de 74 directores executivos
para os agrupamentos de centros), a "ceifar" a
ministra.
Nada disso acontecerá, e não apenas por teimosia.
Governo e professores já foram longe de mais para
qualquer recuo e as razões expostas migraram para o
domínio da ficção. A ministra vive no seu mundo, que
imagina perfeito, com uma lei justa, professores que
cumprem, escolas que funcionam. Os professores vivem
noutro, onde a amargura e a revolta se confundem,
onde as burocracias da avaliação são ignoradas, onde
as escolas desafiam o ministério e rejeitam as suas
imposições. Estes dois mundos, paralelos e ambos
insatisfeitos, coabitam numa mesma realidade: o
sistema de ensino português. E este, com mais um ano
a dilacerar-se em inutilidades, não consegue
beneficiar de forma alguma aqueles para quem existe,
os alunos. Talvez futuros professores. Ou talvez
futuros ministros. Um empenho real na qualidade do
ensino é bem mais do que saber, como mil vezes já se
disse, se deve haver mais professores classificados
com "bom" e outros com "suficiente", de modo a
reduzir algumas casas nas folhas dos ordenados. É
saber o que fazer para que haja mesmo professores
bons e cada vez melhores. E não pactuar com a ideia
de que ensinar é apenas mais uma tarefa, entre mil
papeladas.
A verdade é que o sistema de ensino se encontra, há
muito, num atoleiro que apenas à superfície se deixa
revolver por tais guerras. Já teve muitos titulares
e, da experiência conhecida e feita, pouco disso
beneficiou. Que venha, um dia, a ganhar com uma
enorme reviravolta é o que se deseja. Talvez assim o
problema da avaliação se resolva. E talvez se
consigam resultados, não falsificações, à altura do
que o futuro exige.