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Público - 13 Dez 03
Milhares de Brinquedos Perigosos Apreendidos em Todo o País Desde
Novembro
Por CARLOS PESSOA E IDÁLIO REVEZ
O comércio de brinquedos está na mira da Inspecção-Geral das Actividades
Económicas (IGAE) desde Novembro passado. Cerca de 15 mil artigos -
brinquedos, mas também produtos considerados perigosos, como ponteiros
laser e electrodomésticos -, no valor de quase 70 mil euros, já foram
apreendidos até à data.
Em todo o país, as brigadas da IGAE visitaram 212 estabelecimentos, tendo
instaurado 48 processos de contra-ordenação por desrespeito da legislação
em vigor no sector. Produtos não seguros, ausência de marcação CE dos
brinquedos, não afixação de preços, falta de avisos, indicações e menções
obrigatórias e inexistência de licenciamento foram as principais razões
que motivaram a intervenção dos técnicos da inspecção económica.
Nestas acções, os objectivos a atingir eram os mesmos: determinar se os
produtos disponíveis no mercado português obedecem aos critérios e normas
de segurança estabelecidos na legislação em vigor. Os que estão fora da
lei são imediatamente apreendidos. No mês passado, as operações
privilegiaram os armazenistas, importadores, grossistas e grandes
superfícies. Este mês, a fiscalização é dirigida ao comércio retalhista e
teve ontem mais uma operação, que decorreu em todo o território nacional.
O PÚBLICO acompanhou, no Algarve, o trabalho dos inspectores da IGAE. A
operação teve como alvo dois armazéns de brinquedos na zona de Quarteira/Vilamoura
e outros dois em Almancil.
E, em Vilamoura, a quadra natalícia nem sequer é a mais significativa no
que diz respeito à venda de brinquedos - quem o afirma é um comerciante,
com venda por grosso e a retalho na zona industrial e um dos que ontem
foram inspeccionados. Por coincidência, foi em sua casa que foram
apreendidos 1117 artigos, por deficiente informação de utilização e uso.
No Algarve, este foi, de resto, o único comerciante a quem ontem foi
levantado um auto de contra-ordenação. Tinha a casa bem fornecida. "O
armazém está cheio, porque o nosso Natal é no Verão, a época em que se
vende mais", explicou ao PÚBLICO, enquanto decorria a inspecção ao
estabelecimento.
Nas estantes permaneciam ainda muitas bolas de praia, bóias e outros
objectos "que não se venderam na época balnear". Mas a atenção dos
inspectores teve como principal alvo as prendas que se oferecem às
crianças no Natal e cujo uso muitas das vezes comporta grandes perigos.
Nesta casa comercial de Vilamoura, alguns dos artigos apreendidos, no
valor total de 1520 euros, não tinham a marcação "CE", podendo significar
que o brinquedo não foi testado de acordo com as normas comunitárias.
Noutros casos, faltava a tradução das informações para português ou então
não era mencionado o nome do fabricante ou do distribuidor para o espaço
da União Europeia. O armazenista, também dono de quatro lojas/tabacarias
em Vilamoura, alegou que se tinha limitado a comprar ao fornecedor, sem
reparar nas etiquetas.
Maioria dos produtos são chineses
No que diz respeito às etiquetas, as pistolas de água espanholas, por
exemplo, chamavam a atenção pelo facto de conterem "partes que podem
sufocar" a criança. Por isso, o fabricante recomenda que a sua utilização
deve estar "sob vigilância de adultos". Só que essa informação surge,
regra geral, impressa em letras minúsculas e colocada em local pouco
visível - o que leva o consumidor a ter de redobrar a atenção.
A maioria do conjunto das peças ontem apreendidas no Algarve é proveniente
da China. Mas também foram detectados produtos de fabricantes italianos,
espanhóis e marroquinos sem qualquer menção acerca de quem era o
responsável pela distribuição do brinquedo no espaço comunitário.
A qualidade das traduções deixa igualmente, nalguns casos, muito a
desejar. Na mesma casa de Vilamoura foi encontrado um brinquedo, fabricado
em Espanha, cuja legenda chama a atenção para "manter fora do alcance do
fogo", quando o que estava em causa era mantê-lo fora do alcance das
crianças com menos de três anos.
Na zona espanhola de Huelva, os comerciantes, com a perspectiva de atrair
consumidores portugueses, não se limitam a promover os seus produtos com
base nos preços mais baixos. As etiquetas dos brinquedos também já surgem
escritas em português, redigido com toque espanholado. |