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Público - 13 Dez 03
A Esquerda Doutoral
Por MANUEL BRÁS LISBOA
Quando as várias associações pró vida organizaram o congresso sobre a
"teologia do corpo", estavam, seguramente, bem longe de pensar que tal
evento iria provocar aquilo que se pode e deve entender como uma reacção
corporativa do Bloco de Esquerda. Seja pelos comentários vindos de S.
Bento, seja pelos artigos do prof. Rosas, seja pelas autorizadas opiniões
dos "media supporters" de serviço à causa, a explosão é indesmentível.
Aquilo fez mesmo mossa. Estou a ver o prof. Rosas - que nunca se costuma
irritar - marchar ao som das Valquírias e a distribuir cacetada a torto e
a direito a essa corja de fabianos. Só no mesmo artigo empunhou o vocábulo
"fundamentalista" oito vezes. Oito! Quando a sua causa chora, ele ergue a
espada sem demora.
Porque é que a liberalização do aborto, bem como tudo o que diz respeito à
transmissão da vida, desencadeia esta sanha irracional por parte destes
grupos políticos, que de fanatismo não têm nada?
Talvez a pretensão de serem senhores absolutos da sua vida e - já agora -
da vida dos seus descendentes. Já que não foram capazes de se criar a si
mesmos, ao menos que disponham da técnica para corrigir os erros da
natureza.
Será isto que eles temem: que se descubra o fio condutor entre o aborto, a
contracepção (que também passa pelo aborto), a homossexualidade, a
clonagem, a eugenia, a eutanásia, "und so weiter".
Temem que se descubram as marcas físicas e psíquicas do aborto legal e
"tecnicamente perfeito" (maior incidência de cancro na mama, depressões,
etc.), os efeitos nocivos da contracepção hormonal, as taxas de falhanço
dos preservativos.
Temem que se descubram estas aldrabices todas e que por trás disto há
milhões em jogo.
Temem o autodomínio e a fidelidade conjugal que, pelos vistos, não dão
lucro a certos "sectores".
Eis uma das poucas vezes, desde que a esquerda - há 50 anos - impôs a sua
ditadura cultural e ideológica sobre o país, que acontece uma coisa que
não foi a reboque deles, que lança novas ideias e conceitos na opinião
pública. Foi isso que mais lhes custou.
O prof. Mário Pinto fica muito aquém quando identifica o autoritarismo da
esquerda como, simplesmente, retórico. Antes fosse só isso. Daí não viria
qualquer mal: palavras leva-as o vento. O problema é que é muito mais do
que isso.
Carradas de razão tem o prof. Rosas: o país é sinistro. É, sim senhor.
Apesar da "sinistra" não estar no governo, nem por isso deixa de estar no
poder. Olé! |