|
Público - 11 Dez 03
Mulheres em Acção Querem Referendar Actual Lei do Aborto
Por ANTÓNIO MARUJO
A associação Mulheres em Acção defendeu ontem, em comunicado, que um
eventual referendo ao aborto deve admitir também "a possibilidade de
alteração no sentido contrário (o da restrição), alargando o campo de
escolha". Ou seja, a lei que está actualmente em vigor (de 1984, revista
em 1997) deveria também ser sujeita a referendo, questionando os
portugueses "sobre o dever da sociedade de proteger a vida humana e a
saúde mulher".
Esta afirmação surge como "resposta aos defensores do aborto que têm a
falsa intenção de 'ajudar as mulheres'". No comunicado, a associação diz
que "a inviolabilidade da vida humana inocente e o valor fundamental da
dignidade humana não admitem excepções". Caso contrário, "abre-se a porta
a novas agressões a esse direito fundamental e foi isso o que aconteceu:
primeiro, era apenas o aborto eugénico, terapêutico e em caso de violação;
depois, seria o aborto livre e gratuito até às 10 semanas; agora seria até
às 12 semanas; no futuro, porquê parar aí?"
Há ainda "novas razões" para fechar mais a porta ao aborto, diz o
documento: o aborto está em "refluxo" em vários países; há programas
públicos que visam a "cobertura de cuidados pré-natais (assumindo,
portanto, os direitos do feto aos cuidados de saúde pública)"; as
companhias de seguros recusam "cobrir as operações de aborto"; os
progressos científicos "tornaram cada vez mais evidente a natureza humana
do não nascido".
A liberalização do aborto, acrescenta a associação, "traumatiza" a mulher
"e inibe os esforços para ir à raíz dos problemas e para promover as
verdadeiras soluções: o apoio às famílias, à maternidade, à infância, às
mãe sozinhas, aos deficientes". Com a liberalização do aborto, diz o
texto, "o que se oferece às mulheres pobres é o aborto".
As Mulheres em Acção - criada em 2001 e que se dedica prioritariamente à
"eliminação da discriminação" e a promover a "igualdade entre homens e
mulheres" - diz ainda que, depois do referendo de há cinco anos, os
movimentos favoráveis à despenalização "não se mexeram muito para ajudar
as mães em situação difícil, ao contrário do que fizeram os movimentos
favoráveis à mulher e à vida".
Não há, da parte dos defensores do "sim", uma "genuína preocupação pela
saúde das mulheres e dos seus filhos", acusa a associação. Por isso, os
argumentos a favor de um novo referendo são "frágeis" e "soam a falso":
"Se o resultado do referendo de Junho de 1998 tivesse sido o inverso, os
grandes promotores do aborto teriam dado o assunto como adquirido,
encerrado e irreversível", diz o comunicado.
Esta organização contesta a "obsessão" dos defensores da despenalização,
afirmando que "a impaciência" em promover um novo referendo "sem esperar
sequer pelos resultados do estudo que visa conhecer a realidade da prática
do aborto em Portugal, proposto recentemente por deputados do PS,
desmascara a pretendida preocupação pela necessidade de avaliar a dimensão
dessa chaga, para melhor a combater". "A realidade não lhes interessa
muito", acusa a associação. |