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Público - 5 Dez 03
Testemunho de Um Telespectador Zangado
Por RUI BAPTISTA
Uma das minhas primeiras memórias tem a ver com a televisão. Lembro-me
perfeitamente do dia em que dois senhores entraram lá em casa com uma
caixa de madeira que se ligava à corrente eléctrica. Era Natal, a casa
cheirava a pinheiro e rabanadas e um dos técnicos de televisão esmagou com
o seu sapato de verniz pontiagudo um carrinho de brinquedo. Eu desatei a
chorar, claro, porque ver um "boca-de-sapo" esmagado é uma coisa
traumatizante para um miúdo que ainda não tinha sequer três anos, mas
calei-me ao ouvir os primeiros acordes do indicativo da RTP. Lembram-se? A
música corria ligeira, quase infantil, enquanto no ecrã a mira técnica se
transformava em figuras geométricas. A preto e branco, como a vida
naqueles dias.
Cresci (crescemos) com a televisão, claro. Com a sala cheia de vizinhos,
vi como a Europa ignorou a "desfolhada" de Simone de Oliveira,
emocionei-me com as lágrimas de Eusébio no Mundial da Inglaterra, ri-me
com as aventuras do "Pernalonga", do "Franjinhas e do "Super Rato", do
"Santo" e dos "Persuasores", aprendi palavras como "míldio", "oídio",
"alunagem". Estava colado ao ecrã quando os americanos chegaram à Lua,
quando Marcello Caetano abandonou o Convento do Carmo num "chaimite",
quando Mário Soares chegou a Santa Apolónia de cravo ao peito, ou quando o
"Cessna" caiu em Camarate. A televisão era quase sempre o princípio de
tudo, principalmente para quem crescia numa terrinha de província que
todos os meses era visitada pela carrinhas da Biblioteca Itinerante da
Gulbenkian.
Correndo o risco de ser acusado de saudosista, eu queria verter uma
lágrima furtiva por esta televisão que se finou. Por esta televisão que se
preocupava não só em entreter mas também em formar. Por esta televisão
onde cabiam Jorge Alves, Vitorino Nemésio, Pedro Homem de Mello, Sophia.
Por esta televisão sem "reallity shows", sem telenovelas, sem políticos
travestidos de comentadores. Por esta televisão que era o que parecia.
O mundo desandou, mas eu tenho saudades dos tempos em que só havia dois
canais mas em que a escolha era maior. Mais livre, mais democrática. Ora
reparem no que se passa hoje, nesta televisão que assassina o espírito e o
livre arbítrio. Programas de auditório nas manhãs nos principais canais,
com gente aos berros e aos pulos, tudo sublinhado por música ("música"?)
capaz de fazer nascer impulsos homicidas num monge budista. Depois,
noticiários (com notícias requentadas no caso da TVI) e mais programas de
auditório, com mais berros, pulos, choradeiras. E depois novelas e "reality
shows" até à exaustão, até à náusea, até às tantas. A RTP já trilha o
caminho da redenção, mas as privadas continuam a insistir no formato
maldito do "infoentretenimento", e por isso Fernando Rocha continua a
dizer alarvidades, o pessoal do Big Brother e dos Ídolos a vender
princípios, dignidade e pechisbeque moral por cinco minutos de exposição,
as telenovelas a transmitir uma imagem irreal de um Portugal de herdades e
criadas fardadas. E as séries, os concertos, os debates atirados para
horas impróprias, a seguir aos telefilmes, ao telelixo, entre mais uma
promoção das misérias do mundo e as pílulas adelgaçantes da televendas.
É esta a nação que somos, ululante, saltitante, mesquinha, perversa? Foi
nisto que nos tornámos?
Esta televisão generalista é um lixo. É quase fascizante, quase
totalitária na maneira como nos vulgariza, nos reduz ao mínimo denominador
comum, na maneira como nos enfia às colheradas pela garganta abaixo coisas
de que uma
pessoa sã e escorreita deve fugir a sete pés. Nos dias que vão correndo, a
única medida de bom senso possível é desligar o aparelho e esperar que o
mau tempo passe. E levar à letra a velha frase: "A televisão é muito
educativa - quando a ligam vou para outra sala ler um livro." |