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Público - 1 Dez 03
Constituição... Basta Uma!
Por GRAÇA FRANCO
Tenho a absoluta certeza de não ter sido, em Portugal, dos primeiros a
defender a excelência dos "estúpidos três por cento" (cito o senhor Prodi).
Nem já recordo quando deixei de os contestar, rendida às vantagens
pragmáticas da sua existência, enquanto limite mais ou menos eficaz ao
vício do desperdício interno. Mas, se não fui a primeira, começo a recear
ter sido a última a deixar de defender o mal amado limite fixado no
ex-Pacto de Estabilidade. O dito não se sabe se está morto, moribundo,
suspenso, ou congelado! Resta a certeza de não valer a pena gastar com o
seu futuro nenhuma tinta. Não o defendi pela sua excelência intrínseca
(essa nunca existiu!), mas pelas pragmáticas vantagens de garante externo
da credibilidade de uma política essencial à estabilidade do próprio Euro
e, de factor interno - ao velho estilo FMI - legitimante de uma política
sem alternativa mas fortemente impopular.
Achava eu - quando aqui assinava a crónica "salvem os estúpidos 3 por
cento!" - que esta minha posição, nada original, era simplesmente
coincidente com a do Banco Central e do próprio Governo. Embora temesse,
como referia na altura, acompanhando nesse receio as dúvidas do próprio
professor Cavaco Silva, que Manuela Ferreira Leite pudesse acabar sozinha
em campo, na sua louvável obsessão pelo "rigor" da gestão das contas
públicas, pressionada por uma miríade de lobbies, que vão dos taxistas aos
polícias, passando por alunos e professores, patrões e sindicatos, a
acabar nos autarcas do seu próprio partido e, claro, sem esquecer a mais
de uma dezena de políticos do seu Conselho de Ministros a precisar
urgentemente de apresentar obra face à aproximação das eleições. A
confirmar-se esse risco... como alertava Cavaco, tanto sacrifício poderia
mesmo não ter valido a pena.
Afinal na semana passada, em Bruxelas, confirmou-se o pior. Até a ministra
das Finanças (leu bem!) acabou a abandonar Ferreira Leite em pleno Ecofin.
O silêncio imposto, na hora da votação de favor à Alemanha e à França,
acabou a retirar-lhe toda a margem de manobra para continuar a sua
política de recurso às receitas extraordinárias como forma de minorar os
danos colaterais das velhas e actuais derrapagens. Vá-se lá saber porquê
(terão sido os fundos?).
Como se justificará agora a bondade de certas "manigâncias" (da integração
do Fundo dos CTT à própria titularização dos créditos fiscais), se deixou
de haver uma imagem externa a preservar e a legitimar os míticos 2,9
qualquer coisa, acima dos quais é a credibilidade de dois anos de política
que fica em causa?
Como explicar que não se cumpre a promessa da descida dos impostos, porque
isso, por melhor que fosse para relançar a procura interna, faria disparar
ainda mais o défice? Como pode colher o argumento, se o Governo alemão
exigiu a suspensão do pacto, precisamente porque não quis deixar de cortar
os impostos (!), como já prometera, considerando essa medida essencial à
retoma da confiança dos seus cidadãos na respectiva economia.
A manutenção e coerência do discurso do Governo na frente interna, face ao
exposto, antecipa-se difícil, mas na externa, está infelizmente já à
vista. Numa atitude típica da arrogância, má educação e falta de
solidariedade com os seis pares, assistimos já aos arrasadores comentários
dos ministros franceses e alemão das Finanças sobre a política orçamental
portuguesa.
Logo à saída do Ecofin, o senhor De Mer fez o favor de nos apresentar como
um exemplo da insensatez da aplicação das regras do pacto, " ele bem tinha
avisado" do risco de recessão caso se insistisse em impor a Portugal o seu
cumprimento. Ora, a queda do produto português aí estava à vista para
confirmar a justeza do aviso.
Perante isto a ministra portuguesa comentou, e bem, que da França saberia
o senhor De Mer, que de Portugal sabia ela. Nem isso impediu, uns dias
depois, o ministro das finanças alemão de declarar que ele próprio tinha
avisado as autoridades portuguesas" do risco de insistirem em
cumprir o limite fixado no pacto, lançando a economia do país na recessão
em que agora se encontram. Este eu bem os avisei é duplamente perverso.
Transforma a opção do Governo português num quase capricho, quando do que
se tratou foi de cumprir uma lei subscrita por unanimidade dentro do clube
e, ironicamente, imposta exactamente pela própria Alemanha como garante da
estabilidade do Euro face a qualquer deriva despesista "à italiana" dos
países do sul.
Fingir que Portugal tinha tido a opção de não cumprir - seguindo o
conselho alemão - é de uma hipocrisia sem nome! Portugal foi, aliás, uma
bênção para a Alemanha ao surgir como primeiro país incumpridor. O que
nunca será legítimo é transformá-lo no exemplo da incoerência de uma
política obrigatória e, menos ainda, usá-lo como arma de arremesso contra
a Comissão Europeia. Apetece perguntar porque - tão bem avisados - não
acabaram a Alemanha e a França com a regra dos três por cento quando
Portugal entrou em défices excessivos ou mesmo antes, quando Prodi lhes
chamou " estúpidos?". Porque os deixaram ficar até se transformarem num
limite incómodo para si próprios?
O espectáculo do fim do pacto foi, provavelmente, o mais triste da
história dos últimos vinte anos de Europa. Pode muito bem ter dado o golpe
de misericórdia no projecto de Constituição Europeia. Até aqui havia
alguns cépticos a recear que o novo esquema de funcionamento da União
estivesse feito à medida de um directório liderado pelo eixo franco-alemão
mas, haveria sempre vozes a recordar o exemplar empenhamento alemão numa
Europa unida e alargada. Vozes capazes de valorizar a figura de Kohl e de
desvalorizar e esquecer o deslize - já pós-queda do muro - da legitimação
da Croácia, contra a vontade de todos os outros, num golpe impune que
acabou por justificar a terrível guerra que se seguiu.
Contra os desmandos de Giscard haveria sempre quem recordasse Monet e
Delors, o amigo dos pobres, dos pequenos, dos fracos na União.
Até aqui as gerações pós-guerra - a que pertenço - estavam dispostas a
olhar os riscos do eixo à luz de uma actuação recente, pacífica e
civilizada, das duas grandes potências continentais.
Esta semana, pelo contrário, a Grã-Bretanha surge com um charme atlantista
reforçado e os receios colocados à nova Constituição ganharam novo
fundamento. Assim, os que sempre pensaram, como eu, dizer SIM no futuro a
uma Constituição Europeia perceberam claramente que é real o risco de uma
Europa dos Grandes (afinal tão pequenos!). Foi ela que espoletou este
golpe "intergovernamental". A essa Europa que trata a Comissão abaixo de
Prodi... eu digo NÃO! E não vejo nenhuma vantagem em que passe a ter uma
Constituição própria. Basta-me a minha. Mais ou menos ideológica mas,
apesar das falhas de memória do Dr. Durão Barroso, obviamente democrática,
e com a vantagem de ter provas dadas desde 1976... malgré tout. |