Público

"Só a Família Tradicional Dá à Criança o Que Ela Precisa"
Por ANA MACHADO (TEXTO) E RUI GAUDÊNCIO (FOTO)
Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2002

[Entrevista com David Popenoe]

Há 15 anos que David Popenoe, sociólogo da família, co-director do Projecto Nacional da Família, da Universidade de Rutgers, em New Jersey, Estados Unidos, alerta para a degradação do modelo familiar tradicional e sobre o que isso implica para a sociedade. Em entrevista ao PÚBLICO, revela a pergunta que mais o perseguiu: "Por que é que a América não fala nisto?"

Quando David Popenoe começou a estudar a degradação do modelo familiar, o ponto de vista da comunidade académica e das elites norte-americanas era de que nada de errado se passava com as famílias e que não havia razão para preocupações. Mas Popenoe mergulhou nos dados e viu que algo estava errado. Os divórcios aumentaram duas vezes e meia e os nascimentos fora do casamento cresceram de cinco para 33 por cento, entre 1960 e 1990. Para além disso, a percentagem de crianças criadas por um único membro do casal aumentou dramaticamente.

Decidiu então escrever o primeiro de muitos livros sobre a viragem no conceito de família, não só nos Estados Unidos mas no mundo, no sentido de perceber o que se passava. Debruçou-se sobre a ausência do papel do pai em "Um mundo sem pai", a sua primeira obra. "Sentíamos que podíamos ser uma ajuda enorme para muitas pessoas e fomentar o debate nos EUA nesta matéria", defende. Hoje acredita que as pessoas reconhecem que o conceito de família mudou e que as crianças têm sofrido muito com isso. "O debate chegou agora a uma fase em que temos de decidir o que fazer."

PÚBLICO - Defende que o papel do pai no casamento, numa família tradicional, é importante para o desenvolvimento do indivíduo. Numa sociedade em que esse modelo familiar está em mudança, quais foram as reacções ao que defendeu?
DAVID POPENOE - Nos últimos 40 anos, assistiu-se a uma degradação do modelo tradicional de família. Passou-se de 17 por cento de casos de crianças privadas da presença do seu pai biológico, na década de 60, para 34 por cento hoje em dia, o que é o dobro. Qual é o problema? Por que é que os pais abandonam as crianças? É a isso que eu gostaria de responder. Penso que 85 por cento das pessoas acreditam que é importante responder a esta questão. Mas a elite, os académicos e até os sociólogos, acham que não é importante e têm dúvidas. Acreditam que há vários modelos de família que podem ser tão bons como o tradicional e que há muito apoio para os pais e mães solteiros, para os casais homossexuais.

P - E em relação à ausência da mãe?

R - Bem, provavelmente é melhor ter mãe sem pai do que o inverso, se a situação for optar por um deles. A razão prende-se com laços biológicos e as mães têm maior ligação com a criança. Mas não é comum uma mãe abandonar os filhos, ao contrário do que acontece com os pais. É muito comum o homem abandonar os filhos.

P - Quais os efeitos na criança quando falamos nas consequências dos novos modelos familiares?

R - Sabemos que todas as crianças criadas em famílias que não sejam o modelo tradicional, com um pai e uma mãe, tem duas a três vezes mais problemas no futuro do que as outras criadas dentro do casamento, com pai e mãe. Delinquência juvenil, gravidez adolescente, maus casamentos, escolaridade inacabada. Há de facto uma deterioração do bem-estar infantil à medida que as famílias se foram deteriorando, nos últimos 40 anos.
Não sei o que podemos fazer para o evitar. Os países precisam de se debruçar sobre este problema social.

P - O que podemos dizer de novos modelos de família em que há filhos de outros casamentos de ambas as partes: os meus, os teus, os nossos...

R - Quando começámos este debate dos lares despedaçados, o argumento que se usava para contrariar a minha tese é que a maioria das pessoas que se divorciavam acabavam por casar outra vez. Portanto, havia a figura do padrasto, que não se devia desprezar. Mas o que os nossos dados, reunidos nos últimos 10 a 15 anos, provaram foi que as famílias de segundos casamentos são muito idênticas às formadas apenas por um único membro, pai ou mãe. De facto, os dados são tão significativos que podemos chegar até a sugerir que as pessoas não casem uma segunda vez. Não há vantagem, para além da económica. Há muita tensão, os casos de abuso de menores aumentam. Falando resumidamente, as famílias de segundos casamentos não conseguirão nunca substituir a família biológica.

P - Padrastos e madrastas nunca substituem o papel dos pais biológicos.

R - Não quero dizer que não o consigam. Falo sempre de um modo sociológico, geral. O facto é que as consequências negativas no desenvolvimento da criança aumentam entre as famílias originárias de segundos casamentos.

P - Qual a sua opinião em relação à adopção por casais homossexuais?

R - A questão que devemos colocar é: devem ou não os países autorizar a adopção a casais homossexuais, tal como a outras famílias clássicas? Não podemos dizer o que acontecerá no futuro a estas crianças em termos de desenvolvimento. Mas acho que há um problema imediato, que é o facto de a criança ser criada sem pai ou sem mãe. Porque é disso que estamos a falar. E essa realidade os investigadores já conhecem. A maioria das pessoas que estuda este tópico nos Estados Unidos são, elas próprias, homossexuais. Por isso temos de ter cuidado. Temos apenas estudos pequenos e as análises dos dados não são conclusivas.

P - E no que toca a casais homossexuais que recorrem a técnicas de reprodução medicamente assistida?

R - Acho que, qualquer que seja a técnica de que se fale, é traumatizante para a criança crescer e perceber que não tem um pai. Os dadores de bancos de esperma são completamente anónimos. Não sabemos como é que a criança reagirá no futuro. Isto tudo é muito recente, mas eu próprio não gostaria de ser criado assim. Mas também acho que este processo não vai parar e nada do que eu digo irá alterar isso.

P - Mesmo casais heterossexuais casados sentem problemas em criar os seus filhos, têm pouco tempo para dedicar às crianças. O que acha disto?

R - Sabemos que em todas as sociedades modernas houve um declínio do tempo que os pais gastam com os filhos. Acho que isso são muito más notícias para as crianças. Não defendo que as mulheres devem ficar em casa - tenho duas filhas que são profissionais e uma mulher que sempre trabalhou fora de casa. Mas acho que temos de arranjar um sistema que permita aos pais ter mais tempo para as crianças, talvez licenças de maternidade, para pais e mães, mais longas. E mais trabalhos em "part-time", para pais e mães, para que acompanhem os primeiros três anos do bebé.

P - Acha que a escola podia ter um papel formador da criança no que respeita aos valores da família? Acha que devíamos começar a esse nível?

R - Acho que sim. Muitas pessoas acham que essa não é a função das escolas. Mas, dada a extrema alteração do modelo de família nas últimas décadas, acho que o trabalho devia começar aí, na educação das crianças. Quer em termos de promover o papel dos pais, que talvez não aprendam em casa, quer sobre a importância do casamento, que é muito diferente hoje. É uma relação de amizade, o casal depende muito um do outro. O que é uma visão algo difícil para o homem. Se não houver amizade, é o fim do casamento.