Cavaco visitou o país de Sócrates e não gostou do
que viu Paulo Ferreira
O "bota-abaixismo", como costuma dizer o
primeiro-ministro,
desta vez veio de Belém. Que a "cooperação
estratégica" descanse em paz
Desconversar educadamente, é como se pode
classificar a reacção do ministro das Finanças ao
discurso de Cavaco Silva de sexta-feira. Teixeira
dos Santos cumpriu o ritual: disse que não entendia
as palavras do Presidente da República como um
recado para o Governo. Para respeitar a cartilha por
inteiro (a avaliar pelos excertos destacados pelos
jornalistas que o ouviram ao vivo), só faltou
acrescentar que "o Governo revê-se nas palavras do
senhor Presidente da República e partilha as mesmas
preocupações". É assim que Augusto Santos Silva
costuma dizer, não é?
Mas, desta vez, a habitual diplomacia retórica é
manifestamente insuficiente. Poucos diagnósticos
presidenciais foram, até hoje, tão duros e directos
como o que Cavaco Silva fez no quarto Congresso da
Associação Cristã de Empresários e Gestores.
A mensagem para o Governo é clara e não há como
fugir-lhe, por mais que o Governo queira fingir
convenientemente que não entende.
Senão, leia-se esta frase: "seria um erro muito
grave, verdadeiramente intolerável, que, na ânsia de
obter estatísticas económicas mais favoráveis e
ocultar a realidade, se optasse por estratégias de
combate à crise que ajudassem a perpetuar os
desequilíbrios sociais já existentes". Ou estas:
"esta não é altura para intervencionismos populistas
ou voluntarismos sem sentido. Os recursos do país
são escassos e é muito o que há ainda por fazer. É
preciso garantir o máximo de transparência na
utilização dos dinheiros públicos".
Os empresários e gestores portugueses foram o outro
alvo de Cavaco, que disse sem rodeios aquilo que
muitos precisam de ouvir: desde a ganância e a
crescente disparidade de rendimentos entre os altos
gestores e os outros trabalhadores até ao encosto
que muitos deles esperam do Estado: "seria um erro
pensar que a obrigação de acautelar os princípios de
justiça, de equidade e de coesão recai apenas sobre
os decisores políticos. É nas empresas e no diálogo
entre elas e dentro delas que começa esta
responsabilidade".
Há outro tema onde Cavaco foi mais longe, reservando
as palavras mais duras: as relações entre o Governo
e alguns grupos empresariais. Por um lado, o
Presidente alerta que "muitos dos agentes que
beneficiaram do statu quo - e que tiveram um papel
activo nesta crise financeira - continuam a ser
capazes de condicionar as políticas públicas, quer
pela sua dimensão económica quer pela sua
proximidade ao poder político". Ou seja, o Governo
está, até certo ponto, capturado por esses agentes
na definição e execução de políticas.
Mas esta relação perigosa é uma estrada com dois
sentidos. Se há grupos empresariais que têm
governantes "no bolso", temos, no reverso, os
submissos porque esperam que seja o Governo a
resolver os seus problemas.
Disse Cavaco mais à frente: "o pior que nos poderia
acontecer era a crise acentuar a tendência, bem
nociva para o país, de algumas empresas procurarem a
protecção ou o favor do Estado para a realização dos
seus negócios. Empresários e gestores submissos em
relação ao poder político não são, geralmente,
empresários e gestores com fibra competitiva e com
espírito inovador. Preferem acantonar--se em áreas
de negócio protegidas da concorrência, com resultado
garantido".
Governação para as estatísticas, tentativa de
mascarar a realidade, falta de transparência na
aplicação de dinheiros públicos de combate à crise
onde, aliás, há sinais de desperdício, tentação do
populismo e do voluntarismo e, como corolário, a
promiscuidade entre alguns empresários e gestores e
o Governo. É impossível não ver nisto uma análise
lúcida do país, que se tem agravado sob a capa do
"combate à crise".
O diagnóstico não é novo e costuma ser classificado
pelo primeiro-ministro de "bota-abaixismo" ou
"pessimismo". Agora, José Sócrates ouviu-o da boca
do Presidente da República, sem margem para segundas
interpretações. Se ainda vivia, a "cooperação
estratégica" foi agora morta pela crise e pelos
duvidosos objectivos desta governação.