Há gente lúcida e informada entre os
especialistas da Educação? Haverá, certamente, mas
tarda a assumir a coragem da crítica ou a dignidade
da autocrítica, a defesa de outro ensino e outras
escolas que, competindo entre si e com o ensino
privado pela excelência, promovam a qualidade geral
1."A pobreza sempre habitou a
Grécia, mas os gregos são corajosos e é por isso que
podem afastar a pobreza"
Heródoto
Óbvia urgência por que nos temos batido, foi agora
anunciada uma prova nacional de admissão à docência.
Mas, como afirmou Nuno Crato, "a imaginação dos
técnicos do ministério e de alguns ideólogos pode
transformar uma boa ideia numa coisa inútil".
Infelizmente, verificou-se isso logo à partida, pois
fica de fora da prova anunciada o mais importante
que a ela deveria ser submetido: a docência para o
1.º ciclo do básico. Certamente para preservar as
escolas superiores de educação dessa avaliação
comprometedora, garantindo-lhes, ao mesmo tempo, a
clientela. Aconteceu o mesmo com a reciclagem dos
professores de Matemática, entregue a essas escolas,
que os tinham formado mal à partida.
E que dizer da proposta de um 2.º ciclo de estudos
superiores para os candidatos (formados nas
universidades) à docência no 3.º ciclo do básico e
no secundário, podendo ser realizado em qualquer
instituição que proporcione essa oferta? Parece
claro o artifício: submeter os docentes ainda
formados pelas universidades ao tratamento
pedagógico de escolas, na sua generalidade, focos de
infecção do eduquês e, ao mesmo tempo, garantir-lhes
a clientela em quebra.
Por outro lado, é necessário saber a quem vai ser
confiada a prova nacional de selecção e conhecer o
que irá ser avaliado: apenas a pedagogia ou os
conhecimentos científicos, o domínio das matérias a
ensinar? "Não faz sentido ensinar o que não se
sabe", e é precisamente esse aspecto que, no
contexto da pedagogice reinante, é imperativo
avaliar.
A chave mestra para a mudança na educação está nos
professores. E neste domínio a ideologia e as
teorias pedagógicas dogmáticas que têm dominado a
educação não podem ser tidas como instrumento de
solução do problema. São elas o problema.
2. As medidas administrativas e de reorganização da
rede escolar que a ministra tem aparecido a executar
não devem fazer esquecer o facto de ainda não ter
enfrentado o essencial. Pelo contrário, quando
subscreve ou é a face de medidas acertadas nessa
direcção, parece estar apenas a ceder o suficiente
para não ter de assumir o essencial: libertar o
sistema de ensino da tutela dos "especialistas" da
educação, para cuja autoridade (perante a qual se
curvaram mais ou menos todos os ministros) não se vê
a mais leve justificação.
Há gente lúcida e informada entre os especialistas
da educação? Haverá, certamente, mas tarda a assumir
a coragem da crítica ou a dignidade da autocrítica,
a defesa de outro ensino e outras escolas que,
competindo entre si e com o ensino privado pela
excelência, promovam a qualidade geral. Um ensino
novo que assuma o fracasso da escola pública que
temos tido, que nivela por baixo e vai afastando os
que podem procurar e pagar outra educação.
Especialistas que defendam e ajudem a construir um
sistema de ensino público capaz de revelar a
inteligência e os talentos das crianças pobres,
nunca descobertos e incentivados na escola do
eduquês, acrescentando aos indispensáveis exames
outras formas de avaliação séria que reconheçam as
qualidades e talentos que os exames não possam
identificar.
3. Ao contrário do que inadvertidamente se possa
supor, o actual ministério não se afastou do eduquês.
Se não, vejamos:
Em matéria de educação, os exames (bem elaborados e
a sério) separam as águas em Portugal. E o
ministério revelou-se contra eles. Não foi apenas a
tentativa - frustrada pela opinião pública - de
acabar com o exame de Português quando eliminou o de
Filosofia ou a publicação do novo regime de
avaliação externa e certificação do ensino de nível
secundário, uma habilidade para suprimir exames. Na
realidade é mais fácil acabar com os exames do que
melhorar a qualidade do ensino enfrentando o eduquês.
Na verdade, logo no seu primeiro acto público,
suponho, este ministério mostrou ao que vinha.
Recordemos: a 5 de Abril de 2005 noticiava-se que os
exames do 9.º ano podiam acabar já em 2006. O
Ministério também quereria minimizar o impacto das
provas de Português e Matemática, reduzindo o peso
específico da nota na classificação final dos
estudantes. Tudo se passou durante uma visita à
escola de São Domingos de Rana, onde Maria de
Lourdes Rodrigues afirmou não estar em condições de
avaliar as virtudes e os defeitos dos exames do 9.º
ano e relativizou a sua importância destas na
avaliação. "Os exames são uma única peça num sistema
de avaliação que tem que ser um pouco mais vasto
(...) É preciso ter consciência de que avaliam
apenas uma parte das capacidades dos alunos. Não
avaliam coisas como a oralidade", disse. E por isso
suprimem-se...
A intenção era clara e foi apenas a atitude clara do
primeiro-ministro que salvou o exame do 9.º ano. O
seu discurso inequívoco foi, na altura, mobilizador.
Só foi pena o exame contar tão pouco, mas mesmo
assim atente-se na mobilização gerada entre alunos e
professores, no espírito novo, no sopro de desafio,
que percorreram nesses dias tantas escolas!
4. Dizer-se serem necessários muitos anos para
verificar os efeitos das mudanças na educação é, no
sentido que se percebe, uma enorme e despudorada
mentira. A grande mentira que tem permitido aos
"especialistas" e aos vários governantes, durante
todos estes anos, fugirem à sua responsabilidade
pela tragédia.
Mude-se o necessário e óbvio e em duas semanas as
escolas serão outras em muitos aspectos
fundamentais. Há escolas diferentes. Visite-se, por
exemplo, o Externato João Faria, em Arruda dos
Vinhos, melhor colocado no ranking dos recentes
exames de Matemática do 9.º ano, uma escola pública
por contrato mas de propriedade e gestão privadas. O
maior obstáculo ao mérito que a distingue tem
sido... o ministério. Obstáculo que também as
escolas privadas têm cada vez maior dificuldade em
contornar.
A confusão de directivas e contradirectivas, as
pseudo-reformas, a legislação labiríntica, as tretas
das áreas não curriculares, o absurdo ou, no mínimo,
o peso excessivo das áreas de projecto de turma e de
escola (que só teriam sentido no âmbito das
diferentes disciplinas), o estudo acompanhado,
imposto também a quem não precisa, privando do
acompanhamento suficiente os que carecem realmente
dele, a sua inadequação às necessidades dos alunos,
as pedagogices supostamente dernier cri que
confundem e ocupam os professores e, na verdade,
servem apenas para justificar o emprego da
nomenklatura do ministério, impedindo ou
desmobilizando a iniciativa dos docentes.
Em Portugal, o verdadeiro ópio do povo continua a
ser o Estado. Editor