Diário de Notícias - 7 Abr 03

Tragicomédia
João César das Neves   

O nosso tempo, se não fosse terrivelmente trágico, seria muito cómico. A falta de lógica é tão patente que cai no ridículo. O tempo orgulha-se da liberdade de costumes e de opinião, mas em certos temas vive verdadeiras ditaduras de pensamento. Ditaduras que ridiculamente pretendem negar o óbvio.

Quem se atrever a defender a superioridade da família e do matrimónio é hoje zurzido com uma fúria e intolerância sem par na sociedade democrática. Zurzido simplesmente por apontar o óbvio.

A família fundada na fidelidade é, sem dúvida, a melhor forma de vida para crianças, adultos e idosos nos momentos bons e sobretudo nos difíceis. Aliás, a família chamada tradicional é esmagadoramente actual, continua a ser a larga maioria e o desejo de todos. Não consta que as juras de amor tenham deixado de ser eternas e, apesar da tolices da lei e da APF, nenhum apaixonado diz : «Amo-te enquanto tiver uma vida sexual e reprodutiva saudável, gratificante e responsável.»

Nem todos vivem em família, por várias razões. Claro que «ninguém tem nada com isso» e todos devem ver respeitada a sua liberdade. Mas também se deve respeitar a liberdade de opinião. Além disso, amar os cegos não quer dizer que a cegueira equivale à visão.

No entanto, quem defende a família é hoje condenado pelos sumos sacerdotes do deboche com a acusação suprema de moralismo e hipocrisia. Como se o dogmatismo inverso não fosse muito mais totalitário. E tonto. De facto, a acusação diz que se ignoram as tendências naturais do sexo. Mas é essa acusação que tragicamente esquece a evidência.

O sexo é a nossa capacidade mais maravilhosa, a única força do universo que propaga a vida racional. É evidente a sua enorme influência na psicologia e formação de carácter. Mas também sempre foi evidente a necessidade de controlar a sua força excessiva. Se, por exemplo, alguém dedicasse à comida a atenção que presta ao sexo, seria um doente. Que diríamos de quem passasse a vida a contar anedotas sobre refogados, compor baladas a pastéis ou mandar piropos às montras de mercearias? Que diríamos de alguém disposto a fugir de casa por um bom «bacalhau à Braz»? Ou da empresa que usasse caldeirada e puré para publicitar carros, revistas ou sabonetes? Estes comportamentos, desequilibrados na comida, são correntes no sexo. Por isso todas as culturas e épocas usaram práticas, hábitos e costumes para controlar essa veemência, evitando os seus desequilíbrios. Nunca se achou que o prazer sexual tivesse de ser aguçado. Precisa é de ser controlado. Vivemos na primeira época que caiu no ridículo de tentar «eliminar tabus» e estimular o sexo, não por razões pessoais, mas por interesses comerciais. Vivemos mergulhados em estímulo sexual por causa dos carros, revistas e sabonetes. O sexo é hoje uma indústria de sedução e manipulação por estratégia empresarial. Os nossos intelectuais, sempre prontos a condenarem as empresas, estão estranhamente silenciosos quanto a isto. Porquê?

Desta ditadura intelectual nasce a tragédia. Os recentes casos de pedofilia resultam todos da destruição da família e da cultura do prazer. E todos, mesmo todos, são homossexuais. Quem se atrever a apontar isso é repudiado violentamente, com uma sanha tanto mais furiosa quanto luta, não contra uma opinião, mas contra a evidência. Aqui contra argumentos não há factos. Isso é que introduz o ridículo na tragédia.
 

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