Público - 17 Abr 03

O Medo e as Armas
Por NUNO PACHECO

Aconteceu outra vez, e não será a última. Num liceu de New Orleans, na Louisiana, um grupo de rapazes armados disparou sobre colegas, matando um e ferindo vários. Os suspeitos que a polícia deteve têm entre 15 e 19 anos. Nas declarações de circunstância feitas após o choque, dizia-se que não eram "ainda conhecidas as razões" para o triste episódio. Tal como em Columbine, Flint ou lugares semelhantes, onde alunos alvejaram outros por razões nunca explicáveis, também em New Orleans se procurará agora uma razão. Qualquer coisa que explique porque é que em plenos Estados Unidos, num corpo escolar aparentemente ordeiro e pacato, um dia alguém mancha de sangue essa ilusão de felicidade. Um esforço inútil: seja qual for o motivo desta ou de idênticas carnificinas, há sempre uma razão visível que ninguém quer encarar ou resolver: os jovens agressores estavam munidos de armas de fogo, carregadas e legais. Com balas provavelmente compradas num qualquer supermercado ao fundo da rua. É razão suficiente. E aterradora.

O país que mais armas persegue no mundo é o que mais armas armazena. Nos paióis dos Estados Unidos existe a mais sofisticada gama de armas convencionais, nucleares, químicas e biológicas jamais criadas no planeta. E não apenas nos seus paióis: também nas suas casas, sótãos, garagens, caves, celeiros, empresas. Atrás da porta, no armário, debaixo das almofadas. Sempre a coberto da Constituição (para isso lá está a Segunda Emenda) e a pretexto da auto-defesa. É esse pretexto que leva um rapaz imberbe de 15 anos a sacar de um revólver e crivar de balas um professor ou outros colegas. Ou um Presidente a declarar guerra, alegando que o país se sente ameaçado por outro país longínquo. Ou a caçar inimigos e armas químicas a largos milhares de quilómetros quando o monstruoso ataque sofrido veio de dentro e foi cometido por cidadãos ilusoriamente pacatos, com aviões comerciais, "arma" insuspeita, disponível aos milhares nos aeroportos civis.

Os EUA (veja-se o oscarizado "Bowling for Columbine", de Michael Moore) vivem numa atmosfera de medo que julgam apaziguar com milhões de armas. Mas a multiplicação dessas armas multiplica também o medo, numa espiral incontrolável: atormentam-se porque as criaram, atormentam-se porque não as controlam totalmente. E disparam, sem medir as consequências. Por isso, só a América com "A" grande se poderá (e nos poderá) salvar da américa com "a" pequeno, surda e cega perante o que o mundo insistentemente lhe diz e no qual não acredita. Porque desconfia: dos adversários, dos vizinhos, dela própria. E tem sempre uma arma atrás da porta, para se defender. Mesmo que um dia, por miopia ou medo, atire contra o espelho e atinja aquilo que mais se vangloria de defender, com o seu sangue e o dos outros: a própria liberdade.

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