Público - 22 Abr 03

Um Herói à Americana
Por JOSÉ VÍTOR MALHEIROS

A notícia é um daqueles "fait-divers" que faz as delícias dos tablóides. Num bairro dos subúrbios de Lisboa, dois rapazes de quinze anos roubam duas pistolas carregadas do carro de um guarda-noturno. Divertem-se a fazer uns disparos da janela de casa de um deles e, aparentemente por acidente, enfiam uma bala na cabeça de uma menina de seis anos que brinca no recreio de um infantário próximo. A criança fica entre a vida e a morte, sem que os cirurgiões tenham conseguido extrair-lhe a bala do cérebro.

O relato desta história podia ter várias abordagens, mas seria normal que andasse à volta do drama desta vítima, inocente entre os inocentes, das raízes da delinquência, do perigo das armas à solta. O que seria estranho era que ela se transformasse na história da notoriedade súbita de um jovem delinquente, admirado pelos vizinhos, que faz a sua primeira vítima com arma de fogo. Mas foi precisamente esta a história que os repórteres encontraram nesse subúrbio e que foi relatada nas páginas dos jornais.

Um desses adolescentes, que aguarda julgamento em liberdade, transformou-se numa "vedeta" e num "herói" para a vizinhança, tendo mesmo deixado claro que tenciona vingar-se dos polícias que o detiveram para o interrogar e que acusa de o terem espancado.

Q. (como o identifica o PÚBLICO) acha "chato" ter baleado uma criança, mas não esconde a vaidade pela sua súbita reputação nacional de pistoleiro. No caso de Q., esta reacção poderia ser uma fanfarronice de adolescente sufocado intimamente pelo peso da culpa, mas a reacção dos vizinhos não deixa dúvidas. O bairro apareceu nos noticiários, houve vários residentes entrevistados pelos jornais e Q. mostrou que pode ter sido expulso de várias escolas e pode ter fugido de um curso de formação profissional mas que com ele ninguém brinca.

Tem de se reconhecer que existem façanhas ilegais que demonstram qualidades que podem despertar a nossa admiração (ainda que elas sejam em geral moralmente neutras, como a coragem, o engenho ou a destreza), mas nos actos de Q. não se vislumbra nada que possa ser considerado por alguém como admirável. Não há aliás na vida de Q. nenhuma razão de orgulho, nenhuma proeza que não seja a de uma vida de precoce violência. O que Q. fez de notável foi aparecer nos jornais e ser falado na televisão - e é isso que é invejável e que fez dele "um herói" para os seus vizinhos.

Se esta história tivesse acontecido numa cidade dos EUA ninguém teria dado por ela, de tão banal. Mas é preocupante que ela tenha acontecido entre nós, porque significa que alguns dos sinais da violência à americana começam a aparecer por cá. Esses sinais de violência não são tanto os tiros como a sua desvalorização, a ausência de compaixão para com a vítima e a existência de vidas tão vazias de possibilidades e de triunfos que a única proeza possível é a fama alcançada pela violência.

A importação do modelo cultural americano é feita em doses maciças através da indústria de entretenimento. Quando existem valores alternativos que se lhe podem contrapor, pode esperar-se uma sociedade um pouco mais equilibrada.

Mas quando às importações comerciais dos EUA se vem somar a adesão acrítica ao American Way of Life, com o seu culto da força; o louvor do individualismo e da concorrência desenfreada em detrimento da cooperação e da segurança social; o desprezo dos mais fracos e desprotegidos; a aversão à regulação, ao papel do Estado e o culto da violência e das armas, pode esperar-se o pior.

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