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Público - 9 Abr 03
De Graça
Por JOAQUIM FIDALGO
Na rua, não costumam dar-nos nada que não queiram algo em troca. Nem os papéis.
Todos pedem, e esperam, alguma coisa. As mais das vezes nem é dinheiro, não. É
atenção, é adesão. Dão-nos papéis para pedir um apoio a uma certa causa. Dão-nos
papéis para oferecer um desconto numa "pizza" de um certo restaurante. Dão-nos
papéis para convidar à manifestação de um certo partido. Dão-nos papéis para
propagandear a mensagem de uma certa associação. Dão-nos papéis para anunciar as
promoções de venda num certo hipermercado. Dão-nos papéis sempre para qualquer
coisa na volta. São sempre uma troca, eu dou-te isto e tu mais ou menos dás-me
aquilo.
Aquela menina, não.
Não sei quem é, de onde veio, para onde foi, a quê ou quem pertence. Não sei
nada. Sei apenas que ela me deu um papel na rua - e não queria nada em troca.
Não só não pediu nada como não mandou recado nenhum pelo papel que me deu. Nem
descontos, nem propagandas, nem promoções, nem sequer publicidade a uma qualquer
organização que tenha, ao menos, pago as fotocópias. Nada de nada. Apenas um
papel, pequenino, simples, com este dizer:
"O teu Cristo é judeu,
O teu carro é alemão,
A tua pizza é italiana e o teu hamburger americano,
A tua democracia é grega,
O teu café é africano,
O teu relógio é suíço,
A tua camisa é francesa,
O teu alta fidelidade é japonês,
As tuas férias são londrinas, espanholas ou sul-americanas,
Os teus números são árabes,
A tua escrita é latina.
Então... não trates o teu próximo como a um estranho."
Assim, só. Mais nada. Nada na frente, nada no verso, nada na manga. Assim, só.
Uma sugestão apenas, um pouquinho de conversa, e faça-lhe eu o que disso quiser.
É uma mensagem bonita, simples como crianças, embora se possa sempre dizer que a
realidade é muito mais complicada. Tá bem. Mas também pode dizer-se assim,
simples, ingénua, inocente como crianças. Clara como água.
Mas, mais ainda que a mensagem, é a mensageira. Há-de ser, muito provavelmente,
de algum partido, de alguma associação, de algum movimento. Mas, se é, não o
disse - aliás, não disse nada, só estendeu a mão com um sorriso e um papel, e
depois disse "obrigada" (sim, foi ela que disse "obrigada") quando eu lho
aceitei. Segui para diante, li-o, procurei o "pedido" ou a "troca", procurei
assinatura, nome, origem, mas nada. Era só aquilo, acabava ali. Olhei para trás,
a menina continuava no seu sítio, estendendo a mão a quem passava, com um
sorriso e um papel. E "obrigada" por aceitar, por não recusar.
Até posso pensar que não é de organização nenhuma. Que foi ela, sozinha ou com
um grupo de amigos, a imaginar "... e se déssemos um papelinho às pessoas a
dizer isto que pensamos?...". Assim, dar, dar apenas. De graça. Completamente de
graça, como nunca nos dão nada. E só porque sim.
Pela minha parte, obrigado também.

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