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Público - 23 Abr 03
Dia Internacional do Escutismo: Fazer da Vida "Uma Constante Boa Acção"
Por SANDRA SILVA COSTA (TEXTOS) E PAULA ABREU (FOTOS)
A noite foi praticamente de dilúvio. A chuva não parou, o vento também não.
Algumas tendas, as mais frágeis, meteram água. Às três da manhã, dois ou três
rapazes, de "T-shirt" e calções, enfrentaram a tempestade, para tentar reparar
os estragos. Houve quem não pregasse olho. Mesmo assim, a alvorada deu-se às
8h00, como estava previsto. Ninguém reclamou, porque o escuteiro tem de estar
preparado para tudo.
A manhã continua cinzenta e o céu ameaça desabar a qualquer momento. O sino da
igreja de Fornos, freguesia de Castelo de Paiva, debita nove badaladas. Alguns
miúdos, de uniforme vestido, abandonam o templo e dirigem-se às tendas montadas
mesmo ali ao lado. Dali a pouco, envergando já uma roupa mais confortável, mas
ainda de lenço ao pescoço, estarão todos concentrados junto ao pórtico de
entrada do Acampamento de Núcleo (Acanuc) da Junta do Núcleo Sul da Região do
Porto do Corpo Nacional de Escutas (CNE) - que durante três dias juntou em
Castelo de Paiva 450 escuteiros -, para participar no "grande jogo de abertura
do campo".
Hoje é Dia Internacional do Escutismo. Desde que surgiu, em 1907, o movimento
não parou de crescer, mas foi nos últimos 30 anos que se deu o grande "boom". Em
todo o mundo, estão recenseados 28 milhões de escuteiros, repartidos por 216
países e territórios. Em Portugal, são mais de 90 mil. Por que é que o escutismo
tem tanto sucesso entre as camadas jovens? Durante quase nove horas de um
sábado, o PÚBLICO andou à procura da resposta.
Os ponteiros do relógio marcam 11h00. Depois de ensaiado o hino do acampamento -
"Agora joga não fiques a ver/ Neste Acanuc vamos todos aprender" -, é chegada a
altura de separar os escuteiros. Os lobitos, miúdos dos seis aos dez anos, ficam
no campo; os exploradores, dos 10 aos 14 anos, vão fazer uma caminhada; os
pioneiros, dos 14 aos 18 , dirigem-se às margens do Paiva, onde vão construir
jangadas; e os caminheiros preparam-se para descer o rio em caiaques.
Enquanto espera por vez para entrar nas águas frias do Paiva, Ângela Mendonça,
estudante de 18 anos, explica que decidiu ser escuteira "por influência dos
amigos". Hoje, passados cinco anos, reconhece que cresceu no escutismo. "Cresci
muito por dentro. Aprendi a trabalhar em grupo e a conviver com pessoas de todas
as idades", diz. "Já pensei sair muitas vezes, mas não consigo. O escutismo
também é a minha família", acrescenta.
Mesmo ali ao lado, à roda de uma fogueira delimitada por pedras, estão os
pioneiros. Junto ao lume, há quatro ou cinco latas de salsichas. "Estamos a
fazer cozinha selvagem", informa Verónica, do agrupamento de Nogueira do Cravo.
Três ou quatro raparigas limpam o interior de uma mão-cheia de laranjas, que vão
usar para cozer ovos. "Abrimos a laranja em cima, tiramos todo o recheio, pomos
o ovo lá dentro e voltamos a tapar. Depois é só chegar ao lume", explica Vânia,
de Cucujães. Há chouriços a assar espetados em paus e pão amassado na hora a
cozer no brasido.
De prato de alumínio na mão, Isolina Almeida, secretária do Núcleo Sul da Região
do Porto do CNE, explica que o CNE proporciona "uma verdadeira educação para a
cidadania". "Os jovens aprendem a ser cooperantes, disciplinados, a respeitar a
natureza e a deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraram."
Escutismo leva "ao caminho do bem"
"Não gosto de ervilhas, não aguento mais", queixa-se um lobito do agrupamento de
Arada, no concelho de Ovar. "Vais ter que aguentar coisas bem piores na vida.
Toca a comer tudo, sem estragar", responde a chefe Sara. O escutismo também é
isto: mostrar aos miúdos que nem sempre podem fazer o que querem, há-de explicar
alguém.
Bruno Dias, de dez anos, mastiga devagar a salada russa e conta que decidiu
entrar para os escuteiros porque queria "aprender mais coisas" e "ficar mais
educado". "O tempo que passo nos escuteiros é muito bem aproveitado", assegura,
ele que tem a preocupação de fazer a sua boa acção diária. "Num dia ponho a mesa
à minha mãe, no outro vou limpar a casa da minha avó..."
Perto das 16h00, os caminheiros terminam a descida do rio. Vêm molhados até aos
ossos, mas felizes da vida. "Foi muito divertido", garante Ricardo Fernandes, de
23 anos. Cortador no ramo do calçado, precisa de alguma ginástica para dar
resposta aos seus compromissos com o escutismo, mas nunca pensou desistir. "Só
tem tempo quem não tem tempo", comenta. "Hoje em dia, nós temos de escolher
entre dois caminhos, o do bem e o do mal. Eu escolhi o escutismo, que me leva ao
caminho do bem", completa.
Patrícia Santos, 29 anos, está enroscada num cobertor na sala que dá apoio ao
acampamento. "Estou gelada", comenta. É professora de Matemática e entrou para o
escutismo, há 15 anos, em busca "de aventura". "O resto veio por acréscimo",
diz. O resto é "o espírito de serviço e o trabalho voluntário em prol da
juventude".
"O escutismo é um modo de vida. Aprendemos a estar disponíveis para tudo, a ser
responsáveis no trabalho ou no estudo e até nas brincadeiras que fazemos",
acrescenta Patrícia, que está de casamento marcado com outro escuteiro que
conheceu num acampamento. "O movimento é muito exigente. Nós, dirigentes, temos
de ser exemplo de vida e de postura para os mais novos. E porque o escutismo
pretende fazer uma educação integral de cada jovem e ensinar-lhes os valores
humanos e cristãos, todos os dias temos pela frente grandes desafios. Temos de
procurar que a nossa vida seja uma constante boa acção", conclui.
Minutos depois das 18h00, já de banho tomado, os caminheiros enfrentam a chuva,
que não deu tréguas durante a tarde, e dirigem-se ao lar de idosos da Santa Casa
da Misericórdia de Castelo de Paiva. "Vamos animar um pouco os velhinhos",
explica Jacinto. "Se queres mesmo ser feliz/ Não te deixes ir à toa/ Impele a
tua própria canoa", cantam os escuteiros. Os idosos, esses, de sorriso nos
lábios, batem palmas. "Viemos cá para partilhar as nossas com as vossas
vivências, porque o escutismo também é isto", introduz o chefe Luís Jorge. Dali
a pouco, um homem de 93 anos, de olhos brilhantes, há-de levantar-se para dançar
o "Malhão, malhão".

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