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Público - 13 Abr 03
O "Boom" dos Divórcios
Por ALEXANDRA CAMPOS
Aconteceu, subitamente, no ano passado. A relação casamento-divórcio em Portugal
aproximou-se da média dos Estados Unidos e de outros países da União Europeia:
em 2002, por cada dois casais que deram o nó houve um que deixou de acreditar
nas virtualidades do casamento e separou-se formalmente. A maioria (90,9 por
cento) fê-lo sem dramas nem conflitos, por mútuo acordo, nas conservatórias de
registo civil.
Actualmente, casar é "brincar aos deuses e jogar aos dados", avisava a
socióloga Anália Torres, investigadora do Instituto Superior de Ciências do
Trabalho e da Empresa, no preâmbulo do seu último livro, "Casamento em
Portugal", lançado no final do ano passado. Mas até esta especialista nos
fenómenos da nupcialidade e da divorcialidade admite ter sido apanhada de
surpresa pelo inusitado "salto" das rupturas conjugais no ano passado (27.805),
mais 46 por cento do que em 2001, segundo dados recentemente divulgados pelo
Instituto Nacional de Estatística (INE).
A agravar o panorama, o total de casamentos voltou a diminuir em 2002, ainda que
ligeiramente (de 58.390 passou para 56.391). Na região de Lisboa e Vale do Tejo,
a proporção entre matrimónios e rupturas conjugais foi mesmo a mais baixa de
sempre (18.215 para 11.577).
"São números intrigantes (os do divórcio)", comenta Anália Torres, notando
embora que acompanham a tendência esboçada desde 1975 - a do acréscimo
vertiginoso das rupturas conjugais - acelerada sobretudo a partir de meados da
década de 90. "Há já muito tempo que nos EUA, no Reino Unido e em França a média
é de dois casamentos para um divórcio", frisa. Por cá, em 2001, era ainda de
três para um, e cumpre notar que Portugal sempre teve maiores taxas de
divorcialidade do que os outros países do Sul da Europa, devido sobretudo à
elevadíssima taxa de actividade feminina. De qualquer forma, são necessários
mais anos para ver se esta tendência se confirma, alerta a socióloga.
A prudência justifica-se, até porque os últimos números do INE são provisórios e
ainda pouco pormenorizados. Mas os dados acumulados até 2001 - ano em que se
divorciaram 19.044 casais, um ligeiro decréscimo em relação a 2000, ao que tudo
indica porque alguns terão aguardado pela entrada em vigor da última alteração
legislativa (ver texto nestas páginas) - permitem perceber que o movimento é
irreversível.
Os números são reveladores: em apenas uma década, a taxa de divorcialidade
(número de divórcios por mil habitantes) passou de 1,1 (1991) para 1,8 (2001).
"O que explica o aumento do divórcio é sobretudo a mudança das concepções sobre
o casamento. Como o casamento é muito importante para a vida das pessoas, elas
sentem-se no direito de fazer novas tentativas", até acertarem, explica Anália
Torres. Por alguma razão é que existem tantos recasamentos em Portugal (cerca de
10 mil em 2001).
"Este tipo de evolução tinha que acontecer", Portugal está a aderir ao "modelo
pós-moderno", desdramatiza igualmente o demógrafo da Universidade Nova de Lisboa
Manuel Nazareth. E, apesar de também sublinhar que são necessários mais anos
para "se ter certezas", avança com uma série de teorias curiosas para explicar o
fenómeno.
Provavelmente são os "filhos do 25 de Abril" que agora estão a divorciar-se e a
contribuir para este incremento, arrisca. E explica como chegou a esta
conclusão: o pós-25 de Abril foi um tempo de "festejos", marcado por um "boom"
de casamentos e de nascimentos. Talvez sejam estes indivíduos, os casados e
nascidos após a revolução, os que se estão a divorciar agora, passadas quase
três décadas, numa altura em que sucessivas alterações legislativas
transformaram a anulação do contrato matrimonial num acto fácil e rápido, quase
cirúrgico.
Casais com um filho são os que mais se separam
"O mundo está impaciente de felicidade. As pessoas deixaram de se resignar com
situações insatisfatórias e vão mudando de parceiro", explica Manuel Nazareth.
"É o efeito da sociedade ?fast food`", assinala a psicoterapeuta e professora da
Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, Emília Costa, autora de um
livro sobre divórcio e que há mais de 20 anos faz mediação e terapia familiar.
"As pessoas vivem numa ânsia do tudo, andam numa correria incrível, não têm
tempo sequer para pensar na relação". A actual situação de crise também não
ajuda: "Os portugueses estão numa teia, cheios de dívidas, com salários baixos e
uma vida muito cara".
O próprio nascimento de um filho deixou de representar um obstáculo
intransponível para o cortar de amarras. Bem pelo contrário: o grosso das
rupturas conjugais em 2001 (cerca de 37 por cento) ocorreu justamente em casais
com um filho. Até porque, com a generalização dos divórcios, as consequências
para os filhos foram "desmistificadas e ainda bem", afirma a psicóloga. As
separações em casais sem filhos são também muito expressivos (33,5 por cento). O
fenómeno apenas se vai atenuando à medida que o número de filhos aumenta.
Actualmente continuam a ser sobretudo as mulheres quem toma a iniciativa de
pedir a dissolução do casamento. Na sua obra sobre o divórcio (1996), Anália
Torres destacava justamente a entrada generalizada da mulher no trabalho como
uma das principais razões da ascensão do fluxo divorcista.
Com as mulheres economicamente independentes e cada vez mais "instrumentais" e
os homens "ainda pouco educados para os afectos", é "inevitável que os conflitos
no seio casal" se continuem a agravar, prevê Emília Costa. Haverá solução para
isto? A psicoterapeuta acredita que sim: "As pessoas vão ter que se reajustar.
Particularmente os homens, eles que me desculpem, mas vão ter que se adaptar."

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