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Público - 21 Abr 03
Um Casino e Um Hospital
Por LUÍS SALGADO DE MATOS
Portugal atingiu o Nirvana: temos o nível de vida de milionários e a
produtividade dos doentes de uma clínica geriátrica. Chegámos ao Nirvana porque
sabemos o segredo de colher sem semear.
Alegramo-nos com o extermínio da indústria transformadora portuguesa. A nossa
agricultura está também em liquidação. Importamos metade do azeite que
consumimos. Cada dia semeamos menos.
Nenhuma economia da nossa dimensão dispensa um sector industrial e um sector
agrícola. Se continuarmos assim, acabaremos mal - e mais depressa do que
pensamos.
Que devemos fazer para evitar a decadência económico-social? Precisamos do
quadro clínico da doença. Sofremos do síndroma dos novos ricos: temos vergonha
de trabalhar e cremos que só o ócio dignifica.
Apenas aceitamos trabalhar se for para o Estado - ou se não sujarmos as mãos:
tudo menos transformarmos matérias-primas. O nosso trabalho não estará sujeito à
humilhação da concorrência - porque a concorrência é uma má criação que obriga a
falar de dinheiro e a discutir preços, actividades a que uma pessoa bem nascida
só pode dedicar-se na partilha das heranças.
Se um honrado português investir em porcos de chiqueiro, chamam-lhe saudosista e
desprezam-no. Se quiser ter um casino, chamam-lhe visionário e invejam-no. Se
investir em hospitais, apelidam-no de benemérito. É que os porcos são um "bem
transaccionável" como dizem os economistas: são transaccionados no comércio
internacional; o mesmo é dizer: estão submetidos à concorrência. Casinos e
hospitais dão lucro sem concorrência: produzem bens não transaccionáveis.
O Estado português é quem mais fomenta o ócio dignificado. É o Estado que dá
casinos e hospitais - para enriquecer aqueles a quem dá prestígio. O Estado dá
prestígio a quem? Aos que produzem bens transaccionáveis ou aos que vivem dos
subsídios? Ao empresário porqueiro ou ao empreiteiro de subvenções públicas? Nem
vale a pena escrever a resposta: o leitor sabe-a bem.
O sistema de ensino - estatal - empurra três quartos dos jovens para a
Universidade. Estes "borrachos" terão o fim próprio da raça: baquearão nos
exames e ficarão sem qualificação para o mercado de trabalho. Mas, antes de
falharem, o prestígio dar-lhes-á boa disposição: a Universidade é a nova
nobreza, os cursos técnicos cheiram a proletariado.
O Estado paga cerca de dois terços da investigação científica - que por regra
fica sem qualquer aplicação, apesar de ser quase toda "aplicada". É um subsídio
de desemprego - dignificado. O mesmo Estado consente que as empresas não façam
investigação científica - e, quando abre a boca, tem o descaro de falar das
"tecnologias da informação".
Para nos curarmos do "novo-riquismo" nacional, temos que mudar aquela escala de
valores. Se não, Eça de Queirós torcer-se-á na tumba: Portugal, em vez de ser
uma granja e um banco, será um casino e um hospital.

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