Optimizar a sexualidade
A
sexualidade está orientada para comunicar, é uma dimensão de abertura aos
outros, como tal tem como fim o amor. Este carácter relacional tem a sua máxima
expressão no “dar-se ao outro”. No amor sexual não se dá o corpo, porque o corpo
não se possui como coisa, como um chapéu ou um casaco, mas como algo que nos
constitui – dá-se tudo, o ser inteiro. A linguagem da sexualidade manifesta esta
entrega, tendo por isso um valor que não pode reduzir-se à procriação
5. Como qualquer linguagem, também a linguagem sexual pode ser
usada para enganar, pode mentir-se com o corpo como se mente com as palavras.
Pode simular-se com intenção de usar, manipular, ou enganar o outro. Uma entrega
sexual que não seja uma entrega pessoal, considera o corpo como um objecto
disponível, que pode ser transaccionado, ”transado”, “curtido”, e não como uma
realidade pessoal. Esta realidade pessoal ultrapassa, como é próprio dos seres
humanos, o presente, o tempo e o espaço: é vitalícia e exclusiva. Este amor não
se sustenta apenas com o sentimento, o prazer ou a utilidade. Este amor,
radical, exige uma aprendizagem e é portanto, susceptível de ser educado,
promovido, encorajado. 5
Sentimentos ou sentimentalismos
O
sentimento, é uma forma de conhecimento. O sentimento informa-nos de uma
realidade, a emoção, que me diz o que as coisas são para mim. Os sentimentos são
um termómetro da felicidade enquanto que, tal como a dor, me informam da
presença ou ausência daquilo que considero ser um bem. Nem sempre se dará a
coincidência entre a sensação de felicidade e a posse real do bem que desejo.
Até é possível substituir a procura do bem, pelo sentimento que ele provoca
(como se estivéssemos na sua posse), como na dependência de drogas. Neste caso
em vez de procurar o bem, a felicidade, procura-se apenas o estímulo cerebral
(no paleocortex) que lhe costuma estar associado. A experiência também demonstra
que a co-relação entre o bem e o prazer, ou a ausência do bem e a tristeza,
estão frequentemente viciados: a harmonia entre ambos está geralmente quebrada.
Se é verdade que a inteligência emocional parece responder mais depressa que a
inteligência racional – será geralmente a primeira a determinar o impulso
da resposta -, também se verifica, até pela psicologia experimental, que os
sentimentos (diferentemente das emoções) são mais reflexivos e deliberados. Por
isso podem estar submetidos a controle voluntário. Este controle depende da
educação, do treino, que facilita a adequação dos afectos aos valores. Mais uma
vez a liberdade pessoal configura a pessoa, no seu modo de sentir.
O
enamoramento é um exemplo típico: posso assumir esse sentimento e querê-lo. Ao
fazê-lo ele transforma-se num acto e num hábito da vontade. Sentir agrado quando
se faz o bem é fruto da educação da vontade. Uma pessoa “boa” não é só a que faz
as coisas “bem”, mas sobretudo a que se sente bem fazendo coisas boas. Esta
opinião nem sequer é recente, vem de há séculos atrás de Tomás de Aquino...
[1]
Sexo de plástico
Talvez
seja esta uma das dificuldades do momento. A promoção do consumo, a sociedade do
capitalismo ilustrado
[2], escolheu como lema “o prazer nas alturas e o
cérebro pelo chão”
[3]. Esta falta de relativização e subordinação das
operações humanas, paradoxalmente numa época de relativismos, dificulta a
realização das pessoas, fecha-as nos seus problemas pessoais, desarma-as perante
as dificuldades. Este encerramento no individual, e no sensual, conduz a uma auto-estimulação permanente das capacidades psíquicas, sobretudo às que são
automáticas e não necessitam de treino: predomina o sentir sobre o ser
20. A percepção e a afectividade estão saturadas de estímulos,
porém na neuro-química da memória apenas interessam as discrepâncias, não os
factos. Esta monotonia cerebral conduz á “amnésia da memória transcendental”,
reduzindo a capacidade crítica e produzindo indivíduos domesticados
Mas “o
amor não é atraído por esta ou aquela qualidade do outro, mas pela unicidade
irreversível que o outro é.” É o aparecimento de um tu num ser-assim,
que não se conforma com o sexo de usar-e-deitar-fora, nem com o sexo de ocasião,
da sexualidade reduzida ao corpo: o “sexo de plástico” de que fala Giddens.
[4] Se for possível ensinar que o amor, que
habitualmente se dá entre homem e mulher, pode desenvolver-se independentemente
da fisiologia genital, então o amor com um tu e a cópula por diversão com
outro, naturalizam-se, estruturam-se como relação dominante, numa nova
forma de subjugação: ”mulher e homem tornam-se deuses de si próprios, cada um
exclui o outro, ao qual só recorre por motivos instrumentais”
[5]. Não te amo, mas preciso de ti, seria o
mote. Estas “abstracções selectivas” levam à fragmentação do outro, ou do
próprio, escondendo a totalidade da pessoa no empolamento artificial de algumas
das suas dimensões: o corpo / prazer, a inteligência / sucesso, o prestígio /
reconhecimento 8.
Parafraseando Jaspers, o ser humano é sempre mais do que aquilo que sabemos
dele. “Ao descobrir no outro a transcendência humana, o conjugue redescobre-se,
encontra-se e acaba por apropriar-se da sua própria transcendência. Na
transcendência – seja auto-transcendência ou hetero-transcendência – pela sua
própria natureza para a abertura radical, o conjugue consegue vencer a sedução
lisonjeira de converter-se num ser clausurado, optando definitivamente pela
abertura ao ser onde unicamente pode encontrar a dignidade e o desenvolvimento
da sua mais alta estatura à qual, por outro lado, está vocacionalmente chamado
8.
[1] Comentário à Ética a Nicómaco de
Aristóteles, S. Tomás de Aquino
[2] Sanz, J. A. Mínguez e Adán, J. Pérez (1995).
Ecologia sexual, in Sexo y naturaleza. Eunsa: Pamplona.
[3] Iranzo, M. Barceló
(1995). Sexo y crisis de la afectividad, in Sexo y naturaleza. Eunsa:
Pamplona.
[4] Torello, J.B. Psicologia Aberta. Quadrante:
S. Paulo.
[5] Sancho, Rodrigo (1981).
Preparación para el amor. Eunsa: Pamplona.
[8] Renaud, Isabel (1994). A pessoa humana e o
direito à saúde. Brotéria 139, 323-342.
Constantino Lima Santos

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