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O Aleitamento Materno
O
aleitamento materno, antes de ser um acto natural, fisiológico, tornou-se
uma opção nos dias de hoje. Na década de 70, quando as taxas de
aleitamento materno alcançaram os níveis mais baixos da história da
humanidade, começou a ocorrer um movimento internacional para resgatar a
“cultura da amamentação”. Apesar de haver um aumento da prática do
aleitamento materno, ela está, ainda, muito aquém da recomendação da
Organização Mundial de Saúde, que preconiza a amamentação exclusiva
durante os primeiros 4-6 meses e uma amamentação parcial até pelo menos o
final do primeiro ano de vida.
DEFINIÇÃO
Segundo o Interagency Group for
Action on Breastfeeding
-
Amamentação
exclusiva, quando a criança se alimenta exclusivamente de leite materno.
-
Amamentação quase
exclusiva, quando a criança, além do leite materno, se alimenta de
complexos vitamínicos, chás, sumos e/ou água.
-
Amamentação parcial
com predominância de leite materno, em que cerca de 80% da alimentação da
criança é leite materno, 20% suplementos ou derivados do leite, sopas,
sumos ou papas.
-
Amamentação parcial
com uma ingestão média de leite materno, onde 20 a 80% da dieta da
criança é leite materno.
-
Amamentação parcial
com baixa ingestão de leite materno, dieta composta predominantemente por
outros alimentos, e em que o leite materno representa 20% da fatia
alimentar.
-
Amamentação
“residual”, quando o seio é usado para consolo da criança e não como fonte
de nutrição, onde a criança mama cerca de 15 minutos por dia, divididos
por 2 a 3 mamadas.
VANTAGENS DO ALEITAMENTO
MATERNO
De acordo com os estudos
epidemiológicos temos:
-
Redução da
mortalidade infantil
É atribuído ao aleitamento materno
a prevenção de mais de 6 milhões de mortes em crianças com menos de 12
meses, anualmente.
São as crianças de baixo nível
sócio-económico as que mais beneficiam com o aleitamento materno,
sobretudo se este for exclusivo.
- Redução da morbilidade por diarreia
Está provado por estudos
epidemiológicos que o leite materno protege a criança do risco de
diarreias, sobretudo as crianças de baixo nível sócio-económico. Um estudo
controle provou que as crianças não amamentadas tiveram um risco 3,3 vezes
maior de desidratar na presença de diarreia, sugerindo, pois, que o leite
materno tem influência não só na diminuição no número de episódios de
diarreia, como também na sua gravidade.
-
Redução da
morbilidade por infecção respiratória
Estudos realizados em diferentes
partes do mundo, com diferentes graus de desenvolvimento, sugerem haver
por parte do leite materno uma maior protecção contra as infecções
respiratórias. Tal protecção é mais significativa quando a amamentação é
exclusiva e nos primeiros 6 meses, embora possa perdurar além deste
período.
Está já feita uma associação entre
aleitamento materno e menor número de episódios de otite média.
-
Redução de
hospitalizações
Provavelmente este facto deve-se à
protecção do leite materno em si, que diminui a incidência e a gravidade
das doenças.
-
Redução das doenças
alérgicas
A alergia alimentar tem sido
encontrada com menor frequência em crianças exclusivamente amamentadas. As
dermatites atópicas podem ter o seu início retardado com a presença de uma
alimentação natural.
-
Redução de doenças
crónicas
Apesar de não estar ainda bem
estabelecida a relação directa entre o leite materno e certas doenças
crónicas, começam a aparecer estudos na literatura sobre o papel do
aleitamento materno na redução do risco de certas doenças auto-imunes,
tais como a doença Celíaca, a doença de Crohn, a Colite ulcerativa,
Diabetes mellitus e o Linfoma.
- Melhor nutrição
O leite materno contém todos os
nutrientes essenciais para o crescimento e o desenvolvimento da criança,
além de ser de mais fácil digestão, quando comparado com todos os outros
tipos de leite artificiais.
- Melhor desenvolvimento
Estudos efectuados demonstram haver
vantagens significativas nas crianças amamentadas quanto ao seu
desenvolvimento neurológico. No entanto, é difícil avaliar qual a
contribuição de factores tais como a relação mãe - filho,
características maternas e o ambiente familiar.
- Protecção contra o cancro da mama
Existe, apesar de tudo, alguma
controvérsia.
- Mais económico
Mesmo tendo em consideração os
alimentos extras que a mãe deve ingerir durante a lactação.
- Promove um maior vínculo afectivo
entre mãe e filho
O acto de amamentar e de ser
amamentado proporciona muito prazer quer para a mãe quer para a criança, o
que favorece uma ligação afectiva muito forte entre elas. Trata-se de uma
oportunidade ímpar de se criar uma intimidade, de troca de afecto, gerando
sentimentos de segurança e de protecção na criança e de autoconfiança na
mulher.
- Protege contra novas gravidezes
As mulheres que amamentam
apresentam períodos de amenorréia, de anovulação e de infecundidade mais
prolongados, resultando em intervalos intergestacionais maiores.
Em 1988, um grupo de peritos
reuniu –se em Itália, chegando ao consenso de que as mulheres
amenorréicas, amamentando exclusiva, ou predominantemente, até aos 6 meses
após o parto têm 98% de protecção contra nova gravidez(11).
Em Portugal aconselha-se a toma da
»pílula da amamentação» o Exluton, podendo a mulher amamentar com
segurança e ter a certeza que não engravida enquanto amamenta.(sempre de
acordo com as instruções médicas)
ANATOMIA DA MAMA
As mamas das mulheres adultas são
formadas pelo parênquima e pelo estroma mamários. O parênquima inclui de
15 a 25 lobos mamários (glândulas túbulo-alveolares), que são
subdivididos, cada um, em 20 a 40 lóbulos. Cada lóbulo, por sua vez,
subdivide-se em 10 a 100 alvéolos, local onde o leite é produzido.
A secreção láctea é excretada por intermédio de uma rede de ductos que vão
convergindo, até formarem os seios lactíferos, local onde o leite é
armazenado. Para cada lobo mamário há um seio lactífero, com uma saída
independente no mamilo. Portanto, existem de 15 a 25 orifícios de saída de
leite no mamilo. Envolvendo os lobos mamários, encontra-se tecido adiposo,
tecido conjuntivo, vasos sanguíneos, tecido nervoso e tecido linfático.

FISIOLOGIA DA LACTAÇÃO
No início da gravidez, o tecido
mamário desenvolve-se devido à acção de diferentes hormonas. O estrogénio
é responsável pela ramificação dos ductos e o progestogénio, pela formação
dos lóbulos. Lactogénio placentário, prolactina e gonadotrofina coriónica
contribuem para a aceleração do crescimento mamário. A secreção de
prolactina aumenta de 10 a 20 vezes na gravidez. No entanto, a prolactina
é inibida pelo lactogénio placentário, não permitindo que a mama segregue
leite durante a gravidez.
Com o nascimento da criança e a expulsão da placenta, a mama passa a
produzir leite sob a acção da prolactina. A ocitocina age na contracção
das células mioepiteliais que envolvem os alvéolos, provocando a saída do
leite. A prolactina e a ocitocina são reguladas por dois importantes
reflexos maternos: o da produção do leite (prolactina) e o da ejecção do
leite (ocitocina). Tais reflexos são activados pela estimulação dos
mamilos, sobretudo pela sucção. O reflexo de saída do leite também
responde a estímulos condicionados, tais como visão, cheiro e choro da
criança, e a factores de ordem emocional, tais como motivação,
autoconfiança e tranquilidade.
Por outro lado, a dor, o
desconforto, o stress, a ansiedade, o medo e a falta de autoconfiança
podem inibir o reflexo da saída do leite, prejudicando a lactação.
O leite é produzido nos alvéolos, em células epiteliais altamente
diferenciadas. A maior parte do leite é produzido durante a mamada, sob o
estímulo da prolactina. A secreção de leite aumenta em média de 50ml no
segundo dia pós-parto para 500ml no quarto dia. O volume de leite
produzido na lactação já estabelecida varia de acordo com a procura da
criança. Em média, é de 850ml por dia quando da amamentação exclusiva.
COMPOSIÇÃO DO
LEITE MATERNO
O leite dito “maduro” só é
segregado por volta do 10º dia pós-parto. O colostro, produzido nos
primeiros dias, contém mais proteínas, mas menos gorduras e lactose do que
o leite maduro. É rico em imunoglobulinas, em especial IgA.
A Tabela apresenta os principais
componentes do leite materno maduro e do colostro, bem como do leite de
mães de recém- nascidos pré-termo, cuja composição é diferente do leite de
mães de bebés a termo.
|
Nutriente
Colostro |
Leite
maduro |
Leite de
mães de
(1-5 dias) (>30dias) |
Leite de mães de crianças pré-termo |
|
Calorias
(Kcal)
Carbohidratos (g)
Proteínas
(g)
Gorduras (g)
Cálcio (mg)
Fósforo (mg)
Magnésio
(mg)
Sódio (mg)
Potássio
(mg)
Cloro (mg)
Ferro (mg)
Zinco (mcg)
Cobre (mcg)
Vitamina A (mcg)
Vitamina C
(mg)
Vitamina D (mcg)
Vitamina K (mcg)
Tiamina (mcg)
Riboflavina
(mcg)
Niacina (mcg)
Vitamina B6
(mcg)
Vitamina B12
(ng)
Ácido fólico
(mcg)
Ácido
pantoténico (mg) |
58
5,3
2,3
2,9
23
14
3,4
48
74
91
0,08
540
46
89
4,4
—
0,23
—
25
75
12
200
—
183 |
70
7,3
0,9
4,2
28
15
3,0
15
58
40
0,08
166
35
47
4,0
0,04
0,21
15
35
200
28
26
—
225 |
67
6,4
1,9
3,8
28
15
3,0
32
69
54
0,1
375
52
13
4,2
0,05
1,5
16
36
147
10
—
5,2
184
|
Fonte: Riordan e Auerbach.
CRESCIMENTO DE
CRIANÇAS AMAMENTADAS
Estudos
realizados em diferentes países industrializados mostram que, em geral, o
crescimento das crianças amamentadas a seio e das alimentadas
artificialmente é semelhante nos 2 a 3 primeiros meses de vida, passando,
a partir de então, a ser mais lento no grupo de crianças amamentadas ao
seio (para maiores pormenores, ver o Capítulo “Vigilância do Estado
Nutricional da Criança”).
Em países em desenvolvimento, as
crianças amamentadas a seio têm, em geral, um melhor estado nutricional
nos primeiros 6 meses de vida, quando comparadas com as alimentadas
artificialmente. Vários estudos demonstram que, nestes países, a
amamentação exclusiva ou quase exclusiva no primeiro semestre garante um
crescimento adequado (mesmo às de baixo nível sócio-económico), semelhante
ao de crianças amamentadas nos países industrializados. No entanto, é
comum que as crianças amamentadas a peito em países pobres mostrem um
crescimento insuficiente a partir dos 3 meses de idade. Acredita-se que
outros factores, além da amamentação, estejam envolvidos neste atraso de
crescimento, tais como baixo o peso da criança ao nascimento, a introdução
precoce de alimentos de baixo valor nutritivo na dieta da criança e uma
maior exposição a focos de infecção. Há uma controvérsia quanto ao impacto
da amamentação prolongada (mais de 1 ano) no estado nutricional da
criança.
PROPRIEDADES
IMUNOLÓGICAS DO LEITE MATERNO
|
IMUNOGLOBULINA
|
BACTÉRIAS
|
VÍRUS
|
PARASITAS
|
|
IgA
|
E. coli, C.
tetani, C. diphtheriae, K. pneumoniae, Salmonella, Shiguella,
Streptococus, S. mutans, S. sanguis, S. mitis, S. salivarius, S.
pneumoniae, C. burnetti, H. influenzae, enterotoxina do E. coli e do
V. cholerae
|
Poliovírus
tipos 1, 2 e 3, coxsackie tipos A9, B3 e B5, ecovírus tipos 6 e 9,
Semliki Forest, Ross River, rotavírus, citomegalovírus, retrovírus
tipo A3, vírus da rubéola e da caxumba, herpes simples, influenza,
vírus respiratório sincicial
|
IG. lambia,
E. histolytica, S. mansoni, Cryptosporidium
|
|
IgM
|
V. cholerae,
E. coli
|
Vírus da
rubéola, citomegalovírus vírus respiratório sincicial
|
|
|
IgG
|
V. cholerae,
E. coli
|
Vírus: vírus
da rubéola, citomegalovírus vírus respiratório sincicial
|
|
|
IgD
|
E. coli
|
|
|
|
Factor
bífidas
|
Enterobactérias
|
|
|
|
Factores de
ligação de proteínas
|
E. coli
|
|
|
|
Lactoferrina
|
E. coli
|
|
|
|
Lactoperoxidase
|
Streptococus,
Pseudomonas, E. coli, S. thyphimurium
|
|
|
|
Lisozima
|
E. coli,
Salmonella, Micrococcus lysodeikticus
|
|
|
|
Factores não
identificados
|
S. aureus,
toxina do C. difficile Parasitas: T. rhodesiense
|
|
|
|
Carbohidrato
|
Enterotoxina da E. coli
|
|
|
|
Lipídios
|
S. aureus
|
Herpes
simplex, Semliki Forest, influenza, dengue, Ross River, vírus da
encefalite japonesa B, Sindbis, West Nile
|
G. lamblia,
E. histolytica, T. vaginalis
|
|
Gangliosídios
|
Enterotoxinas da E. coli e do V. cholerae
|
|
|
|
Glicoproteínas + oligossacarídios
|
V. cholerae
|
|
|
|
Análogos de
receptores
|
S.
pneumoniae, H. influenzae
de células epiteliais
(oligossacarídios)
|
|
|
|
Células (macrófagos,
neutrófilos, linfócitos B e T)
|
E. coli, S.
aureus, S. enteritidis
|
Herpes
simples, citomegalovírus, vírus da rubéola, do sarampo, vírus
respiratório sincicial
|
|
|
Alfa-2-macroglobulina
|
|
Influenza,
parainfluenza
Ribonuclease,
Leucemia
|
|
Fonte: Adaptado de Riordan e
Auerbach.
QUANDO NÃO
AMAMENTAR
Cabe à mãe a opção de amamentar ou
não uma criança. Porém, é dever do profissional de saúde informá-la quanto
às vantagens da amamentação e às desvantagens da introdução precoce de
leites artificiais. Muitas mulheres, embora biologicamente aptas para a
lactação, não conseguem amamentar os seus filhos por diversas razões,
conscientes ou inconscientes.
A galactosémia e a fenilcetonúria,
doenças metabólicas raras, são exemplos de contra-indicações formais ao
aleitamento materno.
Temos ainda as situações em que há
doença mental severa da mãe, a qual pode colocar em risco a vida da
criança, doenças graves que debilitem a mãe, uso de drogas por parte desta
e infecção materna pelo HIV, ou outras.
A mastite, por si só, não é uma
contra-indicação da amamentação, mas em casos de abcesso mamário, pode
ser necessária a suspensão temporária da amamentação no seio afectado.
AMAMENTAÇÃO E USO DE
DROGAS
Regra geral,
deve-se recomendar à mãe evitar ao máximo os medicamentos, porque muitos
deles podem ser excretados no leite em quantidades suficientes para causar
efeitos (muitos ainda não bem estudados) no lactente. Poucas drogas são
comprovadamente contra-indicadas na lactação. Segundo o Comité de Drogas
da Academia Americana de Pediatria, as drogas contra-indicadas durante a
amamentação são: anfetamina, bromocriptina, cocaína, ciclofosfamida,
ciclosporina, doxorubicina, ergotamina, fenciclidina, fenindiona, heroína,
lítio, maconha, metrotexate e nicotina.
Substâncias radioactivas utilizadas
em exames diagnósticos requerem uma interrupção temporária da amamentação.
A maioria das drogas são
compatíveis com a amamentação, mas podem produzir efeitos colaterais nas
crianças amamentadas.
Antes de prescrever a uma mulher que amamenta uma droga cujo efeito para o
lactente seja desconhecido do médico, ou antes de recomendar a suspensão
da amamentação por uso dessas drogas pela mãe, o médico deve consultar uma
tabela de drogas da amamentação e calcular os riscos e os benefícios para
a mãe e a criança. É importante lembrar que, para a maioria dos
medicamentos, o efeito das drogas na criança é minimizado se a ingestão
for feita logo após a amamentação.
PROMOÇÃO DA AMAMENTAÇÃO NO PERÍODO PRÉ-NATAL
O
médico deve conversar com elas sobre os seus planos quanto à alimentação
do futuro bebé. A promoção do aleitamento materno deve fazer parte da
rotina do atendimento pré-natal. Neste contexto, cabe ao médico o
acompanhamento pré-natal:
—
Despiste de lesões
mamárias.
—
Discutir as vantagens
do aleitamento materno e as desvantagens da introdução precoce de leites
artificiais.
—
Explicar à gestante a
fisiologia da lactação.
—
Alertar para as
dificuldades que poderão surgir e ensinar a preveni-las ou a superá-las.
—
Desfazer certos tabus
(leite fraco).
O INÍCIO DA
AMAMENTAÇÃO
É uma arte feminina transmitida de
geração em geração, não um acto instintivo. Recomenda-se que as mães
amamentem os seus filhos imediatamente após o parto, se as suas condições
e as da criança o permitirem. A amamentação deve ser em regime de livre
demanda, ou seja, sem horários pré-estabelecidos.
O uso de biberão, especialmente no
início da amamentação, além de confundir o reflexo de sucção do
recém-nascido, pode retardar o estabelecimento da lactação.
A TÉCNICA DA AMAMENTAÇÃO
Uma boa técnica de amamentação é indispensável para o seu sucesso, uma vez
que previne o trauma nos mamilos e garante a retirada efectiva do leite
pela criança. O bebé deve ser amamentado numa posição que seja confortável
para ele e para a mãe, que não interfira com a sua capacidade de abocanhar
o tecido mamário suficiente, de retirar o leite efectivamente, assim como
de deglutir e respirar livremente. A mãe deve estar relaxada e segurar o
bebé completamente voltado para si. Estudos com cinerradiografias e
ultra-som mostram que é importante a criança abocanhar cerca de 2cm do
tecido mamário além do mamilo para que a amamentação seja eficiente. A
criança que não abocanha uma porção adequada da auréola tende a causar
trauma nos mamilos e pode não ganhar peso adequadamente, apesar de
permanecer longo tempo no peito. As mamadas ineficazes dificultam a
manutenção da produção adequada de leite, e uma má estimulação do mamilo
pode diminuir o reflexo da saída do leite.
O bebé que pega incorrectamente no
peito é capaz de obter o chamado leite anterior, mas tem dificuldade de
retirar o leite posterior, mais nutritivo e rico em gorduras. Os lábios do
bebé devem ficar levemente voltados para fora, se os lábios estão
apertados indicam que ele não conseguiu pegar em todo o tecido suficiente.
É importante enfatizar que quando a criança é amamentada numa posição
correcta e tem uma pega boa, a mãe não sente dor.
Quando a mama está muito cheia ou
ingurgitada, o bebé não consegue abocanhar adequadamente a auréola. Em
tais casos, recomenda-se, antes da mamada, a expressão manual da auréola
ingurgitada.
PREVENÇÃO DE FISSURAS
As
fissuras de mamilo são muito comuns e bastante dolorosas, podendo culminar
com a interrupção da amamentação. Todas as mulheres que amamentam devem
ser orientadas quanto à sua prevenção:

-
Técnica correcta de
amamentação.
-
Manter os mamilos
sempre secos.
-
Introduzir o dedo na
boca do recém-nascido quando houver necessidade de interromper a mamada.
-
Evitar o
ingurgitamento mamário por meio de mamadas frequentes e expressão manual
(ou por bomba de sucção) das mamas, quando necessário.
TÉCNICA CORRECTA DE
AMAMENTAÇÃO
1-
Roupas da mãe e do bebé adequadas, sem restringir movimentos.
2-
Mãe confortavelmente posicionada, bem apoiada, não curvada.
3-
Corpo do bebé todo voltado para a mãe, o apoio do bebé deve ser
feito nos ombros e não na cabeça, que deve permanecer livre para
inclinar-se para trás.
4-
Braço inferior do bebé ao redor da cintura da mãe, corpo flectido
sobre ela, quadris firmes, pescoço levemente estendido.
5-
Bebé ao mesmo nível da mama, sustentada por fralda se necessário,
boca centrada em frente ao mamilo.
6-
Comprimir a mama suavemente enquanto o bebé abocanha, entre polegar
e indicador, atrás da auréola, não entre indicador e dedo médio.
7-
Encorajar abertura grande da boca, língua bem abaixada, estimulando
o lábio inferior com o mamilo; repetir até conseguir boa abertura da boca.
8-
Levar o bebé ao peito, não o peito ao bebé; tórax com tórax.
9-
O bebé deve abocanhar uma boa porção da mama além do mamilo.
10-Verificar se o queixo está bem
de encontro à mama.
11-O bebé mantém a boca ampla
colada na mama, lábios não apertados.
12-Lábios do bebé curvados para
fora, não enrolados.
13-Língua do bebé sobre a gengiva
inferior, algumas vezes visível. Verificar voltando-se suavemente o lábio
inferior para baixo.
14-O bebé deve manter-se fixo sem
escorregar ou largar o mamilo.
15-A mama não deve parecer esticada
ou deformada.
16-Frequência rápida de sucção (>2
por segundo), caindo para cerca de 1 por segundo, pois o volume de leite
por sucção aumenta após o reflexo da saída; pausas ocasionais; maior
irregularidade no final da mamada.
17-Bochechas do bebé não se encovam
a cada sucção; não deve haver ruídos da língua; a deglutição, entretanto,
pode ser barulhenta.
18-Bebé mamando activamente
trabalha pesadamente; mandíbulas e frequentemente toda a cabeça se move;
orelhas podem mexer-se.
19-Logo depois que o bebé larga a
mama, o mamilo parecerá alongado; o trauma é indicado por mamilo com
estrias vermelhas ou áreas esbranquiçadas ou achatadas.
20-Amamentação com posicionamento e
pega bons não deverá doer.
MANUTENÇÃO DA AMAMENTAÇÃO
Ao sair da maternidade, as mães
devem ser orientadas a comparecer com o recém-nascido para reavaliação
médica entre o 7º e o 10º dias, pois é nos primeiros dias, em casa, que
surgem problemas e dúvidas que podem dificultar a amamentação. Em todas as
visitas de reavaliação é importante que o profissional de saúde promova e
proteja a amamentação e oriente o desmame na época oportuna
Um complemento do leite materno com
água, ou chás, nos primeiros 6 meses de vida é desnecessária sob o ponto
de vista biológico, e pode ser prejudicial, diminuindo o efeito protector
do leite materno contra diarreias.
A Organização Mundial de Saúde
preconiza a amamentação natural e exclusiva como a forma ideal de
alimentação nos primeiros 4-6 meses de vida.
A saúde física e mental da mãe deve sempre ser verificada tanto nas
revisões da mãe como nas da criança. Sabe-se que factores de ordem
emocional como motivação, autoconfiança e tranquilidade são fundamentais
para uma amamentação bem sucedida. Por outro lado, a dor, o desconforto, o
stress, a ansiedade, o medo e a falta de autoconfiança podem inibir o
reflexo de saída do leite, prejudicando a lactação.
DIFICULDADES NA AMAMENTAÇÃO E SEU MANEJO
1.
Má técnica de amamentação.
2.
Saciar a criança com suplementos líquidos, fazendo-a espaçar mais
as mamadas, com consequente diminuição da sucção dos mamilos.
3.
Uso de chupetas (bico) que podem funcionar como um substituto para
as mamadas frequentes.
4.
Uso de protectores de mamilos, interferindo nos reflexos produzidos
pela sucção.
5.
Horários fixos de mamadas, dificultando o ajuste da produção do
leite à exigência da criança.
6.
Mamadas muito curtas ou num só seio, estimulando pouco os mamilos.
7.
Fadiga ou tensão materna, os quais interferem no reflexo de descida
do leite.
8.
Uso de drogas que interferem na produção do leite
(anticoncepcionais orais, nicotina em excesso, bromocriptina).
As seguintes situações são bastante comuns.
O médico deve estar preparado para
diagnosticá-las e prevenir de forma adequada:
INGURGITAMENTO MAMÁRIO
O ingurgitamento mamário é mais comum em prímaras e costuma aparecer no
segundo dia pós-parto. Resulta do aumento da vascularização e congestão
vascular das mamas e da acumulação de leite. Pode atingir apenas a
auréola, o corpo da mama ou ambos.
Quando a auréola está ingurgitada,
a criança não consegue uma boa pega, o que pode ser doloroso para a mãe e
frustrante para a criança, pois, nestas condições, há dificuldade para a
saída do leite.
Para o tratamento do ingurgitamento
mamário, são úteis as seguintes medidas:
-
Manter as mamas
elevadas; usar um soutien apertado.
-
Compressas frias
entre as mamadas para reduzir a vascularização.
-
Compressas quentes
(ou duche de água morna) antes das mamadas facilitam a saída do leite.
-
Amamentar com
frequência. Se necessário, extrair o leite manualmente ou com bomba de
sucção.
-
Usar analgésicos, se
necessário.
HIPOGALACTIA
Queixa comum durante a amamentação é afirmar que se tem “pouco leite ”, ou
que o leite é fraco. Esta está relacionada, frequentemente, com a
insegurança materna quanto à sua capacidade de nutrir o seu filho, fazendo
com que interprete o choro da criança e as mamadas frequentes (normal no
bebé pequeno) como sinais de fome. A ansiedade que tal situação gera na
mãe e na família pode ser transmitida à criança, que responde com mais
choro. O complemento com leites artificiais muitas vezes alivia a tensão
materna e essa tranquilidade vai-se repercutir no comportamento da
criança, que passa a chorar menos, reforçando a ideia de que ela realmente
estava passando fome.
A suficiência de leite materno é
avaliada através do ganho ponderal da criança e o número de micções por
dia (no mínimo 6 a 8). Se a produção do leite parecer insuficiente para a
criança, pelo baixo ganho ponderal na ausência de patologias orgânicas,
cabe ao médico conversar com a mãe e tentar determinar o que está a
interferir com a produção do leite.
Nesse caso, é importante orientar a
mãe a complementar a mamada ao invés de substituí-la pelo leite
artificial, mantendo assim o estímulo da sucção, indispensável para a
produção do leite.
Além da sucção dos mamilos, alguns
factores estão relacionados com o aumento dos níveis séricos de prolactina,
tais como o sono e o exercício físico.
TRAUMAS MAMILARES
As mães devem ser orientadas a procurar assistência médica quando surgirem
traumas dos mamilos. A amamentação não deve ser dolorosa. Actuação:
-
Manter os mamilos
sempre secos.
-
Após as mamadas,
passar algumas gotas de leite sobre os mamilos.
-
Secar os mamilos.
-
Expressão manual da
auréola antes das mamadas.
-
Iniciar a amamentação
pelo lado menos lesado.
-
Variar o
posicionamento do bebé nas mamadas, evitando que ele pressione as áreas
traumatizadas.
-
O uso de cremes com
vitamina A e D ocasionalmente pode ajudar.
-
Usar creme com
corticóide após as mamadas em casos de fissuras graves.
-
Analgésicos, se
necessário.
Se o tratamento não surtir efeito e
as fissuras forem suficientemente dolorosas a ponto de pôr em risco a
amamentação, recomenda-se a suspensão da amamentação no seio mais
comprometido por 24 a 48 horas, e efectuar o esvaziamento (manual ou com
bomba de sucção) da mama comprometida, após cada mamada no outro seio.
Após esse período, proceder da mesma forma com a outra mama.
MASTITE
São as fissuras, na maioria das vezes, a porta de entrada para os germes
(especialmente o Staphylococcus aureus) que provocam a mastite. Tal
patologia deve ser precocemente diagnosticada e tratada. A mastite, em
geral, compromete o estado geral da mulher, provocando dor local intensa,
febre e mal-estar. A mama apresenta-se com edema, hiperémia e calor.
O tratamento é conduzido com
antibióticos antiestafilocócicos (como, por exemplo, oxacilina e
dicloxacilina) e esvaziamento suave e completo da mama comprometida,
prevenindo, assim, o ingurgitamento e mantendo o suprimento do leite.
A amamentação não deve ser
interrompida. Nos casos em que não ocorrer melhora após 48 horas de
tratamento, pode estar a haver a formação de um abcesso, que pode ser
palpado e identificado pela sensação de flutuação. Em tais casos está
indicada a drenagem cirúrgica e, frequentemente, a interrupção temporária
da amamentação no seio afectado.
ALIMENTAÇÃO DA
MULHER QUE AMAMENTA
Uma mãe saudável, bem nutrida, tem
mais possibilidades de amamentar com sucesso. Calcula-se que para a
produção do leite uma mulher necessite ingerir um acréscimo de, no mínimo,
500 calorias e 15g de proteínas por dia. Isto pode ser conseguido através
de uma dieta variada que forneça todos os nutrientes essenciais. Estudos
demonstram que mulheres sem alimentação adequada, e mesmo desnutridas, têm
na mesma condições para amamentar os seus filhos.
O PAPEL DO PAI NA
AMAMENTAÇÃO
Nas famílias modernas surge a
necessidade de os pais darem apoio psicológico e assistência às mães.
Em estudos efectuados provou-se ser
o pai uma figura importante para a prática do aleitamento materno. No
entanto, muitos pais não sabem de que maneira podem apoiar as mães,
provavelmente devido à falta de preparação. O profissional de saúde deve
dar atenção ao novo pai e estimulá-lo a participar neste período vital
para a família.
Além dos pais, os profissionais de
saúde devem tentar envolver as pessoas que têm uma participação importante
no dia-a-dia das mães e das crianças, como avós, familiares, etc.
COMO CONCILIAR AMAMENTAÇÃO E TRABALHO FORA DO LAR
O trabalho materno fora do lar é um
obstáculo à amamentação. Apesar disso, as taxas de aleitamento materno
entre as mães que trabalham fora do lar mostram que é possível conciliar
trabalho e amamentação. Conselhos a observar:
1.
Praticar o aleitamento materno exclusivo.
2.
Avaliar no local de trabalho onde poderá retirar e armazenar o
leite.
3.
Familiarizar a criança com antecedência (10 a 14 dias) com a pessoa
que vai cuidar dela e o alimento que vai receber na sua ausência.
4.
Amamentar o maior número de vezes que puder quando estiver em casa.
5.
Amamentar logo antes de sair de casa e assim que chegar.
6.
Não alimentar o bebé próximo do horário de chegada da mãe para que
o seio seja esgotado durante a mamada.
7.
Evitar ao máximo o uso de biberão no período em que a mãe estiver
fora de casa. Se a criança não for muito pequena, alimentá-la com papas ou
sumos, usando uma colher ou um copinho.
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