As noticias violentas sucedem – se repetidamente, a um
ritmo tão alucinante na linha ininterrupta dos nossos dias e noites, que às
vezes, me pergunto a mim mesma, se nós, Pais e Educadores, damos conta de como
cada vez mais se torna imprescindível criarmos o bom hábito de por momentos,
diariamente, fecharmos o televisor, o computador e arrumarmos jornais e revistas
para, pura e simplesmente, “ construirmos” a nossa família, conversarmos em
família e “filtrarmos” o que vemos! Repare bem! Escolhemos a comida dos nossos filhos, porque nem tudo é
de comprar. Escolhemos o seu médico, se podemos. Escolhemos a escola em que os
inscrevemos, se o Estado – Governo (para quando o cheque – educação?) e o estado
das nossas finanças familiares o permitirem. Escolhemos os livros que lhes
oferecemos. Escolhemos, enquanto podemos, os amigos deles, a quem abrimos as
portas das nossas casas. Como não escolher então, os programas televisivos que eles
vêem? E como não “filtrar”, através do dialogo em família, as noticias que nos
irrompem porta adentro? Refiro-me hoje, em concreto, à sucessão de vários tipos de
violência que há muito preenchem os sempre longos telejornais, mas sobretudo os
destas ultimas semanas: foi o atentado na discoteca de Bali, Indonésia, depois
os homicidas loucos nos EUA, perto de Washington, mais o horror no teatro de
Moscovo, agora a força da Natureza, nas imagens do vulcão e do sismo
violentíssimo em Itália...pelo meio, a espiral horrível do constante “ping-pong”
terrorista entre israelitas e palestinianos, e tudo isto e muito mais, dia após
dia, hora a hora, nos chega de muitas maneiras . E às vezes, ponho-me a pensar: Mas será que nós, Pais e Educadores, ainda conseguimos
descobrir boas noticias para trazer e contar em nossas casas? E arranjamos tempo para falar sobre estes temas com os
nossos filhos? E como falamos? Ou eles vão vendo desde pequeninos, vão-se
habituando, vão observando as nossas reacções e emoções, ou a nossa indiferença,
e vão crescendo na tremenda confusão permanente entre real / irreal, verdadeiro
/ falso, cenas de sexo mais ou menos explícito (impróprio para qualquer idade ,
quanto mais para crianças )/ notícias de bombas nas ruas, violência familiar/
violência no desporto / violência na política..... E nós, pura e simplesmente,
calamo - nos? Não temos nada a dizer? Devoramos tudo: zapping– publicidade–
telejornais - debates
políticos-publicidade-novelas-publicidade-concursos-publicidade-zapping...? E
não dizemos nada? Deixamos que a televisão, jornais, Internet, tudo seja mais
importante do que a relação afectiva entre nós e o interesse pelo que afecta os
nossos filhos, os nossos pais, a nossa vida conjugal, em suma, a nossa família?
Ou deixamo-los sós, a seu belo prazer, a navegar na
Internet, fazendo amizades, sabe-se lá com quem, visitando sites – sabe-se lá
quais, completamente entregues ao desconhecido? Já agora, sabia que 1 em cada 5 crianças acede à Internet
a partir de casa e 20% dos cibernautas têm entre 2-17 anos e em Julho ultimo
navegaram na Internet mais de 9 horas por dia, iniciando pelo menos 16 sessões
por dia (segundo um estudo da Nielson/ Netratigs, DN Setembro último) ? Pois bem, são exactamente estes alguns dos assuntos que
ocupam e preocupam a ACMedia- Associação Portuguesa dos Consumidores dos Media-
e a Fiatyr -Federação Ibérica do Audiovisual, Telespectadores e Radiouvintes, e
por isso as respectivas direcções se reuniram este fim-de-semana em Lisboa, sem
que isso tenha sido notícia na nossa Comunicação Social. Não importa. Mas é certamente uma boa notícia, saber que milhares de
pessoas como nós, vulgares, desconhecidas, anónimas, pais e mães de família, na
sua maioria, cuja opinião raramente é ouvida ou procurada, se preocupam em
educar os seus filhos para serem consumidores de Media, responsáveis, isto é,
com consciência crítica relativamente ao que vêem, ouvem e lêem. Recordando palavras de Milton Chen, há alguns atrás, no
seu livro “ The Smart Parents’ Guide to Kids’TV”, baseado nos seus 20 anos de
experiência profissional como produtor de televisão e perito em programas
infantis, são os pais os grandes ausentes da cena, são os pais quem perdeu quase
por completo o controlo da televisão – e agora também, dos vídeos e computadores-
nas suas casas. Na verdade, urge ensinar as crianças “a não verem televisão, mas
a verem programas de televisão”. “O truque é conseguir que se veja televisão de
forma consciente: se a criança ( ou os pais) liga ( ligam) a televisão, que seja
porque assim o decidiu (decidiram) e não, só porque não tem( têm) mais nada para
fazer. Quanto mais consciente for o uso que a família faz do seu televisor,
tantas mais possibilidades tem de lhe dar uma utilização educativa. Se se
conseguir ver um programa de modo deliberado, pode ser que isso signifique ver
televisão de modo inteligente!” Ora pense lá: é assim na sua casa? Voltaremos a este tema, combinado?