Hoje é Dia de Reis, por antecipação. Na verdade, Dia de
Reis é 2ª feira, dia 6 de Janeiro. Já um tanto cansada de engomar, aliso a última toalha,
pouso enfim , o ferro sobre a tábua e viro as costas à pilha de roupa que ainda
me falta passar... Ponho-me a pensar no que ouvi, li e vi ao longo deste
dia... Esta manhã de Domingo foi dedicada à 2ª parte de um
mini-curso de actualização de formadores de Orientação Familiar, levada a cabo
pelo CENOFA (Centro de Orientação Familiar de Lisboa), ali para os lados da
Estrela. O nosso formador, com habilidade e mestria, ainda que
repetidamente nos recorde que não é possível “meter o Rossio na R. da Betesga”,
vai tocando diversos temas do maior interesse para se compreender a situação da
Família a nível mundial e nacional. Fala-se de “Life Innovation”, de Olsen, do seu modelo de
análise da relação conjugal e familiar, dos parâmetros de coesão (grau de
proximidade emocional), flexibilidade ( capacidade de negociação de conflitos) e
comunicação ( o “óleo” do sistema que é a família ), com que trabalha. Fala-se ainda do importante papel dos Orientadores
Familiares, como agentes dinamizadores de uma melhor comunicação em casal, de
como é possível ultrapassar crises e divergências sem ter forçosamente o
divórcio como única saída e de como os filhos precisam, acima de tudo, de pais
que se amem, esforçando-se por manter a coesão familiar mesmo que às vezes possa
ser difícil e custoso. Abordamos também, a crise de identidade do homem enquanto
Pai, o chamado “Síndrome de Pai Ausente “- sobretudo quando ele até existe e
vivendo na mesma casa, não assume o seu papel- e falamos das suas causas e
efeitos... Por fim, falamos ainda de como o Direito, hoje em dia ,
aborda todas estas problemáticas familiares, para chegarmos a uma de entre
várias conclusões : é que todos os “sucedâneos” de família, que hoje existem em
maior ou menor grau no mundo dito civilizado, afinal procuram por força, um
estatuto jurídico igual ao da família, dessa mesma família tradicional que eles
rejeitam...é curioso! Saímos todos com a sensação de que foi um tempo bem
empregue e que há muito a fazer...resta arregaçar as mangas, para ajudar as
famílias- também a nossa!- a serem mais e melhores! Depois, recordo o que li no “novo” Diário de Notícias
sobre clonagem, sobretudo as opiniões do muito respeitado filósofo Michel Renaud,
especialista em Bioética : “(...) a clonagem de um ser humano empobrece a
identidade genética, vai contra um processo natural que é a fusão de dois
patrimónios genéticos para a formação dum ser único (...), (...) não somos
proprietários da natureza em nós, mas gestores(...), nem tudo o que é possível,
é éticamente admissível ! (...) os fins não justificam os meios(...)” No meio das ameaças que ensombram o horizonte, alegra-me
saber que há filósofos, sábios e e cientistas, que têm a sensatez e humildade de
reconhecer que há limites à experimentação. Perante a loucura dos que se julgam senhores do mundo e
como tal, julgam poder tudo experimentar nos laboratórios da ciência, importa de
facto, que o comum dos mortais não se deixe deslumbrar, esquecendo as muitas
barbaridades cometidas em passado recente ( e no presente), em nome do avanço da
Ciência. Oportunamente , o Diário de Notícias recorda-nos algumas : as
experiências dos Nazis, as da Manchúria e da Noruega. Finalmente, já depois de ver o jornal da noite da TVI e de
ouvir os sempre tão inteligentes quanto oportunos comentários do Prof. Rebello
de Souza, recordo a informação estatística de que hoje em dia, segundo as mais
recentes estatísticas, “ se vive mais tempo ( sobretudo as mulheres), mas também
há muito menos nascimentos”. Aliás, estes temas e conclusões agora mencionados
por todos os meios de comunicação, já há algum tempo que vêm sendo repetidamente
apresentados e comentados pela APFN, essa jovem Associação das Famílias
Numerosas em surpreendente processo de crescimento. No entanto, nem sempre os
políticos lhes têm dado a devida importância, embora sendo visíveis os seus
efeitos profundos na família e sociedade, de todos os pontos de vista. Das últimas perguntas que deixou no ar, retenho ainda: “
Que vamos fazer aos mais velhos? Como cuidar deles? Como aproveitar o seu tempo
e as suas capacidades?” Ouço as vozes das minhas filhas, que se aproximam, mas
ainda tenho de tempo de pegar num velho livro de Carvalho Rodrigues ( “Ontem, um
Anjo disse-me”), para dele retirar uns versos do poeta e filósofo, TS Elliot
(1929) : “...Where is the life we lost in living...where is the wisdom we lost
in knowledge...where is the knowledge we lost in information...” (onde está a
vida que perdemos , vivendo, onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento,
onde está o conhecimento que perdemos na informação...)... É Dia de Reis! Os três sábios – reza a História- ao fim de longa viagem,
chegaram, ajoelharam e curvaram-se, rendidos, diante do Menino...e nós? No
frenesim da nossa pressa e dispersão, na loucura da nossa vaidade e presunção,
na ilusão do muito que sabemos e podemos, quando aprenderemos a lição? É tarde. Paro de escrever. Ouço os risos das minhas
filhas...aí estão elas de Bolo-Rei na mão !
Comentários, críticas e sugestões :
fonsecas@netcabo.pt