m² de 3 de Março de 2003

  Banzão, 3 de Março, pela manhã. Caminho estrada fora, cheirando os primeiros perfumes primaveris e de ouvido à escuta de melros e rolas. Sinto a alegria de estar viva e com saúde! Sinto-me agradecida. Lá longe, ruge o mar. Brilha o sol saudoso, secando a lama que eu calco. Aproxima-se um carro cheinho de meninos travessos com os seus balões de água. Sei o que me espera... é Carnaval, ninguém leva a mal...pelo sim, pelo não, escondo-me de repente, atrás dum pinheiro e abro o meu enorme chapéu de chuva, mesmo a tempo de evitar uma molhadela valente...rio-me do seu desapontamento, digo-lhes um adeus pacífico e continuo o meu caminho. Cruzo-me com um rebanho de ovelhas , há muito ausentes daquelas paragens. Saltito por entre as aparentes "azeitoninhas" pretas e por fim lá chego a casa. Ligo a televisão, mesmo a tempo de assistir a alguns dos folguedos de Carnaval por este país fora, onde tanto dinheiro se gastou, frequentemente, com brincadeiras sem originalidade e todo esse exagero de "nus" de gosto bem duvidoso...Farta deste Carnaval dos homens, em que já não consigo descobrir a graça de outros tempos, vou lavar o carro no jardim, enquanto ligo o rádio e , nem de propósito! - ouço precisamente o "Cisne" e o "Aquarium" do "Carnaval dos Animais" de Saint-Saens. Deste Carnaval é que eu gosto...

  Depois, sento-me bem junto à lareira e folheio revistas e jornais atrasados, até que de repente, me vem parar às mãos uma revista das Selecções do Reader's Digest com um relato bem interessante sobre um taxista de Viena de Áustria que, sozinho, montou uma verdadeira "máquina" de solidariedade : a cada cliente, em cada viagem, fala das necessidades das pessoas sem roupas, sem alimentos, sem remédios e sem escolas, em África, na América do Sul, no Oriente e vai juntando tudo o que lhe dão, que depois, ele próprio, vai entregar aos diferentes locais em mão. "Wir helfen" ( nós ajudamos) é o nome da associação que acabou por formar, apenas com a ajuda do irmão e da cunhada. Certamente que o faz por solidariedade, mas também e sobretudo, porque sentiu um apelo espiritual para que o fizesse. É esse afinal, o sentido dos seus dias! O táxi está hoje quase forrado de fotografias e artigos referentes à sua tarefa de bem-fazer, a que ele, no entanto, se refere sempre com a maior das simplicidades.

  No final desta história, fui à procura de um outro artigo que lera há pouco tempo, num Notícias Magazine de domingo ( 23 Fev.º ), sobre a campanha de solidariedade "World Food Programme" das Nações Unidas em colaboração com a Benetton. Amy Flanagan, jornalista, preparou um texto especialmente revelador para alertar as nossas consciências em todo o mundo! Não sei se leram, mas não resisto a transcrever alguns números para nos desassossegar:

  "Mais de 800 milhões de pessoas vivem com fome; a fome mata 25 mil todos os dias.(A propósito, hoje já é 4ª feira de Cinzas !...Leram por acaso, o pedido do Papa sobre o jejum que hoje poderíamos dedicar à causa da PAZ ?). Morre uma pessoa a cada 3,5 segundos, a somar aos 400 milhões que morreram de fome nos últimos 50 anos ( equivalente à população somada dos EUA, Alemanha e França). (...)a cada 5 segundos, morre no mundo uma criança. Neste espaço de tempo cerca de 12 toneladas de comida vão para o lixo. Destes 800 milhões, cerca de 60 milhões estão no limiar da sobrevivência, são os que correm risco imediato de vida se não for implementado um programa de alimentação de urgência. Os outros são pobres. Armadilhados na pobreza, as suas vidas correm condicionadas pela busca do que comer na refeição seguinte. Estes não aparecem nos noticiários da TV(...)"

  No decurso deste programa de combate contra a fome, na Serra Leoa dá-se comida a todo o ex-combatente que entregar as suas armas. No Afeganistão para que os pais mandem os seus filhos à escola dá-se-lhes de comer na própria escola. As crianças da Libéria vivem apenas da comida que lhes chega via auxílio internacional em campos de refugiados...e poderia continuar a escrever, a citar e a copiar mais dados da revista e do site www.wfp.org , para convencer todos os que podem, a ajudar organizações com credibilidade ( entenda-se, desde que o nosso dinheiro não seja para pagar abortos e esterilizações em massa, porque isso não é a ajuda de que precisam!)...mas cada um é que sabe a quem pode e deve ajudar e quais as prioridades...Pergunto apenas: se parte de todo este inferno resulta sobretudo da guerra, como é que podemos continuar a cometer sempre os mesmos erros históricos ? Fazer mais guerra, dominar pela força, explorar as fraquezas dos outros, conquistar mais territórios, roubar as fontes de riqueza aos outros, deitar para o lixo o que produzimos a mais só para não partilhar e não estragar o negócio, asfixiar as fracas tentativas de sobrevivência comercial dos povos em vias de desenvolvimento...? Que sentido é que isto faz? Que lógica é esta?

  Somos pó e voltaremos às cinzas. Qual é a novidade? - perguntarão alguns. Sabemos, claro que sim!, mas depressa o procuramos esquecer nesta nossa lufa-lufa e neste nosso egoísmo tão característico... Que ao menos nesta Quaresma, depois de lermos estes números ( e quem sabe se não seria útil colá-los no nosso frigorífico ???), cada prato que comermos nos recorde quem não tem e quem mais precisa. Talvez algum jejum de comida, de bebida, de televisão, de tabaco, de divertimento e alheamento, nos possa fazer bem a nós e aos outros. Talvez ao nosso lado e seguramente não tão longe, haja gestos de paz e solidariedade já preparados ( ou não) sob a forma de associações, apenas à espera dos nossos braços e pernas. É certamente o nosso "metro quadrado" de acção... E que tal, se fizéssemos alguma coisa de diferente?

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