Voltei de Moura,
encantada! Tal como há um ano atrás, as ruas continuam limpas e calmas,
as casas brancas sem mácula, as gentes acolhedoras, um tempo sem pressa,
um barulho sem ruído...na escola secundária reencontrei a mesma
infatigável directora, empenhada e encantadora, e uns alunos
interessados na matéria que o Cenofa leva de escola em escola -“
Educação dos afectos”!
Pode parecer uma luta
um tanto ingénua e quixotesca, mas acreditamos profundamente na
necessidade de preparar os jovens para o Amor, ensinar-lhes a
compreender o desassossego que os consome e distrai, ajudá-los a
conhecerem-se por dentro durante a instabilidade própria da
Adolescência, a não terem pressa de queimar etapas, a fazerem boas
amizades, a treinarem a Inteligência emocional, a não serem dependentes
de televisões e novas tecnologias...enfim, a optarem por comportamentos
saudáveis e a saberem dizer “não” aos aliciantes e perigosos convites
que os espreitam por trás de imagens sedutoras...somos aliados em quem
podem confiar e os alunos percebem-no de imediato! Não oferecemos, nem
vendemos preservativos, não trabalhamos para multinacionais, nem levamos
interesses escondidos...!
No caminho de regresso
porém, tudo me distraía desta realidade. Os belíssimos campos floridos
de amarelo, branco e roxo, os arbustos e a esteva, os diferentes verdes
da erva, das oliveiras e sobreiros, o céu escuro e ameaçador
entrecortado de feixes de luz...tudo me recordava o filme...e de
repente, ao cair da tarde, no cimo dum monte pareceu-me ver mesmo um
Horto das Oliveiras. À beira da estrada, num café onde parei, cruzei-me
com uma jovem mãe que corria para apanhar o seu menino, estendido no
chão a chorar depois de uma aparatosa queda de um baloiço... e era o
mesmo jeito de consolar e dar colo da outra Mãe...
Já aqui perto de casa,
os vidros espelhados de um prédio novo multiplicavam caixilhos negros em
cruz e pela primeira vez, retirados os andaimes, três deles pareceram-me
mesmo as três outras cruzes... e no passeio, até aquele vagabundo de
todos os dias, totalmente alcoolizado, alheado do mundo, todo sujo e
desgrenhado, (de cujo olhar sempre fujo) me olhou de um modo
diferente...parecia-me quase...não, não me atrevo a dizê-lo...
Sim, falo-vos do filme
de Mel Gibson, que fui ver há poucos dias com duas das minhas filhas.
Entrou-me pela vida adentro, devo reconhecer, e tornou – me a Via Sacra
muito mais presente nestes últimos dias. De um modo quase incómodo, mas
doce ao mesmo tempo, a Via Sacra está insistentemente aqui. É uma
sensação estranha, mas parece distrair-me frequentemente das actividades
que vou tendo em cada momento. Como se me distraísse do mundo. E assim,
ao ligar os noticiários e ao ouvir discussões acaloradas por causa dos
deputados, das leis e dos abusos, por causa da Bombardier e dos sem-pão,
por causa dos táxis, das ambulâncias, da segurança e das greves durante
o Euro 2004 que se aproxima...de repente, o que me parece é o barulho da
multidão a acusar Jesus...e Ele, silencioso, no meio deles, no meio de
nós...
Ouço e leio as
notícias, vejo as imagens, o sangue, a violência, as lágrimas, o
terrorismo, os bombardeamentos, os mortos, os feridos, os doentes em
cada lugar do planeta, e por mais distante, ou mais próximo que isso
aconteça, evoca-me sempre a Dor do Cristo por mim, por si também - seja
ou não, crente!, por nós...e o longe da Via Sacra de novo se faz
próximo...e os olhares traduzem os mesmos sentimentos: o medo, a dor, o
desgosto, a vergonha, o ódio, a vingança... mas sempre o perdão e o Amor
de Cristo! “Pai, perdoa-lhes, que eles não sabem o que fazem...”!
“Lembra-te de mim...”
pedia o ladrão arrependido, pendurado na cruz, ao lado de Jesus.
Apetece-me pedir o
mesmo... Uma sugestão apenas: não perca o filme!
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