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Conheço,
há vários anos, um homem bom, honesto, discreto, inteligente e corajoso,
casado, pai de família e professor universitário, que resolveu pegar em
livros de “Educação Sexual”, analisar manuais e linhas orientadoras,
gastar o seu tempo ( livre) para fazer um trabalho profundo, honesto e
isento, e assim poder falar. E vai daí, começou ele a dizer e a provar,
desassombradamente, que “ o rei vai nu” a propósito da Instrução Sexual,
dita “Educação”, que anda por aí a ser feita em muita escola sob a
determinação do Ministério da Educação, ao sabor do gosto e apetência
pelo tema por parte de alguns professores, previamente “preparados”(?)
ao que parece, por uma associação famosa e poderosa. E tudo isto,
independentemente de os pais concordarem ou não, conhecerem ou não, o
que está a ser dito e feito com os seus filhos, e aceitarem ou não,
serem substituídos em matéria tão nitidamente da sua esfera de
responsabilidades…
Por isso lhe estou
francamente agradecida, como mãe e avó, e como cidadã do meu país! E ao
mesmo tempo, me sinto envergonhada!
Em primeiro lugar,
estou-lhe agradecida pelo excelente trabalho que tem feito e que
permitiu a louvável e corajosa reportagem de duas jornalistas do
Expresso (a quem também quero aqui dar os Parabéns!), e por se atrever a
dar a cara em defesa das crianças e jovens do nosso país, e de todos os
pais até agora calados, porventura mais distraídos e ausentes.
Em segundo lugar,
sinto-me envergonhada, sobretudo por ter tido a ingenuidade (?) e tolice
de pensar que as aulas desta pseudo “Educação” Sexual- ( mesmo
defendendo eu própria que devem ser os pais a faze-la e não outros) -
não seriam assim tão más quanto alguns já me diziam e alguns relatos
pressagiavam!!!...
E tenho de chegar à
triste e lamentável conclusão, de que afinal elas são mesmo muito
piores do que eu alguma vez julguei, quando há alguns anos atrás,
analisei entre outros materiais, os posters de excelente qualidade já
preparados para serem usados nas escolas de primeiro ciclo e fiz alguns
comentários críticos, mas benevolentes apesar de tudo, em nome da APFN-
Famílias Numerosas, numa entrevista com responsáveis pelos materiais e
pela luta contra a Sida ! E recordo ainda alguns desses meus comentários
e reservas: …mas e os pais podem escolher se os seus filhos vão ter
obrigatoriamente “Educação” Sexual na escola, ou se querem continuar a
ser eles a educar nesta matéria tão sensível, em suas casas, num
ambiente natural e afectivo, no tempo que entendem mais propício e de
acordo com a maturidade de cada filho/ filha? E vão ter conhecimento
prévio dos conteúdos destas aulas? E que critérios há na selecção dos
professores “ preparados” para dar estas matérias? E os pais conhecem os
professores que as vão dar?...
Por isso, porque
considero que tudo o que agora sabemos, graças a este meritório trabalho
do Prof. Dr João Araújo e graças à sua divulgação pelo Expresso, é
altamente preocupante e ultrapassa todos os limites do razoável e
aceitável, assinei a petição em boa hora lançada por um grupo de pais
contra este actual modelo de Des-“Educação” Sexual e peço a todos que a
assinem e divulguem !
E aproveito para lançar
daqui uma sugestão:
por que não, a própria
UCP, Universidade Católica, através do seu Instituto das Ciências da
Família, lançar um curso de formação de formadores na área da Educação
dos Afectos, integrando, como deve ser , a Educação Sexual, no seu
contexto afectivo, psicológico, social e ético, e numa base de Valores
claramente manifesta, que permita aos pais saber de antemão que a
Educação dada aos seus filhos é fiável, e poder, ou não, optar por ela?
Como há muito não
escrevia esta pequena crónica do “meu m2”, hoje peço-vos licença para me
alongar um pouco…Desculpem se vos demoro!
Fui recentemente a uma
prisão e vim de lá muito impressionada. Talvez também por causa do
Cenofa que, como vos disse, em breve terá oportunidade de trabalhar com
ex-reclusos e suas famílias, o que me tem despertado muito mais para a
sua problemática e condições de vida. A verdade é que até agora nunca
tinha entrado numa prisão e as imagens que guardava eram apenas as dos
filmes.
O Forte da Graça, na
colina de Nossa Senhora da Graça, à saída de Elvas, porém, também não é
uma prisão qualquer, mas sim, um presídio militar, desactivado desde
1989.
Construído ao longo de
30 anos , a partir de 1763,sob a direcção do Conde Schaumbourg Lippe,
marechal-general do exército português, por ordem de D. José I, depois
das guerras da Restauração da nossa Independência, este forte, cujo
passado histórico remonta ao tempo de D. Sancho II e sua conquista de
Elvas aos muçulmanos ( 1226) , foi diabolicamente “armadilhado” , para
melhor combater o “invasor” vizinho e defender o território nacional.
Depois, foi progressivamente perdendo funções, até que definitivamente,
se esvaziou de gente e de recheio, entre 1985 e 1989. Aguardando por
verbas disponíveis e melhores dias, eventualmente como museu, este
grandioso monumento de arquitectura Militar está entretanto abandonado
ao sol, vento e intempéries, com evidentes sinais de degradação.
O que mais me
impressionou porém, foi pensar que em pleno século XX, a cerca de
vinte anos do início do 3º milénio, era ainda ali que cumpriam pena de
prisão muitos militares, apenas com direito a uma hora de luz, calor e
recreio, por dia, os mais insurrectos na “solitária”, sem luz alguma e
num espaço gélido, ou pior ainda, na “ultra-solitária”, num cubículo
exíguo e indescritível… Por associação de ideias, vieram-me à memória
as famosas prisões de Guantánamo, em Cuba, e Abu Ghraib, no Iraque , bem
como muitas outras tristes histórias, mais e menos recentes, sobre
“técnicas avançadas de interrogatório” usadas em tantas outras
paragens, nem sempre tão distantes geograficamente, num tempo que é o
nosso, e num mundo que gostamos de julgar mais “civilizado” depois de
várias décadas sobre a proclamação da Declaração Universal dos Direitos
do Homem…
Curiosamente, e em
flagrante contraste, a provar certamente que não há regra sem excepção,
um dos Oficiais Generais que nos acompanhava na visita ,contou-nos a
recente saída de um homem de uma outra prisão militar, com condições e
instalações muito mais humanizadas, e que ao fim de oito anos de
cumprimento de pena, não queria sair da prisão e até chorou, por não ter
para onde ir, não ter família e se sentir ali mais amparado e estimado
por todos os colegas e pelos oficiais que nele confiavam.
Era já tarde, depois de
mais uma última e magnífica visita organizada pelos nossos amáveis
anfitriões a Monsaraz, integrada naquele encontro anual de Oficiais de
um Curso Superior de Comando e Direcção e suas famílias, regressávamos
a Lisboa.
Cansados e pensativos,
meu marido e eu vínhamos em silêncio. Por momentos fechei os olhos,
recapitulei o dia e pensei nas muitas outras formas de prisão que
construímos nas nossas vidas, quantas vezes sem darmos conta, e que nos
escravizam sob uma ilusão perfeita de liberdade, felicidade e busca de
sentido de vida!
Lá fora entardecia,
entre sombras, nuvens, sobreiros dispersos, terra vermelha escura e um
céu belíssimo, alaranjado. Fechei de novo os olhos já consolados e vi
aquilo que tantas vezes nos prende a nós que nos julgamos livres de
cadeias : os jogos de poder, sedução e ambição, honrarias, mordomias,
feiras de vaidades, vícios de jogo, sexo e droga, compras sem fim por
consumo-dependência, uma obsessão irracional pela moda, a aparência, o
corpo e o conforto…e de repente dei comigo a recordar as palavras já
distantes de Aldous Huxley ( “Sobre a Democracia e outros estudos”) :
“(…) Uma pessoa nunca pode receber alguma coisa a troco de nada, e a
obtenção do conforto foi acompanhada por uma perda compensadora de
outras coisas, igualmente ou talvez, ainda mais valiosas.(… ). O
conforto para mim tem uma justificação(…): facilita a vida mental. O
desconforto estorva o pensamento.O conforto é um meio para conseguir um
fim. O desconforto estorva o pensamento; é difícil, quando o corpo está
frio e a doer, utilizar a mente. O mundo moderno parece considerá-lo
como um fim em si próprio, um bem absoluto. Um dia, talvez, o mundo terá
sido convertido numa vasta cama de penas, com o corpo do Homem
dormitando em cima dela e a sua mente por baixo, sufocada, como
Desdémona.” |