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31 Janeiro 2004- O meu m2
À porta da Universidade
Católica, no final de mais uma manhã de sábado, depois das aulas, ficamos
em pequeno grupo a trocar impressões. A conversa , como não podia deixar
de ser, acabou com o tema que mais perturbou o recente quotidiano
nacional. Uma colega, dizia-me, à despedida :-“ Tens de falar sobre isto
no teu metro quadrado...”
Já adivinharam- claro!-
mas mais do que comentar a impossibilidade de ficarmos indiferentes à
morte inesperada de um jovem jogador na pujança da vida, em pleno campo de
futebol, e à torrente de emoções que se apossaram de todos quantos
assistiam ao jogo, queria antes referir-me ao choque que representa o lado
visível desta morte em concreto e a reacção emocional natural,
multiplicada pela pressão dos meios de comunicação, permanentemente
repetindo as mesmas cenas e despoletando uma imensa onda de comiseração.
De repente, a morte- que procuramos tanta vez esquecer e afastar, tão
arredada está dos nossos conceitos de qualidade de vida! – entrou-nos
casa adentro, sem ficção, demolindo todas as nossas defesas artificiais e
elaborações mentais e deixando-nos repentinamente indefesos perante a
única certeza futura que podemos ter. É perfeitamente natural esta espécie
de pena e de insegurança nacional , que revela à saciedade a convicção
geral e inata de que a vida é um bem, um valor, ainda que precário e
independente da nossa vontade, e a noção de solidariedade, isto é ,de que
o que afecta os outros também nos toca a nós.
Pergunto-me então, se
muitos dos que choraram ante a visibilidade desta morte e o sofrimento dos
colegas, amigos e familiares de Miklos Féher, não terão também ajudado a
completar o total de assinaturas entregues em favor do aborto, isto é o
pedido de aprovação legal da morte de seres humanos ainda em formação é
certo, mas por isso mesmo seres humanos totalmente inocentes e indefesos
? Os mesmos que assim se comovem perante uma morte são os mesmos que
friamente decidem da morte de inúmeros seres em formação?
Como entender na verdade,
que por um lado tanto nos regozijemos quando as estatísticas revelam
decréscimo da mortalidade e morbilidade infantis por melhor
acompanhamento das futuras mães, como um indesmentível indicador do
progresso da civilização, e por outro, queiramos chegar cada vez mais
depressa ao modelo dos países ditos civilizados, em que o aborto
inicialmente também ele circunscrito às primeiras semanas e só em casos
extremos, já se faz hoje a simples pedido de uma mãe grávida, sem qualquer
fundamento e em qualquer momento da gravidez ?
Posso compreender a
angústia e o desespero de uma mulher grávida, que por muitas e variadas
razões pessoais, não suporta a ideia de estar à espera de um bebé em
determinada ocasião. Compreendo-a tanto melhor, quanto mo permite o facto
de ser mãe. Sei também, porém, que é possível passar da angústia à
aceitação- quando se encontram vozes amigas de apoio e compreensão- e da
aceitação ao amor. Olho à minha volta e vejo que tem sido esse o louvável
trabalho de uma série de instituições como a Ajuda de Berço, Ponto de
Apoio à Vida, Juntos pela Vida , Vida Norte e de tantas outras, bem como
de tantos outros voluntários individuais, anónimos e desconhecidos.
Por outro lado, vejo
claramente, que o desespero, a falta de apoio e o isolamento de uma
grávida podem conduzi-la à cegueira total, aliás à pior das cegueiras que
é acreditar que só lhe resta matar, mas como matar é uma palavra demasiado
violenta, verdadeira e forte, e há o medo de ir contra a lei, então
precisa urgentemente de encontrar alguém que lhe faça uma “interrupção
voluntária da gravidez”, discretamente, para se ver livre depressa,
depressa, dessa “coisa”...como se se tratasse de um tumor, ou de uma
doença.
Porém, o pior que se pode
fazer a um cego prestes a despenhar-se num abismo é empurrá-lo para que
caia mais depressa, e no entanto, é esse exactamente o papel que
desempenham todos quantos , muito embora concordando que o aborto é uma
coisa horrível e que não pode ser considerado meio de contracepção, apesar
disso pretendem despenalizar um crime, e aprová-lo mesmo, alegando que se
trata de uma questão de consciência individual e que as leis reflectem os
costumes, pelo que se o aborto entrou nos costumes então deve ser
legalizado...
Mas será que alguém ousa
propor que se proceda assim com todos os outros erros da sociedade –
corrupções, pedofilias, violações, roubos, homicídios...- que tantas vezes
ficam por julgar, por provar e castigar, ou que em tantas outras ocasiões
acabam por merecer penas menores por haver atenuantes ?
Na verdade o bem comum
requer, qualquer que seja o campo da prevaricação, doa a quem doer, que a
acção lesiva do bem e da liberdade do outro - o erro - continue a ser
apontado como tal, o que não impede naturalmente, respeito e compreensão
com a pessoa em causa no acto de julgamento, e além disso exige, que sejam
tomadas sérias medidas preventivas .
A grande filósofa do séc.
XX, Simone Weil ( não confundir com Simone Veil dos nossos dias!) escreveu
, em certa ocasião, a Bernanos ( e cito Michel Schooyans, “ A escolha da
vida”, pg 285, ed. Grifo): “(...)Quando as autoridades temporais e
espirituais colocam toda uma categoria de seres humanos à parte daqueles
cuja vida se preza, matar torna-se a coisa mais natural para o homem.
Quando se sabe que é possível matar sem incorrer em castigo ou sofrer
reprovação, mata-se; ou pelo menos, rodeia-se os que matam de sorrisos
encorajadores. Se por acaso, no começo se experimenta alguma repulsa,
guarda-se silêncio e bem depressa se abafa com receio de ser acusado de
faltar à virilidade.”
...Só queria dizer-vos em
jeito de conclusão, que tal como Peres Metelo dizia há poucos dias num
telejornal, a propósito dos maus resultados agora conhecidos, dos alunos
portugueses em provas de aferição de português e matemática, que todo este
quadro era resultado de muitos anos de menor exigência e “que isto se
reflectiria no PIB dentro de 20 anos”, também eu acredito – num plano
ainda mais grave- que leis iníquas, que falsamente pretendam vir a
“facilitar a vida” hoje, terão necessariamente efeitos bem mais perversos
já no presente, mas sobretudo no futuro, no tecido social, na vida e no
coração de cada um. Não é possível querer melhorar a vida de uns,
condenando à morte incontáveis seres inocentes!
É por isso que vos convido
a subscrever o oportuníssimo manifesto “ Mais vida, mais família” e a
ajudar à sua divulgação! Todos teremos certamente nas nossas vidas muita
coisa de que nos arrependemos seriamente, talvez até relacionada com este
tema tão próximo de todos nós, mães e pais de família !...Por favor,
aproveitemos esta oportunidade para “dar a cara”, e desta vez, não
deixemos que por preguiça, dúvidas, ou respeito humano, o assunto nos
passe ao lado !
Comentários, críticas e sugestões :
fonsecas@netcabo.pt
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