Entre Natal e fim de
ano acabamos de fazer uma viagem relâmpago à Beira Alta, à velha casa
onde meu Pai nasceu e que sonhamos um dia recuperar, depois de um
abandono de várias dezenas de anos .
Enquanto meu Marido e
meu filho Zé passeavam pelos campos, sentei-me na sala gelada, junto à
estante dos livros, onde me perco de cada vez que lá vou. Toda encolhida
de frio - estavam dois graus e meio lá fora ! – para ali fiquei
entretida com a leitura de uns pequenos livros de Azorin ( nome pelo
qual ficou conhecido o célebre escritor, jornalista e político espanhol
da geração de Unamuno, José Martinez Ruiz, 1873-1967).
Chamou-me a atenção em
particular, um pequeno livro intitulado “ O político” , com conselhos
aos políticos para que tivessem uma boa imagem. Lembrada dos recentes
debates televisivos entre os nossos vários candidatos à Presidência da
República, não pude deixar de fixar alguns dos curiosos conselhos que
tanto se adequam à situação actual, pensando que alguém poderia oferecer
um destes livrinhos em especial a alguns dos candidatos…
Por graça, deixem-me
que vos cite a eito e de memória, apenas alguns de muitos dos seus
conselhos:
o bom político
deve falar a todos - ricos e pobres - com o mesmo respeito, engenho e
discrição, não deve ser exibicionista ou gabarola, deve manter-se
impassível ante os ataques que lhe sejam dirigidos, não deixando sequer
que as mãos traiam o seu possível nervosismo ( se para tal for
necessário, deve cruzar as mãos atrás das costas ou usar os bolsos ),
deve aceitar os elogios e distinções com simplicidade, nunca deve perder
o sentido do equilíbrio, deve preferir viver recolhido “ porque o que
muito se vê, pouco se estima” e deve actuar em cada momento segundo o
que estima ser mais oportuno, benéfico e justo…
Ora digam lá se não
seria um bom presente para oferecer no Dia de Reis aos nossos políticos?
Mas por falar em Natal
e fim de ano, o que eu queria mesmo era contar-vos um pequeno episódio,
que mais parece uma história inventada, não fosse ter de facto
acontecido…
Há cerca de duas
semanas recebi um estranho telefonema de uma senhora de idade, que me
telefonou por três vezes, perguntando por mim, dizendo o meu nome
completo e afirmando ter recebido um cartão de Natal meu há anos e que
portanto devíamos ser amigas. Ao fim de 20 minutos de telefonema, para
conseguir pôr termo à conversa, uma vez que não conhecia de todo a
senhora, lá lhe pedi a morada e prometi que lhe escreveria um novo
cartão. Desliguei, aliviada, e distraída, guardei no bolso do casaco o
nome e morada da senhora. Rindo do mistério do cartão de Boas Festas,
contei aos meus o episódio…porém, à medida que os dias passavam e nos
aproximávamos do Natal e sobretudo cada vez que via o meu vizinho da
frente, sozinho na rua a passear a Solidão, perdão, o seu cão, de manhã,
à tarde e à noite, vinham-me à memória as palavras da senhora: “…sabe?
É que eu quase não tenho família, já não saio de casa e pensei que se me
escreveu um dia é porque somos amigas e assim podia vir visitar-me e eu
ao menos já tinha uma amiga…”
No regresso da Beira,
de repente dei comigo a sentir morder-me a consciência e a pensar que
tinha de ir visitar a senhora. Na verdade, talvez fosse esse o único
presente a sério que o Menino Jesus me pedia nesse dia…sacudir o meu
comodismo, pôr de lado a minha recente paixão - os fantásticos jogos do
Sudoku - e pôr-me a caminho…
Fui. Ao fim de hora e
meia perdida entre Odivelas e Caneças, dei com a casa, uma sub-cave
húmida e escura numa zona degradada. Primeiro bati à porta de uns
vizinhos que me olharam espantadíssimos, e por fim dei com a minha nova
Amiga! Levava-lhe uma linda “écharpe” do bazar dos chineses, que ela
recebeu e logo pôs com uma alegria tal que mais parecia estar a
oferecer-lhe um presente de ouro, incenso e mirra, e depois, ali ficámos
no meio de papéis sem fim, cheios de nomes e telefones, escritos à mão
numa letra irregular e simples, montes de carteirinhas de plástico com
cadernetas da Caixa Geral de Depósitos, postais e retratos, onde
afadigadamente a minha nova Amiga de 80 anos procurava o meu postal para
mo mostrar… mas em vão! Lá vi porém, no meio de muitos outros, o meu
nome completo, a minha morada e o meu telefone…
Confesso que fiquei
decepcionada em parte, pois também ia na esperança de desvendar este
mistério…
A minha nova Amiga só
me dizia: - Que grande surpresa! Sabe ? Passo aqui os meus
dias nesta sala, recebo a comida da Santa Casa da Misericórdia e depois
farto-me de telefonar a estas pessoas todas, mas não me atendem ! Os
meus amigos já morreram todos…
Agora telefona-me todos
os dias. Enquanto vos escrevo esta pequena crónica, já recebi o seu
telefonema. Estava com a minha valiosa “écharpe” chinesa ( de 5 euros!!!)
sobre as costas e toda sorridente - percebia-se pela voz - vinha-me
desejar boas entradas. Ia ficar a ver a Missa pela televisão esta noite
e amanhã ficará sozinha todo o dia no prédio. Os vizinhos estão fora.
Meus Amigos, leitores
de “ o meu m2”, tenham um Bom Ano Novo em família! Que o Menino vos
aqueça o coração e encha a vossa casa de Paz e Amizade!
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