Chegara finalmente o Grande Dia !
Joana quebrou o porquinho de barro,
contou ansiosa, moedas e notas, juntou tudo no envelope que a mãe lhe
tinha posto no sapatinho, junto ao presépio, no dia de Natal, e às nove
da manhã já estava a bater à porta do quarto dos pais, toda vestida e
arranjada, para irem às compras, conforme o prometido.
Era véspera de Ano Novo. Sabia que
a vida estava difícil em casa: o pai ia deixar de receber subsídio de
desemprego e, embora com promessas de trabalho, continuava à espera de
alguma proposta concreta. A mãe, há dois anos a fazer quimioterapia,
deixara há muito o trabalho de tradutora à tarefa e dedicava-se agora a
cozinhar para fora, quando alguém lhe fazia encomendas. Sabia também que
o seu presente de Natal tinha sido o dinheiro que a mãe recebera por 4
dúzias de sonhos e dois “pyrexes” de crêpes de camarão. Todo para
ela, para comprar os tais sapatos especiais com luzes e rodinhas atrás
...os sapatos que as colegas de escola já usavam e que ela tanto
desejava... ( só não sabia é que o pai tinha achado uma
irresponsabilidade da mãe oferecer aquele dinheiro todo à Joana, de 9
anos, só para comprar uns sapatos daqueles...).
Muito pálida, a mãe sorriu, compôs
a cabeleira postiça ao espelho, enfiou o velho casaco castanho, arrumou
o envelope da Joana na carteira e dando-lhe a mão, desceram as escadas
do prédio velho na Amadora.
Entraram no metro e dirigiram-se à
Baixa, onde a mãe tinha visto os sapatos de sonho...
Sentaram-se, uma ao lado da outra,
sempre de mão dada, sorrindo mutuamente num silêncio cúmplice. Muita
gente entrava e saía a cada paragem. Um bando de jovens estrangeiros de
Taizé acotovelavam-se, de pé, no corredor e toda a gente os olhava, sem
perceber a língua em que falavam e porque se riam tanto, com um ar tão
feliz e tão sereno. Joana também se ria.
Em dada altura, vagou um lugar e um
senhor de idade sentou-se-lhes em frente e abriu o jornal de par em par.
Na primeira página viam-se fotografias de horror, alusivas à catástrofe
recente no outro lado do mundo. Uma lista de números em cor de sangue
revelava novas estimativas de mortos, desaparecidos, feridos e
desalojados. Por baixo, em letras enormes, a negro, dizia:
“Dê o que puder, mas dê !”
Assinavam o pedido, AMI, Caritas,
Cruz Vermelha, RTP e RR seguidas dos respectivos números de contas
bancárias.
De mão dada com a mãe, Joana saiu
na Baixa-Chiado. Das pastelarias saía um delicioso cheiro a bolos.
Caminharam rapidamente para a sapataria. Lá estavam eles, os sapatos com
luzes, rodinhas e duas cores. Na montra, apelativos. Joana saltitava,
nervosa.
“São o máximo, não são, mãe?” A mãe
sorriu e acenou com a cabeça. “ E o dinheiro chega, não chega, mãe?” A
mãe voltou a acenar e empurrou-a, docemente. Entraram na loja, pediram
para experimentar e Joana escolheu a cor preferida: cor-de-rosa, como as
Barbies que ela não tinha, mas as amigas levavam para a escola.
Porém, no exacto momento em que a
mãe mandava embrulhar, e retirando o envelope da carteira, se dispunha a
pagar, Joana olhou, muito corada, para a empregada e disse, baixinho :-
“Desculpe, mas afinal não compramos! Sabe? Eu nem preciso, estes meus
ainda servem...”
A mãe olhou-a, atónita, e sentiu-se
levada pela mão, apressadamente, para a rua.
“Mãe, a sério, eu não preciso e
antes quero dar este dinheiro. Não se zanga, pois não? Vamos pôr na
conta que ali vinha no jornal”.
...
...Deixo-vos um conto de fim de ano! Façam de conta que é o meu pequeno
presente para todos quantos paciente e fielmente me acompanharam ao
longo de mais um ano de m2...Obrigada ! E um Bom Ano para todos vós e
para as vossas famílias! Até 2005!
Comentários, críticas e
sugestões : fonsecas@netcabo.pt