A noite chegou depressa. Junto ao carro parado na estrada
do Rodízio, espero por um dos meus filhos, que para trás ficou à conversa com
amigos. Parece-me que o tempo parou e não tenho pressa. Que bem me
sabe parar! Aliás, faz bem , para descobrir o sentido das coisas e das palavras
e procurar o mais importante, que nos foge por entre os dedos, a cada passo. Vem-me à memória o " Principezinho" de Saint Exupéry e no
meu íntimo, julgo ouvir as palavras da raposa : " Vou - te contar o tal segredo.
É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os
olhos (…) Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante
(…)". À minha frente, não muito longe, adivinho o mar, pelo
cheiro e pelo bramido das ondas. No céu, aqui e ali, um leve ponteado de
estrelas por entre as nuvens escuras, numa breve acalmia do vento e da chuva,
que nos tem fustigado. No ar frio da noite invernosa, paira uma agradável
mistura de cheiros vários, a mar, a terra húmida e a lenha queimada nas casas
das redondezas. Respiro fundo, procurando guardar em mim os ecos do que
acabo de ouvir, neste último domingo de Dezembro, conhecido como o domingo da
Família de Nazaré ou da Sagrada Família. Penso nas famílias que conheço, nas
desconhecidas e também na minha. De repente, sem bem saber porquê, vem-me à cabeça a música
que todos cantam e a televisão tanto anuncia neste fim de ano - Asereje ja de he
de jebe…de bugui na de buididipi… Alguns têm procurado estranhos significados
nesta letra, mas diz-se que o seu autor, Manuel Ruiz, sabendo como os espanhóis
são pouco dados ao inglês, inventou uma espécie de transcrição fonética duma das
suas canções favoritas, o 1º rap (Rapper`s delight, 1979), e daí resultou este
grande êxito de "Las Ketchup". Entre os mais novos, todos sabem a letra e os gestos, que
copiam e imitam, frenética e alegremente, apesar de as palavras não terem
qualquer sentido. Penso nos jovens, sempre prontos a copiar a novidade, a
imitar e a serem arrastados por modas e tendências. Ao mesmo tempo, recordo uma outra música portuguesa, muito
"pimba", que acabamos de ouvir no carro e nos fez rir, mas cuja letra, essa sim,
faz sentido e dá que pensar: " A gente já não fala, só grita só grita, é sempre
a mesma coisa, só fita, só fita (…) por pormenores sem importância criamos cada
vez mais distância (…) cenas de um casamento a sucumbir (…). Penso nas famílias…
E na insignificância de mais este m2 - o último de 2002!-
é mesmo de "família" que vos quero falar, ainda que em linguagem quase
telegráfica. De facto não saberia, nem gostaria, de falar hoje dos
perigos, misérias e ameaças que aí pairam, dentro e fora das nossas portas. Por
isso, deixo a quem mais sabe os comentários inevitáveis sobre clonagem, "mães de
aluguer", guerras iminentes, Venezuela, Iraque, fome, doença, droga, pobreza,
mutilação genital das mulheres africanas…e tantos outros problemas mais próximos
de nós. Aproveitando porém, o hábito jornalístico de inventar
abecedários de acontecimentos e personalidades do ano que termina, prefiro
propor à vossa consideração um abecedário de segredos não contados e de
histórias de amor por escrever, comuns às famílias que, contra ventos e marés,
teimam em procurar a felicidade sendo família. Em vez de um balanço do passado,
será antes como que uma proposta - para jovens e famílias - de um itinerário a
percorrer infatigavelmente ao longo do novo ano, em busca do sentido das
palavras! A - atenção, admiração, alegria, Avós B - beijos, bondade, belo C - coração, calma, comunicação, conquista,
compreensão, confiança D - dois, defesa, dedicação, dádiva, dor E - entendimento, escuta, esforço, energia,
envelhecimento F - filhos, fé, férias G - gestos, gozo, gosto H - histórias, humor, hoje I - ideais, intimidade, irmãos J - jogos, juventude, Jesus, José L - lar, laços, luta, leitura, lealdade M - mãe, Maria, música, maturidade N - nós, namoro, natureza O - o Outro, o outro, os outros P - pai, projectos, pessoa, paciência, prazer,
perdão, paz Q - qualidade R - respeito, resiliência, recomeço, renúncia S - sentimentos, sexualidade, simplicidade, serviço
T - tempo, ternura, trabalho U - união V - vontade, viagem, vida X - xi-coração Z - zelo São muitas as palavras que ficam por escrever…não querem
ajudar a completar? Um bom Ano para todos!
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