Era sábado e seguíamos no carro, debaixo duma chuva
diluviana, como se o céu chorasse de pena, lágrimas sem fim, por causa dos erros
dos homens. Ou como se a Primavera se arrependesse de nos alegrar com o seu
calor, as suas cores, música e perfumes, quando em outras partes reina o inferno
da guerra.
Levávamos o rádio ligado, para ouvir notícias. De repente,
a locutora da Rádio Renascença, anunciou ter em estúdio, três deficientes, a
quem iria entrevistar, recordando que estamos no Ano Internacional do
Deficiente.
Rosa A., deficiente motora por causa dum acidente de
viação, Ana P. portadora de síndroma de Williams, e Susana, deficiente visual
total desde os 22 anos, mas licenciada em Sociologia e já com uma pós-graduação.
Todas três vieram contar a origem da sua deficiência, os apoios que receberam,
as dificuldades que superaram e o modo como se processou a sua integração na
sociedade. Todas três estão empregadas. São histórias verdadeiras, contadas com
uma naturalidade e uma simplicidade tais, que comovem pelo heroísmo e pela muita
dor que encerram; são, além disso, um verdadeiro ensinamento para todos nós, os
que sendo saudáveis, passamos talvez demasiado tempo a inventar doenças, a
exagerar problemas pessoais ou a queixarmo-nos das pequenas contrariedades
inevitáveis no nosso quotidiano normal...
Duas frases anotei, em particular: quando a Ana, num
discurso sereno, seguro e espantoso para uma jovem com a sua doença (que lhe
afectou o crescimento e desenvolvimento físico e psicológico), se referiu à
ajuda da família e sobretudo dos Pais como os seus grandes “ motores”, o seu
estímulo permanente e falando da opinião dos outros, quando dizia que “ às
vezes, tomam-me por aquilo que não sou”, mas “ o que os outros pensam não faz
mal, porque o que importa é ir para a frente com a minha força de vontade
(...)”.
Força de vontade, perseverança, resistência às
dificuldades, às pequenas e grandes frustrações – a tal resiliência que os
psicólogos dizem faltar na Educação que hoje se dá às crianças e jovens,
igualmente responsável pela imaturidade emocional que tantos adultos revelam, ao
fugirem de compromissos familiares e profissionais...e ao manifestarem
comportamentos de adolescentes irresponsáveis pela vida fora!
Acabado o programa, novo bloco noticioso...
A tentação de estar sempre ligada às notícias da Guerra
supera com frequência o conselho sensato que alguns amigos me deram, ainda há
poucos dias: “ Não ouças tantas notícias...vale mais oferecer o dever bem
cumprido, a horas e sem apetecer, por eles- os que sofrem- do que estar sempre a
ouvir notícias, repetidas até à exaustão...”. Os meus amigos têm toda a razão,
mas é-me difícil resistir...
Agora mesmo, por ex., ao escrever estas linhas, leio aqui
na Internet que o General Richard Myers, chefe de Estado- Maior Conjunto
americano disse à BBC que “ os combates mais duros ainda estão para vir”, ou
seja , o pior ainda está para acontecer, a propósito do primeiro atentado
suicida, acabado de se dar em Najaf.
“A vida continua”, foi o comentário lacónico de Ronnie
McCourt, porta-voz do contingente britânico, após aqueles acontecimentos.
Para alguns, porém, infelizmente não continua, porque vão
morrendo, cada vez mais civis e militares, adultos e crianças, diariamente, numa
guerra cujo fim não está à vista, mas cujo auge se aproxima muito provavelmente,
à medida que nos chegam notícias dos preparativos do assalto a Bagdad.
Uma parte de mim está de luto, confesso, incapaz que me
sinto de aceitar e compreender tamanha tragédia com tão imprevisível impacto
mundial.
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