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Encontrei-a por acaso, ao entrar
numa tabacaria. Vi uma pessoa, de bata azul, a varrer o chão, de costas
para mim, pedi-lhe com licença, mas só depois a reconheci pelo seu
sorriso gaiato, inconfundível. Passaram muitos anos, quase a perdi de
vista, tem agora a cabeça toda branca, mais pelos problemas do que pela
idade.
Ali ficámos, sem que eu tivesse coragem de lhe
falar da minha pressa.
Baixinha, desembaraçada, sempre trabalhou a dias
na minha zona, levantando-se às cinco da manhã para tratar da família e
da casa, apanhar o comboio da linha de Sintra, e conseguir estar
sempre no seu posto, aqui em Lisboa, pontualmente, às oito da manhã.
Recordo o entusiasmo com que me falava das suas férias saudáveis, junto
à praia, num parque de campismo, há vinte e tal anos atrás! Dos três
filhos que teve, e que tão bem conheci, o do meio, o mais bonito, -
aquela criança loura, de olhos inocentes, muito azuis e cabelos
encaracolados - a quem vaticinavam um grande futuro no futebol, cedo
começou a não ligar aos estudos e a preferir companhias duvidosas, que
pelos seus catorze, quinze anos, o iniciaram na droga. Para os pais foi
um choque terrível, a descoberta!
Hoje, aos 34 anos, já não consegue andar, tal o
inchaço dos pés e pernas, num corpo indescritivelmente magro e fraco.
Alterna curtas estadias em casa, com longos e dolorosos internamentos
no hospital, depende da mãe para tudo, tudo!, e dos amigos da droga, já
nenhum lhe resta com vida! O pai, reformado por doença cardíaca, acaba
também de sair do hospital neste momento, e permanece, como que apático,
todo o dia em casa, numa cadeira, a ver televisão, à espera que a mulher
volte do trabalho para tratar de tudo e de todos; ambos se dizem
preparados, e avisados pelos médicos, esperam que o filho morra a
qualquer momento…
São inenarráveis os sofrimentos que esta família
tem passado e a vergonha, entre muitas outras humilhações, do
despedimento da mãe, por o filho tantas vezes ter entrado no seu local
de emprego para roubar os colegas e patrões da mãe…
Por fim, separámo-nos.
A caminho de casa, com o coração muito pequeno
ante tamanha angústia e dor, e admirada ainda, pela serenidade e coragem
daquela mãe, veio-me à memória uma entrevista recente, na rádio, em que
um conhecido jornalista evocando as palavras de um não menos famoso
psiquiatra, punha a questão de como lutar contra este flagelo da droga
na nossa sociedade actual…e repetia a resposta dada há tempos atrás,
pelo psiquiatra, considerando-a como uma “genial metáfora”: “ …para
vencer a droga, olhe, só há uma coisa a fazer, declarar guerra, por ex.,
a Espanha!”
Na verdade, a sua metáfora significava, não que
seja necessário fazer guerra ao vizinho, mas que o que falta é
entusiasmar a gente nova por grandes projectos, ocupá-los a todos,
dar-lhes tarefas, responsabilizá-los, motivá-los…sacudi-los de rotinas,
vícios e desocupações! Arrancá-los da cama, da televisão e dos sofás, e
ajudá-los a descobrirem o sentido da sua vida!
Por isso, num país que está a ficar tão triste e
deprimido como o nosso, em que a sombra do défice das Finanças Públicas
paira, cada vez mais ameaçadora, onde “todos ralham” e os políticos se
acusam de dedo em riste, onde as estatísticas da nossa vergonha nos
conferem, quase sempre, desde há algum tempo para cá, o primeiro lugar
entre os piores resultados escolares, gravidezes precoces, casos de
sida, obesidade infantil, etc., é bom saber que há escolas de risco e
bairros “difíceis”, onde os meninos de diferentes raças e idades, já de
férias, foram convidados pela junta de freguesia local a pintar os muros
feios do cemitério vizinho, a troco de algum dinheirito de bolso e de um
almoço, acompanhados por um jovem professor de Religião, licenciado em
Comunicação Empresarial, a meio do seu Mestrado, mas simplesmente
voluntário nas pinturas e desejoso de educar para a Cidadania, em que
tanto acredita…(e eu também) !De bolhas e tinta nos dedos, poucos sabem
que ele é o grande promotor de uma Associação “Mais Cidadania”,
responsável por ATL’s de crianças carenciadas, animador cultural do
Bairro de Sta Catarina, permanente sonhador e impulsionador de projectos
e pessoas …
Talvez outros lhes sigam o exemplo! E já agora,
gostaria de vos contar alguns outros casos de gente nova de que tão
pouco se fala, mas que bem merecem ser divulgados, porque são a nossa
esperança e certeza de que é possível vencer dificuldades na vida,
trabalhar com denodo e levantar cabeça !
Ainda há pouco tempo, tive ocasião de ouvir, na
Figueira da Foz- no âmbito das comemorações do Dia da Marinha- a
primeira audição integral de uma obra belíssima –“Sinfonia nº2 “Mare
Nostrum”, opus 124- de um jovem e promissor compositor e músico
português, Jorge Salgueiro, membro da excelente banda da Armada. Estou
certa de que o seu trabalho fantástico e o seu mérito serão reconhecidos
além fronteiras !
E como não referir aquele outro jovem, natural da
zona de Esposende, autodidacta, escultor, que começou como simples
aprendiz de calceteiro, e tem já várias obras de grande valor no Norte,
tendo agora terminado uma magnífica “ Nossa Senhora do Mar” para a
Capela da Base Naval do Alfeite ? O seu sonho é chegar a esculpir na
pedra da montanha a história da sua terra e das gentes de Esposende…
E o trabalho de um não menos jovem “designer
gráfico”, que participou no projecto missionário da Equipa de África”,
em Moçambique, de 1999 a 2003, e agora expõe pela primeira vez, em
Colares, um trabalho inovador de técnica mista sobre fotografia,
intitulado “Tambores graves dentro de nós”, que merece ser visitado,
compreendido e apreciado ? ( Trago gravados em mim os enormes olhos
tristes e negros dos dois meninos de rua moçambicanos “Ismael Gamito”!)
Arte, Ciência, Música, Literatura, Solidariedade,
Desporto, Trabalho… quanto campo para desbravar, quanto para aprender e
descobrir, tanto por fazer…não deixemos que os nossos jovens
desperdicem talentos, saúde e vida! Para muitos, as férias já aí
estão! |