Entro em casa, finalmente. Trago música nos ouvidos e na
alma.
Acabo de ouvir na Antena 2, a repetição de uma gravação de
um magnífico concerto de Beethoven, pelo pianista Sérgio Varela Cid, em 1970, no
Tivoli, em Lisboa, no segundo aniversário do nascimento do célebre compositor
alemão - concerto em Dó Maior, nº 1, opus 15.
Diante de mim, vejo a louça toda por lavar! Não pode ser!
Felizes, no quarto ao lado, com o computador em altos berros, os meus filhos
mais novos também ouvem música...“ as meninas da ribeira do Sado...” e cantam,
alegremente, divertidíssimos, a plenos pulmões.
Acabo de chegar. Parti, cheguei, voltei a partir e tornei a
chegar. Vezes sem conta nestes últimos dias, diariamente, as pequenas-grandes
viagens, reais - como esta de hoje - e virtuais, interiores, daquelas em que a
mente voa, libérrima, sem que o corpo quase se mova, de preso que está às
tarefas, dores e deveres de cada dia.
Falar com um e com outro, responder, ouvir e contar,
desmanchar as malas, atender o telefone ... e por fim, eis-me aqui sentada num
cantinho da cozinha (por favor, podem pôr isso mais baixo? É a televisão que me
incomoda...!) a forçar-me a escrever (não vou adiar mais, não vou !) .
É tarde já, a louça pode esperar, (não se escandalizem!),
finalmente o computador está livre, é a minha vez, a consciência de muito m2 por
escrever pesa-me hoje, com mais força ... e pronto tem de ser, começo!
Venho da Beira Alta, de um simpático encontro para festejar
o aniversário do Cenofa em Viseu. Uma dúzia de casais de diferentes idades,
alguns com filhos pequenos, animados pelos fidelíssimos e incansáveis promotores
do Cenofa da zona, juntaram-se para ouvir e debater o tema da “Comunicação em
Família”, a que se seguiu uma agradável sardinhada de S. Pedro, no exterior de
uma bela casa de granito, ali em Fagilde, mesmo à beirinha do Dão e do Sátão.
Recordo ainda as palavras peremptórias de uma professora de 1º ciclo :
“ – Não, desculpe, mas não concordo ! Hoje, não há mais
falta de tempo do que antigamente ! O que há é incapacidade de gerir bem o tempo
! O que há é falta de valores, de critério e de noção de prioridades ! Porque eu
bem vejo como é que os pais e mães dos meus alunos perdem tempo...é a ida ao
café, as conversas com as amigas que se prolongam, as compras, as telenovelas
que não se podem perder, os telejornais à hora das refeições, a ginástica ... e
depois, claro, como é que hão-de ter tempo e paciência para educar e como hão de
saber fazê-lo? E como é que nós professores, das 9 h da manhã até ao fim da
tarde, mais os ATL, ainda havemos de os educar, ensinar e fazer- lhes tudo???”
Ninguém contestou. Foi certamente um comentário duro, mas
não será verdade, em grande parte? Por mim, creio que a professora tem bastante
razão ... aliás, já cá fora, comentava-me, com alguma tristeza, que bem via como
os seus alunos pequeninos tinham muita falta de colo ... e de estabilidade
emocional.
No final, ouvi duas irmãs, jovens mães, a combinarem ,
todas entusiasmadas, a possibilidade de passarem a reunir em S. Pedro do Sul,
com um grupo de outros casais amigos, uma vez por mês, para convidarem alguém do
Cenofa para tratar temas de Educação dos seus filhos pequenos, ajudando-os a
estruturar ideias e a abrir horizontes. Outros, mais velhos, combinavam a troca
entre si de livros sobre Educação e a assinatura de uns folhetos com artigos de
qualidade, que poderiam levar para os locais de trabalho e para as escolas dos
seus filhos.
Valeu a pena! Todas estas reuniões implicam , sem dúvida,
grandes esforços e sacrifícios dos organizadores e participantes, mas valem
sempre a pena, até mesmo quando são muitos os convidados, mas poucos os que
comparecem!
Pelo caminho, pus-me a pensar, enquanto a chuva inesperada
caía sobre os vidros e os campos e árvores desfilavam rapidamente de ambos os
lados da estrada, que de facto, nos faz falta esta troca de impressões...por que
razão os casais ,hoje em dia, falam tão pouco do que é verdadeiramente
importante? Porque falam constantemente do urgente ou do que assim parece
(sempre o ter e o comprar) e tão pouco do importante? Já Saint - Exupéry dizia
que sempre se preocupara com o saber distinguir o importante do urgente e que na
verdade, “ urgente é ter um tecto para me abrigar e comida para comer, mas
importante mesmo é descobrir o Amor, o Sentido da vida e Deus!”
...Comecei com música e com música queria acabar (apesar de
já ter passado no dia 21 o Dia da Música e de nem termos tempo para falar aqui
das desafinações na Casa da Música do Porto !). Duas linhas apenas, muito de
corrida, a propósito das letras de várias canções em voga, sobretudo cantadas em
inglês (mas também em francês) pelas “estrelas” internacionais dos nossos
tempos, verdadeiros ídolos para muitos jovens e adolescentes , quando não para
os nossos próprios filhos. Guardei até uma revista recente (suplemento de um DN
de domingo, creio!?) com uma análise bastante oportuna às incríveis letras que
eles sabem de cor (embora nem sempre saibam o significado!) e que certamente,
nos envergonhariam e preocupariam, se soubéssemos que era essa a mensagem ...
nós que tantas vezes, pasmamos com a música “pimba” portuguesa ! Atenção, Pais!
As letras não são sempre inofensivas, por mais agradáveis que pareçam as
músicas... e portanto, também disso devemos falar com os nossos filhos, se lhes
quisermos transmitir critérios e ideias certas !
Entretanto, ao passar ainda há pouco, pela sala, - onde
ninguém ouvia televisão, mas onde jaziam já alguns adormecidos – nem de
propósito, ouvi o fadista Carlos do Carmo dizer aos jovens da “Operação Triunfo”
que não se esquecessem nunca que “cantar uma canção é uma grande
responsabilidade, porque ela pode fazer um bem incontável à alma de quem a ouve”
e que além disso “o cantor deve ser sempre humilde e aceitar cada nova canção
como um novo teste, um novo desafio, porque todas as vitórias e sucessos neste
campo são extremamente efémeros...”
Fico a pensar apenas, que estes comentários são mesmo
oportunos e igualmente aplicáveis a muitas outras artes e actividades. E também
à escrita eles se aplicam com inteira justeza.(Boa-noite! Vou-me à louça!)
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