m² de 30 de Julho de 2003

  Sento-me por breves momentos, a seguir ao almoço, bebendo um café, frente à janela aberta por onde entra uma baforada imensa de ar quente e abafado. Lisboa asfixia !

  (Ai, que falta me faz um ar condicionado!)

   Recosto-me e penso nas palavras que acabo de encontrar ao arrumar uns papéis, ditas por Martin Luther King, e que copiei há algum tempo, num interessante Encontro da Rede de Educação do Consumidor, a propósito de comércio justo - “ Ao acordar tomamos café sul-americano ou chá chinês, ou mesmo chocolate africano, ( e assim) antes de entrarmos no ( nosso local de ) trabalho já estamos em dívida com metade do mundo”.

   (Pensando bem, como posso queixar-me da falta de ar condicionado? Olho o fundo da minha chávena de café com um novo olhar...na verdade, raramente me dou conta do esforço imenso de tantos para eu poder beber esta minha indispensável fonte de energia !)

   Entretanto, fecho os olhos (só para não ver o enfermeiro do Centro de Assistência a tratar das varizes em ferida da minha vizinha espanhola, que mal consegue andar, mas está sempre de sorriso de orelha a orelha e vive do outro lado da rua. Adivinho-lhe os gritos que não consigo, nem quero ouvir).

  Mais adiante, dando outra volta aos papéis do mesmo Encontro, descubro um sugestivo provérbio Macua- “ Viver é ajudar os outros a viver”... torno a fechar os olhos e revejo o meu breve encontro desta manhã, numa pastelaria da Baixa.

  Mal podia acreditar! Aquela rapariguinha, muito viva e arrapazada – única rapariga entre quatro irmãos – agora assistente social, uma mulher feita, de vinte e tal anos, com cabelo curto agora bem mais escuro, mas ainda e sempre com aqueles inconfundíveis e lindíssimos olhos azuis, corre ao meu encontro, agarra-me por um braço à saída do Metro e convida-me para um café, dizendo apenas – “ Preciso de lhe contar uma coisa!” Radiante, mas um tanto surpresa pelo inesperado do convite, adiei os inadiáveis da minha agenda e fui com ela. Na mão trazia um saco de plástico com roupas de saldos. Sentámo-nos a uma mesa e contou-me então, o seu percurso desde que saiu da escola onde nos conhecemos. De repente, do saco a tiracolo, tira um livrinho laranja intitulado “ O chá de manjacaze”, escrito por uma médica goesa e apontando o seu retrato na contra-capa, diz-me : -“É por causa dela que vou partir para Moçambique ! Foi este livro escrito por esta médica de 60 anos, que juntamente com outra médica de 70 anos, portuguesa, viúva e mãe de 6 filhos, partiu para trabalhar junto das populações mais carenciadas , que me levou à experiência do ano passado e agora vou voltar...talvez me decida até a ficar por lá...ver-se-á!”

  Pressinto que não devo ultrapassar o limiar da sua intimidade, com perguntas excessivas. Ouço apenas e sinto-me esmagada pela sua generosidade ! Separamo-nos com um abraço emocionado.

  

  Reabro os olhos, mas o enfermeiro ainda lá está, sentado de costas para a janela, na casa da minha vizinha espanhola. O calor continua asfixiante. Pouso a chávena vazia.

  Começo então, a deitar para o lixo algumas revistas sem qualquer interesse e a arrumar os jornais que normalmente separo depois de uma primeira triagem, porque a ACMedia precisa que os seus observatórios funcionem, sempre em busca de artigos interessantes, e finalmente, encontro o artigo do Expresso que o meu Marido me deixara, convicto de que eu iria gostar.

  “Associação procura promotores do bem”, é assim que se intitula.

  E fico então a saber, que quatro pessoas fartas – como eu e tanta gente !| – de escândalos, notícias de corrupções e crise económica, decidiram juntar-se e procurar o que há de melhor e mais positivo no nosso país, para o divulgar em breve, através de livros, televisão e Internet.

  Joaquim Azevedo, ex - Secretário de Estado da Educação, mais um empresário do Norte, uma produtora de televisão e um perito em organizações internacionais, já estão a trabalhar há cinco meses em busca de portugueses a quem se possa classificar de “promotores do bem comum”, isto é, pessoas, na sua maioria anónimas, que procuram, no e a partir do lugar onde vivem e trabalham, “contribuir para que as suas comunidades sejam lugares melhores para se viver!” No fundo, explica o Dr. Joaquim Azevedo ao jornalista Ricardo Jorge Pinto, do Expresso, “ numa altura em que apenas são notícia os promotores do mal comum, achámos que era tempo de arranjar novos e melhores exemplos para os nossos jovens!”

  Penso em vários dos meus heróis, nacionais e internacionais! Na minha antiga aluna, que vai partir para Moçambique. Num conhecido Professor de grande craveira, discretamente a trabalhar em Timor. Pouco a pouco vou-me lembrando de vários “ promotores do bem”, a quem muito admiro, mas que no entanto nunca quererão sair do anonimato e devo respeitar a sua humildade!

  Metro quadrado a metro quadrado, felizmente vamos encontrando em cada esquina da vida – se estivermos minimamente atentos – cada vez mais gente “normalíssima” cansada de más notícias, escândalos, crimes , adultérios e divórcios, suicídios e homicídios, violências e desgraças, gente que pensa como nós e que anseia por, de algum modo, proporcionar activamente um ar mais respirável aos mais novos, que não podem continuar de facto a crescer, no meio de tanto lixo tóxico diário.

  ...E que tal, se algum dos leitores quisesse começar por dar os parabéns e uma palavra de estímulo aos promotores desta iniciativa ? Basta um e-mail para jazevedo@aeportugal.com.


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