...conheci a Margarida,
largos anos vão passados, numa inesquecível viagem a bordo do “Príncipe
Perfeito” nas águas do Mediterrâneo. Ela era então uma jovem de vinte e
poucos anos, morena, elegante, lindíssima, no seu uniforme de hospedeira
de uma conhecida agência de viagens. Filha única, solteira, uma
simpatia, a todos acolhia com o seu magnífico sorriso. Tempos depois,
soube que tinha casado com um estrangeiro e esperava um bebé, para
alegria de todos. A tragédia porém, em breve lhes bateu à porta, num
terrível acidente. Margarida foi cuspida do automóvel descapotável em
que seguiam e ficou em coma, enquanto o Marido pouco sofreu. Seguiram-se
tempos muito difíceis. Os pais mudaram-se para a capital, transformaram
totalmente a sua vida para noite e dia acompanharem a filha, que no
entanto, nunca mais acordou do sono profundo em que caiu, mantendo-se
ligada a uma máquina até ao nascimento do bebé. Este, por fim, veio ao
mundo, sem problema algum. Entretanto, da última vez que tive notícias,
soube que os pais dedicavam inteiramente a sua vida à filha, ainda em
coma, mas já em casa, onde alegre e despreocupada crescia uma pequenina,
entregue apenas aos cuidados dos avós, já que o pai decidira voltar à
sua terra de origem...
...foi precisamente
este caso da Margarida que de repente, me voltou à memória no passado
dia 22 de Janeiro, no auditório novo da Assembleia da República,
enquanto ouvia, diferentes e valiosas intervenções e testemunhos em
defesa da Vida e promoção da Família, num Forum realizado por iniciativa
do Movimento Mais Vida, Mais Família, que há um ano atrás realizou a
maior recolha de assinaturas de sempre ( 200 mil assinaturas!) contra a
liberalização do aborto e em defesa da Vida Humana.
A Matemática e eu,
infelizmente, nunca tivemos uma relação muito brilhante, nem pacífica
por isso, quando as intervenções passaram à Fiscalidade e aos frios
números da nossa desgraça, apesar da sapiência dos palestrantes,
confesso que – tal como nos meus longínquos tempos de escola- a minha
imaginação rapidamente levantou voo em direcção à história da Margarida
e a tantas outras não menos verídicas e próximas, que me fizeram
aprofundar e rectificar ideias e atitudes, e me levam, hoje, a lutar,
com profunda gratidão, nas primeiras filas, junto de outras associações
e pessoas, pela defesa da vida desde o primeiríssimo momento da
concepção até à morte natural.
Aproximam-se as
eleições e precisamos de saber claramente, não só o que os partidos
concorrentes pensam e defendem em matéria de Economia, Justiça,
Educação, Saúde, Ciência e Tecnologia, Política Externa, etc., mas
também que importância dão e prevêem dar à Defesa da Vida e Promoção da
Família, como resultante do casamento entre um homem e mulher e elemento
fundamental da sociedade. Só assim poderemos votar em consciência, como
se impõe!
Como ali foi dito e reiterado, por muitas e
diferentes pessoas, credíveis e abalizadas, “ o Estado tem um papel
fortemente condicionante dos projectos de cada Família” . E tal como
afirmou a Profª Drª Maria Teresa Ribeiro, numa excelente intervenção,
ainda recentemente na Conferência Europeia de Saúde Mental em
Helsínquia, se falou da “depressão, como o assassino invisível da
Europa, responsável por altas taxas de suicídios e auto-mutilações”,
sendo consensual a existência de “uma correlação inegável entre pessoas
saudáveis, famílias saudáveis e sociedades saudáveis”.
São muitos e
graves os problemas económicos do nosso país, é um facto, mas ninguém
duvidará de que um Estado que se recuse a investir preventivamente no
apoio às Famílias e Educação, será severamente onerado a posteriori,
por causa da criminalidade, da droga e alcoolismo, da sida e tantos
outros males.
Como muito bem
perguntava o Dr Raúl Dinis, numa exposição muito apreciada, sobre
políticas favoráveis a uma melhor conciliação entre família/trabalho “
se não nascerem crianças, onde estão as bases económicas para a
sociedade e o enriquecimento da família humana?”
... Lá fora, como
cá dentro, a vida não para e as notícias, mais e menos relevantes,
sucedem-se a uma velocidade acrítica, anestesiante e imparável! Ainda
há pouco foi assinado um histórico acordo de paz no Sudão, lá onde a
guerra civil e a fome não têm dado tréguas a populações martirizadas,
há vinte e um anos. Agora são as eleições no Iraque, um pálido “ensaio”
de democracia ocidental imposto do exterior, a xiitas e sunitas,
marcados por lutas fratricidas, ódios acumulados e brutal violência. Já
pouco se fala do “tsunami” e das suas catastróficas consequências na
Ásia. Porém, se é verdade que a dor ali se instalou e afectou para
sempre mais de 260 mil famílias, não é menos verdade que a onda de
solidariedade também não vai terminar tão cedo. Ainda agora ouvimos em
campanhas de rádio e televisão, igrejas e grupos de profissionais das
artes e espectáculos, apelos a donativos e ajudas às equipas de médicos
e outros que dão o seu melhor no terreno. Salvar vidas, curar doentes,
evitar epidemias, reconstruir, consolar, recomeçar...são as palavras de
ordem.
Por isso, não posso
terminar este “m2” sem dizer quanto admiro aquele médico açoreano, meu
conhecido, pai de família numerosa, cirurgião já reformado, que vai
partir, ou já partiu, para se juntar à AMI e dar o seu melhor, ele que
rondando os setenta anos, ainda mantém aquela generosidade e juventude
de espírito dos que sempre dão gratuitamente, sem sequer esperarem ou
julgarem ser notícia.
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sugestões : fonsecas@netcabo.pt