É o tempo de que mais gosto : Natal!
Está um tempo maravilhoso e estou onde mais gosto : na Praia.
Porém, de vassoura em punho, ando
pela casa a fingir que limpo, cansada, aborrecida e sem vontade, a limpar
os intermináveis restos dum dia de Natal em família alargada.
Ninguém em casa, só eu. Lá fora ,
faz frio neste lindíssimo dia de Inverno! O sol brilha, o céu muito claro
e azul sem mancha, aqui e ali apenas o risco branco de um avião, e o
cheiro a pinhas, lenha e maresia, tudo convida a passeio no pinhal. Saio,
a ver se passa a dor nas costas, dou a volta à casa, respiro fundo a
aragem fina e fria , e resolvo arrumar a vassoura ...já sei, vou até à
cabeleireira cortar dois dedos de cabelo... (pode ser que fique com melhor
disposição! Sei lá porque estou aborrecida ? Há dias assim...até me
aborreço comigo própria por estar aborrecida...).
Entro decidida, na casinha modesta
e sem tabuleta, para ninguém saber que é mais do que uma simples casa de
habitação . Dou-lhe um beijo e digo ao que vou, mas percebo logo que algo
de grave se passa. Chorando, pára de pentear uma cliente, abraça-me e
diz-me apenas : “A minha vida está num caos!”
As horas passam e não sei como
consolá-la. Conheço-a desde miúda. Resta-me ouvi-la e confiar-lhe a minha
cabeça. Ao meu colo, um doce bebé de 15 meses, chupeta na mão, bolacha na
boca, vai mirando e remexendo em tudo. É o neto dela que acaba de perder o
pai - com 30 anos - na sequência dum enfarte do miocárdio agudo e ao fim
de dois meses em coma. Era um rapaz saudável, só que vivia em grande
ansiedade desde que perdera o emprego nos Correios, sobretudo agora que se
aproximava o fim do subsídio do desemprego...
Corte aqui, corte ali, o meu cabelo
vai desaparecendo, sem que eu quase dê conta, tal a dimensão da tragédia e
a sem - importância do cabelo cortado. Entretanto fico a saber que também
ela tem o marido - de 59 anos - desde o Verão, com um cancro no estômago.
Está a perder o andar por nova metástase na coluna... e começa a
faltar-lhes tudo , pouco a pouco, com o marido na cama, os gastos a
crescerem e a falta de tempo para trabalhar de cabeleireira. A comunidade
evangélica da zona, maioritariamente inglesa, já se mobilizou e
generosamente , já lhes está a pagar o telefone. Mas, e o gás, a
mercearia, os remédios, a fisioterapia...???
Regresso a casa quase sem cabelo, é
certo, mas certa de não ter direito a estar aborrecida! Sou uma felizarda!
Agarro na vassoura e, furiosamente, entre lágrimas, acabo o trabalho.
No dia seguinte, a aventura do
costume : regressar a Lisboa, no meio de malas e malinhas, sacos, cabides,
uma infinidade de coisas, saídas nem quase sabemos donde, carregamentos
escada abaixo, escada acima, horas a arrumar e lá me vem outra vez aquele
“aborrecimento aborrecido” sem bem saber porquê...todos apertados dentro
do carro, de repente solta-se uma gargalhada e esfuma-se a sensação
desagradável. Sobre o meu colo um presunto, meio preso, meio solto,
espreita da caixa de cartão e cai-me sobre os pés. Ri-se a minha filha
Maria Ana e rio-me eu até às lágrimas. A cena parece de filme!
Adormecemos por escassos momentos
na viagem, mas ao acordar volto a lembrar-me que não tenho razões, nem
direito a aborrecer-me...recordo a história da cabeleireira e depois a do
ex-tipógrafo, - relatada numa destas revistas dos jornais de domingo, que
acabei de ler - hoje paraplégico, homem jovem que se vê impossibilitado de
comunicar a não ser através de pancadas com a cabeça num dispositivo tipo
- rato de computador, em que consegue ir escrevendo pensamentos e desejos,
até poesia, graças a uma outra colega de infortúnio, presa também ela a
uma cadeira de rodas, mas que inventou um código que lhe permite decifrar
e passar ao papel tudo o que ele vai criando na riqueza do seu
espírito...( perante gente tão admirável, como posso sentir-me aborrecida?
).
No final do dia, como por encanto,
desaparece-me o cansaço... frente à televisão, revejo as notícias de
tantos horrores, lá fora no Irão, no Iraque, e cá dentro...e fujo (?) das
desgraças fazendo um zapping mesmo a tempo de rever o inesquecível filme
“Favores em cadeia”...Trevor, um menino de 11 anos, com uma sensibilidade
e uma maturidade fora do vulgar, faz tudo o que pode para mudar o mundo
“mau” à sua volta! Inspirado por um professor não menos invulgar, tem uma
ideia genial e transforma-a em projecto real : acredita que se fizer três
coisas difíceis, três favores, a três pessoas diferentes e se cada uma
delas , por seu turno, fizer o mesmo a outras três e também lhes pedir que
continuem a fazer e a pedir a outros que o façam, conseguirá uma cadeia de
favores que contribuirão para tornar o mundo melhor...e assim começa por
levar para casa um vagabundo toxicodependente e esfomeado , consegue que a
mãe abandone o vício do alcoolismo e...não posso contar o resto! Digo
apenas a quem não viu, que vale a pena ver ! Um pouco daquele idealismo
não nos faz mal nenhum!...Só pode fazer bem!
Desculpem, mas não posso acabar
este m2 de fim de ano – mesmo alongando-me um pouco mais!- sem vos falar
de outro projecto transbordante de idealismo nesta nossa cidade ! Soube-o
através de colegas da Universidade Católica que nele trabalham: uma equipa
de rua, orientada pelas Irmãs Oblatas e composta por várias outras
pessoas, faz trabalho com prostitutas, contactando uma por uma e
convidando-as a frequentarem aulas de duas horas diárias ao longo de um
ano. Aprendem arte, dança, teatro, poesia, ioga, ofícios e recebem um
pequeno subsídio, patrocinado pela Câmara Municipal . São tratadas como
pessoas, descobrem o que é fazer amizade e sentirem-se estimadas e
estimáveis, e ao fim desse período de formação e mudança, muitas delas
querem trocar de vida, passam a viver numa residência com os seus filhos
pequeninos, quando os têm, e conseguem outro modo de vida e uma reinserção
na sociedade...
Guardo na memória as palavras de
uma nossa professora, à saída da aula, comentando este mesmo projecto:
- “Sabem? Há muitos anos que ando a
trabalhar ligada a projectos interculturais com imigrantes, ciganos, etc.
e cada vez estou mais convicta de que é sempre possível fazermos e
mudarmos alguma coisa....nos interstícios dos sistemas há sempre um
pequenino espaço para actuarmos, se quisermos...é por isso que sou uma
pessoa optimista! É possível mudar o que está errado...se cada um se
esforçar!”
... Um Bom Ano, meus Amigos! Até
Janeiro de 2004, se Deus quiser!