Em tempo de feriados e pontes, Lisboa fica mais serena,
mais apetecível e bonita para aqueles que cá ficam. É o tempo da redescoberta de
velhos jardins, da travessia calma de grandes avenidas e da visita (mesmo que só
por fora) às casas onde já morámos. É um curto e doce tempo de recordações. Mergulhada nestes e noutros pensamentos, passei
semi-distraída, por ele, duas vezes. Sentado de pernas cruzadas, no chão do
átrio do banco, sorria, fleumático, empunhando a garrafa de cerveja, que o
deliciava. Estava negro de sujo, o cabelo e a barba num desalinho igual ao das
suas roupas de dormir na terra e vaguear pelas ruas. Contudo, parecia um rei, um soba, indiferente a tudo e
todos, dominando os degraus da ampla entrada daquele prédio das avenidas novas.
Espalhados à sua volta, os seus tesouros: um pacotinho de amêndoas, uma caixa de
fósforos, cigarros, caricas, sacos de plástico, jornais e lixo, muito lixo. À
segunda vez, fixei – o melhor e julguei reconhecer nele o menino de olhos
lindos, de 7 ou 8 anos, que na minha juventude costumava andar a vender raminhos
de violetas à porta da Igreja, à saída da Missa dominical, pendurando-se nos
nossos braços a pedir uma moedinha, “só uma moedinha de cinco tostões... vá lá,
dê-me, dê-me!” Ainda pensei dirigir-lhe a palavra, mas ele continuava absorto e
impávido, numa postura feliz de dono e senhor do seu território! Entretanto, sento-me na esplanada em frente, para pôr as
minhas leituras de jornais e revistas em dia. Debaixo do braço trago alguns dos
antigos. Tenho exactamente meia hora livre, enquanto espero que a lavandaria ao
lado ultime as roupas que ali deixei. Passo os olhos com rapidez pelos
diferentes títulos e temas da actualidade. Nem de propósito, pego numa revista
“Cais” que aborda precisamente o tema dos Sem-Abrigo. E leio: “ (...) Na Europa dos 15 as pessoas sem tecto
calculam-se em cerca de 3 milhões e em 15 milhões as que vivem em casas sem o
mínimo de condições”. Mais à frente, “ (...) em Lisboa calculam-se 1.366 (...) ”
pessoas sem-abrigo, sim para mais e não para menos, no entender de várias
organizações de apoio, embora não haja estatística oficial. A propósito das
causas, adianta-se “ (...) A rua porém, não é apenas o resultado das graves
dificuldades económicas. Por trás desta situação está também uma longa série de
tragédias individuais, como o alcoolismo, a toxicodependência, as doenças
psíquicas, o crime, nascidos tantas vezes da rotura nas relações familiares e
interpessoais. No apoio a estes casos o dinheiro é necessário, mas a recuperação
da auto-estima e do poder criativo de muitos sem-abrigo exigem muito mais que um
simples investimento financeiro (...) ”. Penso no número crescente de desempregados em Portugal e
por essa Europa fora, nos muitos sintomas de crise económica, nos inúmeros
artigos que ultimamente têm revelado a opinião dos nossos melhores especialistas
e recordo, com apreensão, que na Cimeira de Lisboa em Março de 2000 os
responsáveis pela governação dos 15 Estados- Membros se tinham proposto colocar
no topo da sua agenda , precisamente a luta contra a exclusão social e
erradicação da pobreza através de uma série de objectivos comuns a alcançar de
2001 a 2003! Um pouco mais adiante, leio ainda na “Cais” que o problema
com a maioria dos sem-abrigo nem é tanto a falta de dinheiro como sobretudo “ a
falta de capacidade de gerir o que têm. Muitos perderam o ritmo de uma casa
(...) ” Olho o relógio e reparo que a minha meia-hora está no fim.
Do outro lado da rua, o vagabundo já se deitou sobre uns cartões. À sua volta,
várias garrafas vazias são a prova do seu estado. Esqueço-me da “bica” que pedi. Vejo o cenário à minha
frente: Desemprego! Primeiro as tentativas de solução, bate-se a uma e outra
porta, “ talvez para a semana lhe arranje qualquer coisa! Volte mais tarde!
Tenha paciência, mas hoje o Sr. Dr. não o pode receber!”, e passa um mês e
outro, depois são os copos e o desabafo com amigos, e rapidamente lá vai um copo
a mais para esquecer; começam os problemas de relação familiar, “casa onde não
há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, pobreza envergonhada, já não há
carro, nem bens para vender, discussões, “Cheiras a vinho que tresandas!”,
ausências, violência física, perda de auto-estima, incumprimento de pagamentos
das dívidas e empréstimos, desleixo pessoal e....algum tempo depois, apenas a
rua, arrumar carros, pedir esmola...sem-abrigo...ninguém te conhece, os amigos
desaparecem e até a família acaba por ter vergonha... Antes de deixar a minha mesa e pagar o café, ainda folheio
um qualquer caderno de um sábado já passado, dedicado à Moda Lisboa. É como se
entrasse num outro mundo à parte...ali é tudo “glamour” e “porno-chic”: uma
modelo de rosto exótico e impenetrável na sua seriedade, um misto de oriente e
anos 20, veste (?) na sua nudez parcial, dourados, só dourados! O tecido é
escasso e transparente, os acessórios em abundância, um fausto de estrelas,
correntes, galões de militar, cordões, redes, corações, fivelas...um fingimento
de ouros a desnudar o corpo e a abafar a alma...o rosto ausente, inexpressivo
quase, nuns gestos de arte sensual, sado-masoquismo e pose pornográfica....
assim vai a moda e a publicidade de luxo, o recém-denominado “ porno-chic”, numa
criatividade com mais de grotesco, coisificante e decadente, do que de serviço à
beleza da mulher. Vou-me. Num caixote de lixo deixo o caderno dourado. Sobre
a mesa do café deixo a “Cais” que ainda pode ser útil a alguém. Na memória levo
um testemunho, entre vários, dos Sem-Abrigo que vendem a revista nas nossa
ruas...“tem sido a maneira de resolver a minha vida, sem andar a roubar ou a
pedir...tem sido a forma de eu voltar a viver. Antes vivia num albergue, agora
já vivo numa casa (...)”. Como terminar este m2 tão pouco dourado...? Decididamente, vou passar a olhar com mais atenção, quem me
pede que compre a “Cais”. E vou passar a lê-la de outro modo... Pelo caminho quase me esqueço da lavandaria. Em
compensação, só me vem à memória aquele amigo da idade dos meus filhos – esse
sim, com um verdadeiro coração de ouro! - que anda cheio de latas de atum e
salsichas para dar a cada Sem-Abrigo que lhe estende a mão por estas ruas de
Lisboa !
Comentários, críticas e sugestões :
fonsecas@netcabo.pt
![]()