|
( Amigos, nunca mais vos
escrevi e hoje, alguém me perguntou porquê! A razão é simples:
inesperadamente, voltei a dar aulas na escola e o tempo
esgueira-se-me facilmente…Volto porém, à minha meta “secreta”
inicial : escrever 100 crónicas. Sem promessa de datas certas,
procurarei chegar à meta!!! Recomeço agora! Espero que me
desculpem um silêncio tão prolongado… )
Passava na rua um destes dias e uma vez
mais me cruzei com ele : de pé, encostado à parede de um prédio
novo, cabelos em pé, sempre crespos e desalinhados, barba longa,
sorriso indefinível, andrajoso, grande, um ar embrutecido, sujo,
sempre de vinho na mão, quando não deitado a coçar-se ou a
dormir na calçada como um animal desprezado. Todos o vêem. Todos
o vemos. Desta vez , olhava o copo de plástico atentamente,
cheirava-o e bebia-o com uma imensa voracidade.
Ao vê-lo porém, ali bem perto de mim, tão
escravo do seu álcool, lembrei-me de um filme não comercial que
vi há pouco e me causou profunda impressão. Vou contar-vos!
O filme é apenas a gravação de uma
conferência real dada por um arquitecto mexicano, de seu nome
Gutierrez, hoje pai de 9 filhos. A cena passa-se no México, num
congresso e o conferencista, sempre de pé, convida o público ali
presente, a sentar-se o mais comodamente possível , pois vai
revelar-lhes uma história verdadeira que lhe mudou a vida . Na
primeira fila, entre muitos outros, vê-se uma bela mulher - a
sua - com ar ainda jovem e alguns dos seus filhos adolescentes.
Começa então a sua narrativa:
Corria o ano de 1990- tinha 33 anos e era
pai de 7 filhos - e num dos primeiros dias de Setembro, pela
manhã, ao dirigir-se ao seu carro, sentiu-se agarrado por trás
e ao voltar a cara, apanhou com uma coronhada na boca e no
queixo. Preso por dois indivíduos encapuçados que lhe taparam a
cabeça e brutalmente o meteram dentro do seu próprio carro,
arrancam de imediato a toda a velocidade. Ao fim de muitas
horas e troca de carro, chegaram finalmente a uma casa ,onde o
enfiaram num cubículo de 3m x 1m., arrancando-lhe roupas,
relógio e haveres, e deixando-o nu. Aí viria a permanecer
durante nove meses, permanentemente observado através de uma
câmara de video, montada no tecto e sempre a ouvir as cassetes
de música, que já ouvira no carro. O motivo do sequestro era a
exigência de um avultado resgate aos seus irmãos, empresários
conhecidos e com fortuna. Sem nunca tirarem os capuzes, os seus
raptores montaram-lhe guarda permanente à porta e apenas
comunicavam com ele através de um pequeno postigo, que só eles
conseguiam abrir . Para ali ficou com uma esferográfica e uns
papéis para preencher, como condição para o início das
negociações com os irmãos. No chão, apenas uma pequena esteira,
uma fossa e um jarro com água que teria de durar e chegar para
as necessidades de cada dia. Ao compreender que o que pretendiam
dele era o preenchimento de um relatório completíssimo com
descrição pormenorizada da sua família, hábitos de vida, locais
habitualmente frequentados, etc , que lhes permitiria ficar a
conhecer todos e manipular as suas vidas a seu belo prazer,
recusou-se durante vários dias, desesperado, apático, sem forças
para reagir, sabendo apenas que não queria entregar-lhes a sua
família. Finalmente porém, depois de muitas ameaças e de várias
vezes lhe terem exigido o preenchimento dos dados, acabou por
responder a tudo, convicto de que não havia outra saída. Porém,
mal entregou o inquérito, encheu-se de nojo de si próprio,
sentiu-se “ un maricón” , traidor da família, indigno dos seus
e, prostrado no chão, nu, imundo, para ali ficou tempos sem fim.
Até que lhe batem à porta e lhe dizem que
é Dia Nacional do México- 15 de Setembro- e convidam-no a pedir
alguma coisa para festejar. O arquitecto, profundamente
fragilizado, julga que estão a gozá-lo, mas lá lhes pede um
whisky em copo de vidro e com gelo, da marca que costumava
beber. Algumas horas mais tarde, passam-lhe a bebida através da
janela. Fascinado e incrédulo, Gutierrez agarra o copo gelado
com volúpia, encosta-o ao queixo dorido e mal cicatrizado, e
aspira o cheiro a álcool com prazer, mas quando está quase,
quase a dar o primeiro gole, ouve no mais profundo do seu íntimo
uma voz que lhe pede: “ Dá-mo!”
E trava-se então um emocionante diálogo
interior, entre ele e aquela que para ele é a voz de Cristo.
“Dá-mo!” “Não posso! Isto é a única coisa que tenho! Já dei
tudo…eles tiraram-me tudo!” “Dá-mo!” repete a voz, insistente. E
Gutiérrez, encostado à parede, com o copo atrás das costas para
que não vejam o que está prestes a fazer, arrasta-se
penosamente até à fossa e de repente, ali despeja o copo de
whisky. Em seguida deita-se e dorme um sono profundo e
reparador. Ao acordar, sem bem perceber como, sente-se outro.
Diz então para si mesmo: Afinal não sou “ un maricón” e não
estou sózinho! Tenho Cristo comigo e hei-de sair daqui. A minha
família não me abandonará!
Pega na esferográfica, desenha uma cruz na
parede, e num papel, começa a delinear um plano de
sobrevivência. Traça três colunas e ao cimo da primeira escreve:
Saúde física; na segunda, saúde mental e na terceira, qualquer
coisa como, metas a atingir.
Por baixo do título “saúde física” escreve
higiene, alimentação e desporto. Pede-lhes um “kit” de limpeza e
durante horas lava até à exaustão a “pocilga” onde vivera até
então. Depois, como lhe dizem que o querem manter de boa saúde,
pede uma alimentação extremamente simples e frugal, porque não
quer engordar, pois precisa manter-se saudável para conseguir
escapar dali quando possível. Com o mesmo objectivo, começa a
fazer desporto, correndo no mesmo lugar, estendendo os braços e
pernas, e subindo e descendo apoiado nas paredes laterais.Com a
pouca água do jarro, no final dos exercícios, toma diariamente o
“ banho” possível. E pouco a pouco, começa a criar rotinas que
lhe permitem manter a saúde mental e física., inventando um
estratagema para calcular o tempo, pois entretanto dera conta
de que sempre estava a ouvir uma mesma sequência de oito
cassettes, às quais atribui então uma determinada duração e
assim consegue estabelecer um horário e um programa de vida.
Pede uma Bíblia, mais tarde “ As Confissões” de Sto Agostinho, e
entretanto apercebe-se de que ao longe se ouve um sino de
Igreja. E quando o ouve, senta-se a um canto e imagina que está
a acompanhar a Missa nessa Igreja e reza no seu íntimo como se
estivesse a assistir acompanhado da mulher e dos filhos.
E Gutiérrez interrompe a narração para
comentar: “…talvez vocês pensem que eu era um tipo muito
religioso, ou beato, mas não, é que talvez não acreditem, mas eu
precisava mesmo daquele tempo de oração…era A í que eu ia buscar
energia todos os dias!”
Na véspera de Natal, os guardas
perguntam-lhe se quer fazer algum pedido. E ele diz-lhes que só
quer cumprimentá-los e rezar com eles um Pai - Nosso. No dia
seguinte, assim acontece, mas apenas através do postigo e com os
seus cinco guardas- quatro homens e uma mulher- sempre
encapuçados. No final, um por um, estendem-lhe a mão. E um deles
pergunta-lhe: “ Sr. Gutiérrez, onde vai buscar tanta energia?”
… O metro quadrado já vai longo, por isso
vou encurtar .
Gutiérrez não foi resgatado, apesar das
muitas negociações, mas ao fim de nove meses consegue fugir
numa manhã, em que ouve a conversa entre dois guardas. Um vai
sair de turno e tomar banho, enquanto o substituto lhe diz que
tem de ir rapidamente mandar um fax, mas não demorará. O
arquitecto foge, salta um muro, entra em casa vizinha, atravessa
ruas, depois mete-se num táxi, diz que está muito doente e pede
que o levem ao hospital mais próximo, onde conta tudo e daí o
levam a casa. Irreconhecível, cabelo pelos ombros, barba até ao
peito, roupas esfarrapadas…assim caminha ao encontro da mulher e
dos seus sete filhos…
Por que razão vos conto isto?
Brevemente decorrerá na nossa cidade de
Lisboa, depois de Paris e de Viena de Áustria, o ICNE,
Congresso Internacional da Nova Evangelização, já anunciado por
todo o lado. Nós, católicos, somos chamados a participar, a
deixarmo-nos reconverter e entusiasmar, para irmos e levarmos
amigos, conhecidos e desconhecidos, cristãos e não cristãos,
agnósticos e ateus, para vermos, ouvirmos e falarmos do Cristo
que ilumina os nossos dias. Às vezes, circunstâncias da vida
até bem menos penosas do que as que aquele homem enfrentou,
fazem-nos desmoralizar e abater.
Mas se aquele homem na temível situação em
que se encontrava, se conseguiu reerguer e sobreviver , ao ponto
de os seus raptores, impressionados, quererem saber donde lhe
vinha tamanha força, dando um imenso testemunho de Fé em Cristo
e de vida cristã,
então é porque vale mesmo a pena ir à
procura do Cristo que continua vivo entre nós!
Vá lá, venha daí, informe-se…não fique de
lado…vamos todos ao Congresso do ICNE! |