O dia chegava ao fim, depois de grande actividade e
inúmeros acontecimentos e por isso, o cansaço era muito. Olhei o relógio, dei conta de que já era 5ª feira – aliás,
dia dos 25 anos do meu filho João! - recostei-me no sofá, semicerrei os olhos e
com uma réstia de lucidez ainda pensei que me faltava revisitar “ A viagem”
(“Contos Exemplares” de Sophia de Mello Breyner ), para preparar uma acção de
formação da ACMedia na 6ª feira, para alunos do Secundário (“Educar para os
Media, hoje! A questão da Televisão!”) . Talvez me pudessem ser úteis, algumas
daquelas ideias...caminhar por uma estrada...ir de viagem... Estendi o braço, peguei no livro, li as primeiras páginas,
saltei outras e já muito ensonada, aproximava-me do final, daquele momento de
intenso e belíssimo dramatismo, quando as duas figuras centrais estão prestes a
cair no abismo...e de repente, dou comigo própria, angustiada, à beira dessa
mesma estrada, gritando, acenando e esforçando-me quanto podia, para que uma
imensa multidão de gente nova, que ali passava, me ouvisse e parasse, mas em
vão...Um ou outro ainda parecia querer dar-me ouvidos, e aproximava-se,
estendendo-me a mão, mas logo depois era arrastado por muitos que caminhavam
apressados...Riam-se todos de mim, conversavam entre si, animadamente e uns
atrás dos outros davam-me violentos encontrões, como se me quisessem fazer calar
e esmagar, rindo, rindo, sem fim – AH, AH, AH – para logo em seguida se
precipitarem, inconscientemente, nesse mesmo abismo de que eu tanto queria
avisá-los...e afastá-los...PAREM! PAREM!... Acordei finalmente do meu pesadelo e apercebi-me então,
aliviada, de que eram mais do que horas de me ir deitar e dormir sossegada,
porque a noite ainda ia a meio... No dia seguinte, porém, compreendi a razão do meu
pesadelo. Na verdade, na véspera, 4ª feira, eu tinha tido a
oportunidade de assistir ao magnífico encontro internacional sobre “Televisão,
Violência e Sociedade”, promovido pela Pro Dignitate em conjunto com a
Sociedade Científica da UCP e a Cinemateca Portuguesa e numa sala repleta de
gente até meio da tarde – ao contrário do que as imagens televisivas terão feito
crer a muito boa gente que lá não esteve! – pude ouvir excelentes conferências e
oportunas tomadas de posição. Eduardo Lourenço e Manoel de Oliveira, além dos convidados
estrangeiros, entre os quais a própria Rainha de Espanha (ai, ai, ai...já estou
a ouvir os lamentos dos defensores dos centros de decisão no nosso país...mas
pronto, não importa para o caso...a Rainha falou bem, foi breve, pragmática e
concisa e qualquer dia vai lá a Espanha, a nossa primeira
Dama, fazer uma coisa parecida!) fizeram excelentes apresentações e por isso,
para além do nosso aplauso, bem merecem ter os seus textos divulgados! Porém, da parte da manhã, os trabalhos prolongaram-se e
não foi possível à Dr.ª Maria Barroso, como se compreendia aliás, dar a palavra
a toda a audiência, que pretendesse fazer algum comentário, em qual número eu me
encontrava. Tive pena, e bem pus o braço no ar, porque eu queria exactamente
insistir na necessidade de preparar os jovens para verem programas de televisão
com inteligência, com critério e queria até aplaudir o Dr. Emídio Rangel (o que
raramente posso fazer!) que, apesar de continuar a dizer que quem tem obrigação
de educar são só as famílias e as escolas (e certamente que não podem jamais ser
desresponsabilizadas, concordo totalmente!), acabou por afirmar ali, perante
todos nós, a sua concordância com a necessidade da existência de um código ético
ou matriz aceite e respeitada por todos os canais...para evitar determinadas
perversões... E para se saber melhor o que se passou nessa interessante
e feliz iniciativa do colóquio de 4ª feira, remeto-vos desde já, para os
magníficos artigos de
Bénard da Costa no Público e de
João Carlos Espada no Expresso! A não perder! Mas como ia dizendo, de facto, a angústia do meu pesadelo
já estava explicada, só que o que eu não sabia é que ele era também uma espécie
de antecipação e preparação para o que se seguiria: a tal ida a uma escola
Secundária, nos arredores de Lisboa. Aí, logo à chegada, acompanhada de três dos meus colegas,
voluntários nestas acções de formação para os media, pude ouvir um comentário
entre alunos – “Ah! Estes devem julgar que o Lar de Idosos é aqui, mas estão
enganados...” Devo dizer que não nos importou, pois estamos habituados a
excelente acolhimento em todas as escolas onde temos ido e por isso, seguimos
tranquilos, para um auditório onde nos esperava uma pequena multidão de gente
nova, aparentemente pouco interessada em debater a possibilidade de ver
televisão de um modo diferente, desmontando os processos pelos quais somos
seduzidos, nem tão pouco evidenciando particular curiosidade em conhecer os
efeitos da violência sobre o comportamento das crianças e dos jovens... Ali estávamos nós, sozinhos, no meio deles, decididos a
mostrar-lhes que há um abismo do qual ainda é possível afastarmo-nos, se
quisermos...Sabemos que as nossas palavras não são populares e fazem pensar, mas
ao vê-los olharem-nos como a uns dinossauros, lembrei-me do meu pesadelo e
simultaneamente de Manoel de Oliveira, lá na Conferência Internacional, quando
dizia“...as audiências fazem as moralidades de hoje e enchem os bolsos de quem
as explora e por um fenómeno de habituação tornam o impróprio como próprio...e
assim vamos nós atrás, como meninos inocentes!...” A sessão acabou por correr melhor do que o início fazia
prever, mas não posso deixar de resumir aqui a última questão deixada por uma
jovem dos seus 15 anos, já em diálogo de pequeno grupo, quando estávamos de
saída “ Mas para que serve um canal 2 que ninguém gosta e ninguém vê...se as
pessoas afinal só querem Big Brothers e Toys?” Ora é exactamente aqui que se coloca, a meu ver, e assim
lho disse, a responsabilidade educativa das televisões. Se só dermos programas
de má qualidade, com conteúdos de baixo nível, brejeirice e violência, desde os
mais novos aos mais velhos, todos se habituarão e perderão, à medida que o tempo
passa, a sensibilidade, a sensatez e o bom-gosto, e todos se converterão em
gente embrutecida, sem ideias, sem ideais e sem valores... Razão tinham aqueles prestigiados conferencistas ao
dizerem que neste nosso tempo “ (...) parece que preferimos viver num Las Vegas
permanente” em vez de agarrarmos a realidade com ambas as mãos, a conhecermos e
transformarmos para fazermos um mundo melhor, onde todos possamos viver em paz
uns com os outros, e parece que “ encontramos no efémero uma espécie de
plenitude (...). ” Como pudemos chegar a este ponto?” perguntavam-se e
perguntavam-nos. Vale a pena pensar! Curiosamente, no sábado, num pequeno infantário do Cacém,
fui encontrar um grupo de pais e educadoras, altamente interessados em toda esta
temática, conscientes de que a formação dos filhos, ainda bem pequeninos, passa
exactamente pelo bom uso de todas estas ferramentas pedagógicas que incluem a
televisão e os livros! Saí dali cheia de esperança! Comentários,
críticas e sugestões : fonsecas@netcabo.pt