A maré negra trazida pelo desastre do petroleiro “
Prestige” apossou-se de quase todo o espaço e tempo da nossa Comunicação Social,
ao longo desta semana. Veio juntar-se aliás, à negrura do panorama político e
económico nacional, tendendo a enraizar em nós tendências depressivas, já de si
tão próprias dos tempos de vacas magras. Hoje porém, queria falar-vos de uma outra maré negra, que
põe de luto tantas e tantas famílias, de forma brutal, precoce e inesperada e
que a todos nos diz respeito. É hora de abrirmos os olhos! Efectivamente, o problema crescente do aumento de consumo
de bebidas alcoólicas e drogas entre adolescentes e jovens – a que aliás, o
Dr.
Pedro Strecht faz referência num excelente artigo do Público desta semana ! – é
altamente preocupante e está directamente relacionado com essa mancha não menos
negra, que é o incrível número de acidentes rodoviários de que Portugal tem
vindo a ser, tristemente pioneiro, nos últimos anos. Sabia que só este ano, já houve mais de 1.000 mortos nas
estradas de Portugal, e mais de 3.500 pessoas gravemente feridas, assim como um
total de mais de 41.000 envolvidas em acidentes de viação( DN on-line) ? Sabia
que estes números já são superiores ao ano transacto e continuam a subir? Haverá sempre, por certo, outras abordagens possíveis, que
distribuem culpas e responsabilidades, entre pessoas, instituições, estradas,
carros e condições atmosféricas. Uma porém, me parece fundamental: trata-se da
questão da Educação para a Responsabilidade. E neste campo, há seguramente,
muitíssimo a fazer! Na verdade, querer divertir-se e conhecer gente, sair à
noite, ir a um bar beber um copo, estar com amigos e amigas, ter namorado ou
namorada, ir ouvir música, dançar, pedir e dar boleia a conhecidos, tudo isto é
natural e faz parte do relacionamento e do percurso normal dos jovens. É verdade
que estas saídas à noite, sempre implicaram mais riscos, mas nunca como hoje,
por muitas e variadas razões, a sensação de insegurança e medo entre os pais,
foi tão grande e tão justamente compreensível (viram por acaso, a reportagem na
televisão sobre a noite dos nossos jovens?). Entra pelos olhos adentro de qualquer um, que as famílias
só por si, não conseguem resolver o problema! É preciso legislar e pôr limites concretos à ganância dos
que exploram os maus hábitos sociais (porquê começar as saídas nocturnas só
depois da meia-noite, por exemplo?) e as fragilidades dos jovens, vendendo-lhes
– legal e ilegalmente – o que quer que seja, a qualquer hora da noite, a
pretexto de que cada um tem de conhecer os seus limites e é livre de fazer o que
muito bem lhe apetecer... É preciso pôr cobro à irresponsabilidade (Através de
“Escolas de Pais” e “Orientação Familiar”?) de muitos de nós, Pais – sempre
demasiado ocupados e distraídos - que muitas vezes, até em idades demasiado
precoces ( já se anda na noite com 12 anos!), acabamos por dizer a tudo que sim,
só para evitarmos os conflitos e incómodos dum não firme e dito a tempo, mesmo
quando parece que “ a maioria” dos outros Pais concorda... É preciso pôr travão à obsessão das velocidades (até que
ponto relacionada com os jogos de vídeo e computador?), ao exibicionismo dos
nossos filhos e dos filhos dos outros, quando guiam sem carta, só para mostrarem
o último modelo que o Pai comprou...ou para provar a sua louca perícia perante o
pasmo dos pares e namoradas... Em todos os tempos, os jovens passaram por estas fases de
afirmação pessoal e busca de admiração dos outros, mas a questão do sentido de
responsabilidade, o reconhecimento de um mínimo de regras e limites e a noção de
respeito pela vida própria e pela dos outros, era algo de tão importante, que se
procurava viver e transmitir em casa e na escola. Hoje, mais do que nunca, urge antecipar perigos e deles
informar os nossos filhos, numa Educação que reduza os comportamentos de risco e
os prepare de facto, para uma Liberdade Responsável! Todos temos alguma coisa a ver e a fazer em todo este
processo. Ninguém se pode alhear ou pensar que o problema não é seu! Pertenço ao grupo dos que defendem que faz bem pensar na
Morte para melhor aproveitar a Vida, por isso acredito que rapidamente e em
conjunto, temos de tirar lições concretas de toda esta mortalidade nas nossas
estradas. É urgente debater casos, causas e consequências,
estratégias possíveis e meios a utilizar, em casa, na escola, nas associações e
autarquias e nos meios de Comunicação (sabemos como a televisão pode ajudar e
tem ajudado a consciencializar, mas não poderá fazer um pouco mais?). É urgente providenciar no curto e médio prazo, a nível das
diversas instâncias, para evitar tamanha calamidade. É preciso fazer campanha em defesa da Vida – em todos os
seus estádios- de muitas e variadas maneiras, já! Novembro é, tradicionalmente, tempo de recordar os nossos
mortos mais queridos, sejamos crentes ou não, e chorar por eles é humano, é
natural, e até faz bem...mas a melhor forma de honrar a sua memória é
seguramente, lutando com todas as nossas forças pela Vida e Vida com Qualidade
dos que ainda aqui peregrinam!