Tudo começou com os leões...Acabadas as pinturas de uma
parte da nossa casa, o fim de semana parecia o momento ideal para passar
decapante e encerar os tacos do chão riscado...de joelhos, com cera e esfregão,
estava eu entusiasticamente (!) toda entregue à minha nova tarefa, eis senão
quando me chega um dos meus filhos- em véspera de exames do IB – e me lança uma
dúvida: - “Aqui n’ “ O Velho e o mar”, quando o velho fala nos seus sonhos com
leões, a mãe acha que o Hemingway tinha algum segundo sentido ou qualquer outra
ideia escondida?” Claro que ali de gatas, no chão, às voltas com as ceras e
os lustros, eu não tinha qualquer ideia, nem já me lembrava de qualquer possível
significado dos leões. Fui investigar e por fim, lá voltei ao encerado. Pouco
depois, nova questão transcendental! –“ O´ mãe, e aqui neste soneto de
Shakespeare, em que também se fala das garras dos leões...acha que...?” Bem, com tantos leões à minha volta, pinturas e encerados,
já estão a perceber como o “metro quadrado” desta semana vos vai chegar tão
tardiamente...mas por fim lá consigo começar a escrever e desta vez, gostaria de
vos falar brevemente de uma ida recente a uma escola em Sobral de Monte Agraço,
onde a ACMedia “de braço dado” com o Cenofa (Centro de Orientação Familiar ),
para melhor aproveitar as sinergias – como dizem os respectivos presidentes! -
levou a cabo mais uma acção de formação conjunta, desta vez tratando o tema da
“Educação dos Afectos”. Há sempre quem pergunte logo, se isso faz algum sentido,
se se trata de fazer pura Educação Sexual ou se é assunto só para meninas
(afectos? Parece sentimentalismo e pieguice, não é?)...e nós dizemos sempre, que
basta olhar para o mundo à nossa volta- violência nas escolas, no desporto, na
política, no trabalho, nas famílias e nações, para se perceber de imediato que
alguém tem de começar a fazer alguma coisa no sentido de uma Educação para a
Paz, o que passa por educar os afectos, ensinar a ouvir e compreender, perdoar e
pedir desculpa, dar sem pedir retorno, ajudar sem ficar à espera que nos peçam
ajuda, ensinar a sorrir e a rir, consolar, “ensinar a pescar” em vez de passar
ao lado, indiferente, ou limitar-se a dar do que nos sobra e nem falta faz... em
suma, ensinar a amar, quando isso implica não só sentimento ( ou uma paixão cega
e efémera) , mas inteligência e vontade ao serviço do bem do outro ou dos
outros. A verdade é que, como alguém bem conhecedor do tema me
dizia, há pouco tempo, só educamos as crianças e jovens para o sucesso e para o
bem-estar...cada vez há menos capacidade de resistência às dificuldades,
contrariedades e dores, por isso tantos adultos, jovens e menos jovens, quando
chegam ao casamento e se deparam com os primeiros problemas e desentendimentos,
motivados por falta de dinheiro, dificuldades na comunicação pelo ritmo
alucinante de trabalho, um filho porventura não esperado (!), desemprego, falta
de saúde, entre outros, se sentem incapazes de enfrentar as questões e “agarram”
a solução que todos lhe sugerem como sendo a tábua de salvação mais fácil: o
divórcio! Folheio por exemplo, as páginas de um diário muito popular,
conhecido pelo seu tipo de jornalismo sensacionalista (quase colectânea de
horrores) e encontro uma secção cheia de cartas de desabafo de gente infeliz que
pede conselho. As cartas são, em grande parte, impressionantes! Ou são pura
ficção, algumas delas, apenas para preencher o espaço reservado e aproveitando o
mediatismo da responsável e “conselheira conjugal”, ou se são efectivamente
verdadeiras, só revelam mesmo até que ponto as pessoas precisam de uma
verdadeira educação e reciclagem constante no campo dos afectos. No entanto, o
conselho é quase sempre o mesmo: “saia dessa e depressa!” Tendo estado há pouco, num oportuno curso para técnicos
ligados à prevenção na área da toxicodependência, reparei que houve o cuidado de
falar em Mediação Familiar, como uma intervenção de apoio sobretudo no campo do
aconselhamento familiar, enquanto é possível ajudar ao entendimento conjugal,
por forma a conseguir-se uma superação a dois dos problemas e divisões. Faz pena
de facto, que tantos se decidam pela guerra, quando a paz é possível! A começar
no campo das famílias... Penso também naquele jovem agente da polícia, cuja história
vinha relatada na nova revista deste último Expresso, segundo creio, e recordo a
lição edificante da sua jovem namorada e dele próprio: perante o terrível
desastre em que perdeu parte da face e o nariz, ante um futuro bem difícil e um
presente terrivelmente doloroso, ela diz que quer casar com ele, tal como já
planeavam, porque gosta dele pelo que ele é e vale “ por dentro”...é certamente
uma grande lição para todos nós! (...interrompo esta escrita, para ir à igreja,
porque preciso de parar e de rezar. Sinto-me tremendamente chocada com a notícia
trágica da morte da mulher e filhos do atleta Calado... como se pode aguentar
tamanha tragédia? Que podemos fazer? Como ajudar?...). É a Missa de Domingo, das sete da tarde e está tudo cheio.
Só há um lugar sentado. Mesmo por baixo daquela imagem da Virgem, de que tanto
gosto. Feita pelas mãos mágicas daquela querida escultora, há poucos anos
desaparecida- Maria Amélia Carvalheira – a Virgem tem um Menino ao colo, olha
para Ele, mas parece mesmo que o vai deixar cair... e às vezes até penso : E se
um dia Ele me caísse mesmo no colo? O quê que eu fazia? A Virgem já deve estar
cansada... E também eu, cansada, ajoelho e depois sento-me. Vou
fechando os olhos por breves segundos. Depois volto a abrir e a fechar...a
homilia é sobre a mensagem do Papa e a Paz...cada vez ouço a homilia mais longe.
Desligo da terra por escassos minutos...de repente, alguma coisa me cai
violentamente no colo! Tenho a certeza que disse, talvez baixinho, espero...“
MAS O QUÊ QUE EU FAÇO AO MENINO?” Sobre o meu colo, afinal, estava a minha neta de três anos,
acabada de chegar, agarrando-se ao meu pescoço e confiando-me dois ou três dos
seus tesouros mais queridos. Tinha que ser, claro! Ali estavam os seus leões de
plástico e a maleta de viagem. Foi assim que começamos esta semana, com a Carlota aqui em
casa e os leões em acção!
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