Sentei-me na carruagem do metro, cheia de gente. Ninguém
dava conta, mas ao meu colo e ao meu lado levava a minha pressa e o meu “stress”.
Fechei os olhos, serenei um pouco e pus-me a pensar... Se nesta época festiva, fosse possível juntar os corações
de todos os homens, para formar um único coração infinito, e depois lhe
injectássemos um líquido- o contraste- para conseguirmos ver os seus recantos
mais escondidos, e se, por fim, lhe pudéssemos fazer uma ecografia gigante, se
calhar os resultados seriam espantosos... Provavelmente, descobriríamos que por trás de toda esta
imensa onda de solidariedade de Natal - talvez nem sempre desinteressada...- mas
que se traduz em variados espectáculos e galas em favor dos mais necessitados
,vendas de Natal, distribuição de presentes pelas crianças, ceias para os
sem-abrigo, recolha de fundos, etc., há uma efectiva subida de temperatura no
calor humano, de que tanto carecemos ao longo do ano. Talvez descobríssemos também, que em cada pequeno gesto-
como enviar um cartão de Boas Festas, oferecer um presente insignificante, um
sorriso, um beijo ou um abraço, fazer um telefonema ou uma visita, sentar à
mesma mesa...- dirigido não só aos mais queridos, mas sobretudo aos que se
encontram mais distantes, ou precisamente com quem nos relacionamos pouco ou
mesmo nada, nesses pequenos gestos gratuitos se escondem afinal inúmeros fios
quase invisíveis de um bem-querer desinteressado, espontâneo ou voluntário, com
os quais se tecem afinal as boas relações entre as pessoas e os povos, e se
constrói a Paz nas famílias e entre Nações... Entretanto cheguei à Rotunda e saí, quase levada pela
multidão. Cruzava-me com muitos outros, igualmente apressados, mas também com
gente mais velha, alheada de tudo e de todos, por ali parada aos cantos dos
corredores do metro, talvez à espera de alguém, de alguma esmola, ou
simplesmente à espera de nada... Ia reparando em muitos rostos tensos e sérios. A
passadeira rolante acelerava as nossas pressas. a minha era sobretudo a de
chegar a tempo ao lançamento de um livro, no S. Luís. E deixara tanto por
fazer...presentes por comprar, comidas por cozinhar, roupas por preparar, malas
por fazer, telefonemas...Caminhava e sentia-me dividida entre o gosto e o dever,
o querer parar e o ter de andar, o sonho e a realidade... Volto a entrar noutra carruagem cheia e desejo
ardentemente sair desta cidade que me asfixia e me obriga a correr. Fecho os
olhos de novo e já vejo a Serra de Sintra e os montes junto ao Guincho, como que
docemente arredondados pela curva da mão que os moldou, pintados de mil
verdes...mais além, depois do cabo da Roca, a areia fina e imensa da Praia
Grande e as ondas brancas , enormes... Chego por fim, ao Chiado. Subo os últimos degraus do metro
, a três e três, e entro na belíssima sala do S. Luís, antigo “foyer” hoje
remodelado num feliz misto de velho e novo. Na sala cheia , tomam-se lugares.
Fico num canto discreto. Ouço primeiro, a palavra comedida e feliz da
responsável pela editora Diel ( de parabéns, mais uma vez!), depois a palavra
cheia e exuberante do padre João Seabra, amigo do autor e apresentador do livro
“Querer crer” e por fim, a palavra certa e o testemunho espantosamente comovente
do seu autor, Paulo Teixeira Pinto. Sentada numa bancada lateral, via na minha diagonal, a sua
mulher e filhos e sentia-os comovidos. Eu também. À minha volta, todos escutavam atentos. Da dedicatória
retiro “A quem quer crer e espera a Esperança. À minha família. A S. Josemaria.”
Sinto-me incluída. De regresso a casa, devoro logo metade do livro... Mais uma noite e mais um dia, o tempo urge e eis-nos já
sobre o Natal, ou o Natal sobre nós ( talvez em nós?). Pela Internet recebo as
últimas mensagens antes de deixar Lisboa. Chega-me a boa notícia de que no
Parlamento Europeu, a votação sobre um possível aumento do orçamento para
financiamento do aborto nos países pobres teve como resultado a vitória do
“não”. Pedem-me que divulgue e alegra-me fazê-lo. Recordo, neste mesmo momento,
as entrevistas a diferentes “famosos” no DN magazine do último domingo e reparo
que quase todos são unânimes em referir como exemplo de felicidade máxima o
nascimento dos seus filhos. Relaciono com a notícia sobre o aborto e vejo como,
naturalmente, as pessoas são pela vida! É isso que é natural, aliás! Pois se
nascemos todos com um imenso desejo de eternidade dentro de nós, como é possível
que não nos alegremos com o Nascimento, com a Vida? É por isso que, sendo o Natal, a festa dum Nascimento
especial, ela nunca poderá deixar de ter como razão principal e raiz mais
profunda da sua Alegria, precisamente o Nascimento de Jesus e esta relação
familiar, simultaneamente tão humana e tão divina, de Mãe, Pai e Filho. Um Feliz Natal para todos vós!
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