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m² de 24 de Março de 2003
Sentada no carro, perto da porta do supermercado, espero,
ouvindo notícias. Sempre as notícias. Escuto, triste e atentamente: “...guerra
cirúrgica... reduziremos ao mínimo os efeitos colaterais,... progressos
rápidos”...Sei como as palavras são enganadoras e parecem querer distanciar-nos
da verdadeira realidade que é a Guerra. À minha frente, um rapaz novo, moreno,
de gel no cabelo, olha para mim e ri muito divertido, com o que vai ouvindo no
seu auricular, sentado ao volante de uma enorme camioneta, que transporta em
cima uma escavadora. A camioneta está atravessada no meu caminho, como se a
realidade dele se cruzasse com a minha. E é verdade, só que ambos escutamos
realidades diferentes.
Desde que a Guerra começou, não consigo deixar de recordar
aquele dia já distante- 15 Janeiro 1991- em que terminava o ultimato dos
americanos a Saddam e começava a chamada Guerra do Golfo, por causa da ocupação
do Koweit. A primeira guerra filmada passo a passo, como esta agora. (Foi nessa
noite, exactamente, que a minha Mãe , profundamente emocionada por causa da
guerra, sofreu uma hemorragia cerebral...e entrou em coma...) .
Jornais, rádios e televisões, nacionais e estrangeiros,
esforçam-se por nos manter a par de todos os acontecimentos, enquanto a nossa
vida diária, feita de pequenas coisas, (insignificâncias que nos parecem
grandes, só por serem nossas!) teimosamente nos distrai, porque a vida continua
e tudo se entrelaça de forma inevitavelmente natural e cruel ao mesmo tempo: o
toque do despertador, as notícias no rádio, as corridas matinais, as lancheiras
das crianças, uns beijos apressados, um “zapping” antes de sair de casa, a “
bica” no café da esquina a meio da manhã, onde todos falam da Guerra , mas
também, do Porto e do Boavista, conversas, manifestações, trabalhos no
computador, um breve almoço de pé, no meio de mais notícias lidas nos jornais e
ouvidas nas televisões penduradas nas pastelarias e sempre ligadas, um rápido
“ver as montras” tão feminino! Mais trabalho, depois o regresso a casa, num
trânsito sem fim, encontrões no autocarro, mais notícias, umas compras de última
hora, lida doméstica, reencontro de todos, ternuras distraídas e talvez
demasiado desatentas, ou não, e de novo as imagens da Guerra na televisão, em
todos os noticiários: edifícios esventrados, carros incendiados, sangue que não
vemos mas adivinhamos, feridos e mortos, só poucos, porque a nossa consciência,
ou sensibilidade apenas, não aguenta mais, enquanto os filhos conversam e o
jantar esfria sobre a mesa posta... ...Custa a engolir o jantar. O silêncio
parece sentar-se à nossa mesa.
Lá longe, no longe que a televisão ainda agora nos
mostrava, havia imagens de rostos apavorados, corpos caídos, mortos, feridos,
pedaços soltos de dor, medo, um sofrimento sem fim que não sentimos...mas deixa
em nós um secreto mal-estar, tudo demasiado longe, para quase todos nós, tudo
demasiado perto para todos eles e para os seus familiares...
É noite, é tarde, mesmo muito tarde, fecho finalmente o
televisor, mas não consigo dormir...os filhos podiam ser os meus, os pais e os
maridos, do meu sangue...as mães, minhas amigas...ouço rebentamentos,
explosões...rezo apenas.
...Nestes dias estranhos de incerteza e guerra,
celebraram-se várias efemérides: Dia da Poesia, dia da Floresta, dia da Luta
contra a Discriminação Racial, início da Primavera...e o inesquecível Dia do
Pai, a 19 de Março.
Pego no comunicado da APFN, Associação das Famílias
Numerosas, a propósito desse dia e leio: “ (...) Ser Pai é estar lá quando é
preciso, é estar atento, antecipar necessidades, saber ouvir, limpar lágrimas,
corrigir erros sem tréguas, dizer não quando se impõe, exigir, animar, abrir
horizontes, empurrar com firmeza para ajudar a enfrentar dificuldades
(...)...”Recordo então, um filme que vimos há pouco, aqui em casa, em família,
numa noite de 6ª feira, com filhos e amigas dos filhos, uns no chão, outros nos
sofás, um tanto apertados. “I AM SAM” é um filme lindíssimo, que vale a pena
ver...é uma história de ternura, com alguma inverosimilhança é certo, mas que
trata da luta de um Pai, deficiente mental, para manter consigo uma filha de 7
anos, perfeitamente normal, através do apoio da melhor advogada da cidade (a
belíssima Michelle Pfeiffer) e contra o racionalismo e a frieza das instituições
estatais. O filme é todo ele a história maravilhosa do processo de humanização
de duas pessoas – o deficiente e a advogada – e cada um a seu modo, através da
interacção, melhora e cresce como pessoa, dá e recebe, modifica a sua forma de
ver o mundo e a vida, tudo assente no amor paternal daquele que seria
certamente, e é, no nosso mundo, o elo mais fraco, o deficiente.
Desmontando por completo alguns estereótipos da nossa
sociedade – sobretudo, o do deficiente mental, rotulado de coitadinho e incapaz,
por um lado, e por outro, o da mulher executiva, cheia de sucesso, bonita, rica,
sofisticada, aparentemente cheia de razões para ser feliz, ao contrário do
deficiente...- de diversos modos, bem concebidos e tratados com delicadeza e
sensibilidade, este é um filme que nos faz pensar sobre as relações pais -
filhos, o conceito que temos sobre o que é na verdade ser bom pai/ ser boa mãe,
sucesso profissional/ sucesso na vida familiar, os erros que cometemos em
matéria de Educação, o “stress” em que vivemos e que em grande parte nos torna
incapazes de ternura e infelizes, os preconceitos que temos sobre o mundo do
deficiente mental, os traumas da nossa infância...Enfim, um excelente filme que
aconselho vivamente, para ver em família, rir, chorar, debater e já agora- por
que não?- retirar umas boas ideias para melhorar a nossa vida em família !
Comentários,
críticas e sugestões : fonsecas@netcabo.pt

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