Talvez alguém se lembre
ainda, que na semana passada, vos confessei a minha vontade de vos
escrever sobre outras coisas. Por isso aqui estou, com este “ m2” de
Páscoa !
Achei graça e deixei
ficar pendurado no candeeiro da nossa sala, um mobile de barro (
daqueles que tilintam com o vento) , que uma das jovens de Taizé nos
ofereceu em Dezembro último, como recordação da passagem por nossa casa
de três lituanas, vindas de Vilnius.
Falaram-nos, no dia da
partida, da sua terra, ofereceram-nos postais e contaram-nos, a
propósito de um deles, a história ligada à colina das Cruzes em Siauliai.
Santuário católico e centro espiritual da Lituânia, as mais de 50.000
cruzes que ali se erguem são também símbolo de resistência e coragem,
pois perpetuam a memória dos que morreram em 1831, durante a rebelião
contra as forças ocupantes dos czares russos, que diariamente
arrancavam as cruzes postas pelos lituanos, sem que no entanto os
conseguissem demover, já que os lituanos sobreviventes voltavam a
colocá-las durante a noite.
Sento-me no sofá, no
regresso de casa do João e da Inês, e não tenho sono.
Olho para o mobile de
barro à minha frente e penso nas cruzes da Lituânia, onde nunca fui. Ao
mesmo tempo, recordo a “Paixão de Cristo” de Mel Gibson, que acabo de
rever. Vejo as cenas finais no Monte Calvário, três cruzes, e Jesus,
desfigurado, com o corpo em chaga, crucificado entre dois ladrões ...
Para melhor prepararem
esta Quaresma, o João e a Inês, jovens recém-casados, resolveram passar
o filme em casa deles e convidar um grupo de amigos igualmente jovens,
três casais mais velhos( os pais) e um padre amigo. Nem todos conheciam
o filme. Por isso houve uma apresentação prévia, cheia de pormenores -
porMaiores! - interessantes acerca das filmagens e dos seus múltiplos
contratempos, das conversões que se deram durante todo esse tempo e dos
motivos profundos e sérios que moveram Mel Gibson. No final do filme,
depois de um silêncio comovido difícil de quebrar, estabeleceu-se um
diálogo rico de interpelações à nossa forma de sermos cristãos no mundo
em que vivemos.
Chegámos à conclusão de
que na verdade, frequentemente somos cobardes como Pilatos e fugimos
como os discípulos e os apóstolos...Recebemos tanto e damos tão pouco!
Quereríamos talvez, um
cristianismo sem cruz, sem dificuldades, um cristianismo mais à medida
de cada um, que não nos incomodasse, nem nos obrigasse a desinstalar do
nosso comodismo egoísta! Umas esmolas, alguma oração, umas idas à igreja
de quando em vez, uns gestos de paz e uns rituais estetica e
sentimentalmente apelativos, mas rápidos, e pronto! Sobretudo,
preferíamos mesmo que não nos falassem de Confissão, nem de pecados
pessoais, daqueles que nós fazemos diariamente , com uma leviandade e
uma insensibilidade crescentes!
Vim para casa (
envergonhada, confesso!) a pensar em tanta coisa...
Entre outras, também no
escândalo e polémica que estalou à volta do anúncio que um padre pôs em
jornais, com dinheiro emprestado, a dizer que não tinha outro meio de
chegar ao grande público e que queria informar que, com base no artigo
tal e tal do Código Canónico, não podia continuar a dar a Eucaristia a
católicos que laborassem numa série de erros, a saber: defender o
aborto, a sua despenalização, tomar a pílula do dia seguinte ou
aconselhá-la, recorrer a técnicas de reprodução artificial, etc, etc.
Apelava também ao seu arrependimento e mudança.
E pensei que nunca
ninguém se insurge contra as inúmeras páginas de anúncios nos jornais
diários convidando escandalosamente à prostituição e pornografia, mas
porque este anúncio de um padre põe em causa comportamentos e convicções
actuais de muitos de nós, católicos, sentimo-nos altamente ofendidos e
chocados. E nós , que em cada dia, tantas vezes atraiçoamos o mandamento
do Amor, sem dó nem piedade ( troçando dos outros, prejudicando-os,
criticando, espezinhando para subir, procurando o conforto pessoal acima
de tudo...), logo nos queixamos da falta de Caridade deste padre,
acusando-o, entre outras coisas, de loucura e de ânsia de
protagonismo...
É verdade que a ideia
de pôr um anúncio sobre estes temas, reunindo-os assim por atacado, é
original e “bizarra” em Portugal, mas nos EUA tem sido muito usada nos
últimos tempos, até por altos membros da hierarquia da Igreja, para
esclarecer posições semelhantes . Por outro lado, não deixa certamente,
de ser bastante embaraçoso, para os seus superiores e colegas, ver um
padre tomar esta atitude “ em roda livre”!
No entanto, por mais
discutível que seja o meio e a forma , estou em crer que acima de tudo,
este sacerdote - que há tantos anos conheço como um dos mais fiéis e
corajosos lutadores pela vida de quem não se pode defender, e por isso
lhe estou tão grata ! - mesmo antecipando provavelmente que iria ser
incompreendido, insultado e “trucidado”, pretendeu acima de tudo alertar
as nossas consciências para a gravidade e incoerência das nossas
posições e vidas, e criar uma oportunidade para que a Hierarquia da
Igreja Portuguesa- à semelhança do que esta já fez há cerca de um ano
atrás com a excelente nota do Episcopado sobre a defesa da vida - possa
vir agora explicar ao comum dos leigos aquilo que é doutrina da Igreja
sobre temas morais, difíceis certamente, mas sobre os quais a Igreja não
pode ter posições ambíguas, ou deixar-se levar pelos ventos de modas...
Ninguém pode duvidar de
que com cada pessoa, com a sua situação individual e os seus erros
pessoais, há que ser profundamente compreensivo, misericordioso e
humano, Sempre! Mas no plano dos princípios e orientações morais, a
Igreja só pode ensinar o caminho da Verdade e da Santidade.
Os princípios estão
todos nas várias encíclicas ( Humanae Vitae, Evangelium Vitae,
Familiaris consortio, Carta às Famílias em 1994 , etc) e no próprio
Catecismo da Igreja Católica, mas nós que não arranjamos tempo nem para
ler estes assuntos, nem para rezar sobre eles, ocupados que estamos,
uns com sobreviver e outros com gozar a vida, frequentemente preferimos
uma Igreja mais simpática ,que perceba as nossas dificuldades e baixe a
fasquia da santidade...
...volto ao filme e
recordo uma breve cena em “flash-back” : Maria, Mãe de Jesus, vê o seu
filho na oficina de carpintaria a fazer uma mesa de madeira e chama-O
para comer. Pergunta-lhe se não tem fome e diz-lhe- como as mães dos
meninos pequenos e grandes de todos os tempos costumam fazer!- “vá lá,
vem comer, tira esse avental e vai lavar as mãos!”
Sabem? O que me parece
é que o sacerdote do anúncio só queria mesmo, num tempo em que somos
chamados a opinar sobre temas fortes e actuais, como o aborto e a
eutanásia entre outros, que percebêssemos todos, urgentemente, que
também para receber o Alimento da Eucaristia - Corpo e Sangue do Senhor
Jesus- nós, católicos, que n’Ele acreditamos e que sabemos que
Ele deu a vida para nos salvar- só nos podemos aproximar do altar
depois de nos “lavarmos” pelo Sacramento da Confissão e se “vestirmos”
a alma com o “traje” próprio da conversão e arrependimento.
Ninguém gosta de ser
censurado em público, e talvez por isso nos tenha custado tanto !
De qualquer maneira, já
agora, e para terminar, deixem-me que vos descreva um outro anúncio que
há alguns anos passava numa cadeia de televisão americana :
sucediam-se várias
cenas a cores , mostrando banquetes sumptuosos, festas fantásticas,
carros de luxo, gente muito bem vestida ; a seguir , aparecia apenas uma
frase curta, mais ou menos com estas palavras- “num tempo em que a
maioria não prescinde de nada, fazem falta alguns que prescindam de
tudo”- depois o ecrã ficava negro e ao centro, a branco, apareciam
apenas duas mãos de sacerdote elevando um cálice no ar e por cima uma
hóstia . Por baixo, a morada de um Seminário católico.
Certamente também muita
gente terá criticado, ou ter-se-á sentido atacada, mas ninguém terá
ficado indiferente. A mim, comoveu-me e tocou-me .
É muito tarde! Volto a
olhar o mobile de barro...é isso mesmo: somos todos feitos de um mesmo
barro tão frágil ...
Boa Páscoa para todos
vós!
Comentários, críticas e
sugestões : fonsecas@netcabo.pt