Num tempo
simultaneamente de louvores e duras críticas à comunicação social,
provenientes de diferentes sectores políticos e não só, pelo seu
incontestável papel de relevo no que toca à descoberta de verdades,
erros e injustiças, mas também, entre outros motivos, pelo desgaste
contínuo de instituições e pessoas, permanentemente submetidas a
invulgar “bombardeamento”, fui encontrar no Montepio Geral, numa revista
da própria instituição, uma interessante entrevista com a Profª de
Economia, Doutora Manuela Silva, intitulada “Em defesa da globalização
regulada, da cidadania e da solidariedade”.
A meu ver, ali se põe
e muito bem, o dedo na ferida ( ou em várias feridas)!
A propósito da boa
pergunta “ se o homem é um ser ético, porque é que o mundo virou
selva?”, a Profª Doutora Manuela Silva, depois de referir vários
aspectos negativos e positivos do chamado progresso da Humanidade, diz
no entanto, que também Portugal tem evoluído muito “ no fortalecimento
da sociedade civil e no seu envolvimento em processos de humanização” e
que não se pode esquecer que “todos os dias se recriam novas energias de
aperfeiçoamento da nossa Humanidade, sem esquecer o alcance dos gestos
ignorados de beleza e de bem de muitos milhões de seres humanos”. E
acrescenta que sempre assim foi, só que “ o que parece ser novo nos
nossos dias é o efeito dos media que, por sistema, ignoram e silenciam a
face positiva da realidade, para fabricar a notícia com o lado mais
negativo da mesma”.
É também essa a
minha opinião e por isso, várias vezes aqui tenho deixado um desafio: É
preciso dizer bem! E seguramente é possível fazer um jornalismo mais
positivo! E há quem o faça...só que é sempre mais visível o negativo,
porque vende mais!
Enquanto esperava a
minha vez, continuei a folhear a revista e deparei com o testemunho de
vários artistas sobre o Natal. E achei particularmente interessante, a
referência do poeta José Fanha, bem conhecido a partir do 25 de Abril,
que diz que “voltou a encontrar a magia (ou antes, o sentido?) do
Natal” agora com os seus quatro filhos, pois recordando a sua infância,
como filho de pais divorciados, ele lamenta essa “ ausência de família”
e fala do Natal de então “ como um momento um pouco angustiante”, uma
vez que frequentemente o passava com pessoas que não conhecia e recebia
presentes que pouco se “ajustavam”...
Vinha eu pela rua fora, pensando exactamente nessas imensas( hoje muitas
mais!) famílias em sofrimento e olhando a profusão de iluminações de
Natal e a quantidade de Pais Natais a marinharem pelas janelas e
paredes das casas- em substituição das bandeiras portuguesas desde o
Euro 2004, já um tanto debotadas e rasgadas - quando dei comigo a pensar
que de facto, entre nós, portugueses, sempre permaneceram resquícios dum
endémico Sebastianismo .
Se calhar, este Pai Natal vistoso, a trepar pelas mansardas e janelas,
embora fruto de influências alheias, também no fundo traduz esse sonho
distante que todos alimentamos:
sonho de um tempo novo, mais do que cheio de coisas vistosas que tão
cega e afadigadamente acumulamos e nada valem, cheio de paz, amizade e
alegria, um tempo em que nos sintamos seguros, em casa e fora dela,
confiantes e bem governados, trabalhando para um progresso colectivo e
nacional, liderados por alguma mão credível e desinteressada, e que
defenda os valores da Vida e da Dignidade da Pessoa em que acreditamos .
Quero continuar a dizer bem, e falando de bom jornalismo e de sonho,
vem-me à memória a interessante entrevista que o escritor Amin Maalouf
deu a Ana Sousa Dias, na 2, e que merecia um horário mais nobre e mais
audiência.
Aliás, Ana Sousa Dias é uma excelente jornalista, cuja preparação,
atitude e serenidade na forma como conduz as entrevistas, nunca é de
mais salientar !
Amin Maalouf, libanês cristão, de 55 anos, assume-se como um “workaholic”,
trabalha em 6 ou 7 livros ao mesmo tempo, nunca faz férias, e acredita
que estudando e aprofundando cada período da História através da vida de
personagens que ele vai escolhendo, contribui para um melhor
entendimento do nosso tempo presente. Mais recentemente, escreveu dois
libretos de ópera, com enorme êxito, e acaba de publicar um novo livro
“Origens”. Curiosamente, esta é a história da sua própria família, que
ele pesquisou minuciosamente, como uma comovente homenagem a dois
libaneses representativos de duas formas de luta pela vida : o tio-avô
Gebrayel ( Gabriel), que aos 18 anos resolve emigrar, e por alturas da
Guerra de 1914-18, parte à aventura, para fugir à fome e acaba por
fazer fortuna em Cuba, e o avô, Botros( Pedro), que apesar de
repetidamente chamado pelo irmão, decide ficar nas montanhas do Líbano,
fundar escolas de aldeia, e através da Educação, como professor, lutar
pelo desenvolvimento da sua terra e das suas gentes. O avô era um
idealista: defendia um verdadeiro ensino de qualidade para todos e tinha
uma profunda esperança numa sociedade tolerante capaz de aprender, pela
Educação, a respeitar diferentes profissões de fé e culturas, numa
coexistência verdadeiramente pacífica.
É também dessa Paz que se fala em tempo de Natal, mesmo quando ela
falta em tanto lugar da terra! Por isso vo-la desejo, de todo o coração,
a cada um de vós, e às vossas famílias !
Que o Menino Jesus vos encha da Sua Paz e Alegria! Bom Natal!
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