Não é possível ficar
indiferente, fechar os olhos, olhar para o lado, ou simplesmente mudar
de canal, perante a tragédia que se abateu sobre os habitantes da
pequena cidade de Beslan, na província de Ossetia do Norte, na Rússia.
Não é possível pensar
que tudo se passou e passa, lá tão longe, que não nos diz
respeito...hoje são eles o alvo inocente escolhido, como ontem já foram
tantos outros....e como amanhã poderemos ser nós próprios e os nossos.
Das imagens e narrativas
de alegrias, esforços, sucessos e decepções nos Jogos Olímpicos de
Atenas, depressa acordámos ao som destas terríveis notícias, desta vez
ainda mais chocantes por serem crianças as principais atingidas.
Entretanto, no fervilhar
dos acontecimentos familiares, das notícias nacionais e internacionais,
e enquanto hoje me esforçava por lutar contra um certo entorpecimento
mental, e procurava passar ao papel, sem mais adiamentos, um pouco do
que me vai na alma, recebo um telefonema de um jovem alentejano, de quem
já vos falei e que conheci numa destas nossas idas às escolas.
Falava-me ele, o João,
muito indignado, a propósito de toda esta polémica do “barco do aborto”
e perguntava-me se o Cenofa, Centro de Orientação Familiar, não ia
intervir em defesa da vida, pois tinha estado a ouvir um programa de
televisão em que uma holandesa ensinava explicitamente as mulheres
portuguesas a abortarem de forma “simples e segura”, utilizando
medicamentos autorizados em Portugal.
Achava ele , e creio que
com razão, que têm sempre mais tempo de antena os “outros” do que nós...
Expliquei-lhe então, que
o Cenofa não foi criado propriamente com o objectivo de defender a
vida, mas sim para dar apoio às famílias na educação dos filhos e no seu
relacionamento interpessoal ; no entanto, a defesa da vida sempre
esteve, está e estará implícita em todas as nossas acções, já que
consideramos a Vida como o maior Bem e os filhos como o maior Dom que um
casal pode receber! Por isso sempre o Cenofa foi contra o aborto e assim
continuará a ser, defendendo uma paternidade responsável, bem como uma
política de ajuda às famílias mais frágeis, a aceleração e incentivo
dos processos de adopção e apoiando ainda, incondicionalmente as
Associações pró- Vida no seu meritório trabalho.
Brevemente, o João virá
estudar para uma Universidade em Lisboa e quer ajudar o Cenofa.
Obrigada, João! Contamos consigo!
Há dias, quando começou
esta autêntica encenação da vinda do barco, uma das minhas filhas, de
20 anos, antecipando argumentos que ultimamente têm sido invocados por
muitos em brilhantes artigos , comentava , convicta, “ ... a Mãe já viu,
se a moda dos barcos pegasse , o que seria? E se agora viesse para aí um
barco com defensores da pena de morte, ou então outro com defensores da
eutanásia, a convidarem os portugueses a verem-se livres de quem mais os
incomoda, ou a aliciarem os mais angustiados e solitários a embarcarem
e “resolverem” os seus problemas de vez??? Cá por mim, fez o nosso
Governo muito bem em não deixar entrar o barco ! Então é assim que se
mudam as leis, com pressões deste tipo???”
Subscrevo a mesma
opinião e aqui deixo os parabéns ao Governo!
De resto, voltando ao
debate de ideias e pondo de parte as manobras políticas bem visíveis em
todo este caso, mesmo sabendo que sempre haverá quem faça abortos, em
melhores ou piores condições, por muito que custe a uma mulher encarar
uma gravidez – e refiro-me a razões de saúde e circunstâncias
socio-económicas efectivamente reais, graves e angustiantes que não
podemos ignorar! – a solução a propor por quem verdadeiramente queira
ajudar estas mulheres, não pode ser “ eliminar” o “problema” acabando
com uma vida, qualquer que seja o seu estádio de desenvolvimento.
Interromper uma gravidez
é a saída mais fácil e tentadora, certamente, mas é sempre tirar uma
vida, ou seja matar um ser inocente e indefeso . Mesmo que os homens
modifiquem as leis a seu belo prazer, o que está mal e é intrinsecamente
errado continuará a sê - lo, em todos os tempos, independentemente do
que está escrito na lei ou do número dos que o fazem e apoiam!
Há muito a fazer, sem
dúvida, e aí TODOS temos culpas e responsabilidades - governe quem
governar ! – e há trabalho para TODAS as Associações, actuais e futuras,
tanto as mais empenhadas directamente no apoio às mães e bebés, como as
que se preocupam com aspectos de formação profissional das mulheres,
conciliação família- trabalho, assistência social às famílias mais
carenciadas, apoio em creches e ATL ‘s e orientação de crianças e
jovens. E também nas escolas, nos hospitais, nas ruas, nos meios de
comunicação. Criar emprego, ocupar gente nova sem gosto pelo estudo,
fomentar desde pequeninos, uma nova filosofia de vida mais saudável e
menos consumista, dar ajuda às famílias em crise e aos jovens casais,
lutar contra a violência doméstica, o álcool e a toxicodependência, e
também, contra esta verdadeira obsessão pelo sexo , que inunda as
distracções oferecidas pelo cinema e televisões, a todas as horas do
dia, - como se quase mais nada de interessante e útil houvesse para
debater e fazer...Passou-se de um extremo ao outro: dum silêncio feito
de tabus e proibições para uma despudorada e ditatorial omnipresença do
sexo, como se fosse um brinquedo, vazios que estamos da busca de um
outro sentido da nossa existência!
E todo este exagero
aliena, cansa e prejudica...
Vou terminar, mas
lembram-se da história do cavalo de Tróia e de como Ulisses e os gregos
através do envio de um espião conseguiram convencer os troianos a
levarem o cavalo de pau para dentro da cidade, sem saberem que ele
levava escondidos os guerreiros gregos que durante a noite abririam as
portas da cidade à entrada dos seus camaradas ? Pois é o que me lembra
todo este episódio da vinda das holandesas, astuciosamente preparadas
para fazerem inofensivos “ workshops” e provocarem um amplo debate de
ideias na sociedade “ obscurantista” portuguesa!!! O barco não entrou de
facto, mas elas aí estão , em terra, nas televisões e nos jornais,
impunemente a incitar ao aborto e a dizerem como, furando a lei
portuguesa ante as nossas barbas...
Uma última palavra positiva, de ânimo e admiração, para as Associações
pró- Vida e seus representantes, que com toda a calma e serenidade têm
conseguido uma excelente prestação nos debates de que me tenho
apercebido, tanto na televisão como na rádio! Parabéns e obrigada pelo
que fazem. Talvez mais alguns de nós , que vos apoiamos, ainda
conseguíssemos um pouco de boa-vontade e tempo para vos imitar e seguir!
Quem sabe?! Comentários, críticas e
sugestões : fonsecas@netcabo.pt